Está oficializada a candidatura de André Ventura à Presidência da República nas eleições de 2026. Depois de muitas declarações sobre como “não seria o ideal para a democracia”, de uma procura por “nomes possíveis” e de uma assunção de falhanço nessa tarefa, o líder do Chega ficou sem soluções, avançou e considerou que a candidatura “é, neste momento, a melhor forma de liderar a oposição em Portugal”.
Num anúncio na sede nacional do Chega, André Ventura justificou que o partido líder da oposição não pode ficar “em silêncio” nem pode “ignorar os seus apoiantes e militantes”, pelo que teria de ir a jogo e não “virar a cara” ao desafio, independentemente do “risco político” que isso possa significar. “A política sem risco é uma chatice”, justificou, citando Sá Carneiro, e assumindo que, ainda que não tenha “desejado” estas eleições, entra nelas para chegar à segunda volta.
Essa ambição, à boleia do crescimento do Chega e do momento positivo que o partido vive, tornou-se o principal gatilho para que Ventura vá a votos, tendo em conta que é a única garantia do partido para alcançar esse objetivo. Aliás, o presidente do Chega não escondeu que tentou e falhou no momento de apresentar outro candidato: “Durante os últimos meses procurei garantir que o Chega tinha um candidato à altura das aspirações, não um candidato qualquer que deixasse pelo caminho o partido, mas alguém que nos levasse à segunda volta das eleições presidenciais de 2026 e mostrasse aquilo em que acreditamos. Falhei nessa tarefa de encontrar alternativa. Não é segredo para ninguém.”
E disse mais, assumindo um desejo antigo: “É sabido de todos que tinha preferido que Pedro Passos Coelho fosse candidato a Presidente da República.” Nem só de tentativas se fez a longa história de Ventura nestas eleições presidenciais, já que acabou por assumir um erro ao colocar Gouveia e Melo nos nomes a “ter em conta”.
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
O adversário “que acontece ser militar” e a luta a quatro
Por outro lado, há um nome que esteve na equação e Ventura não ignorou. “Sei que me referi ao almirante Gouveia e Melo num primeiro momento desta caminhada presidencial. Quero pedir desculpa aos portugueses. Não sabia, como não podia saber, que o almirante Gouveia e Melo, não obstante a forma como se apresentava às eleições presidenciais de fora do sistema, traria para dentro da sua candidatura o pior que o sistema político tem, ou teve, como acontece com Isaltino Morais ou com Rui Rio”, referiu o líder do Chega.
Prosseguindo naquela que já se previu que seja a narrativa de campanha: “As eleições do dia 18 de janeiro serão entre uma candidatura que representa, em nome do Chega, o antissistema e um corte com o domínio dos partidos, e uma candidatura do almirante Gouveia e Melo, que o farão representante do espaço socialista.” Ventura fez questão de tornar Gouveia e Melo, que todas as sondagens colocam em primeiro lugar, como o seu principal adversário e acusando-o de “concordar com o Presidente da República nas leis de imigração, ser contra as propostas do Chega para investigar os responsáveis pelos incêndios e o poder económico por detrás dos incêndios, ou que se alinharia com o PS e com o PSD para fazer valer a cultura do sistema”.
Ventura chegou mesmo a chamar a Gouveia e Melo um “candidato que acontece ser militar”, desvalorizando a farda, que há muito é apontada como um ponto relevante para o eleitorado do Chega.
De resto, André Ventura diminuiu a corrida a quatro candidatos, ao fazer apenas referências a “três candidatos presidenciais” além do próprio: Gouveia e Melo, Luís Marques Mendes e António José Seguro. E deixando de fora os restantes nomes também eles associados a partidos, como é o caso de João Cotrim Figueiredo, Catarina Martins ou António Filipe.
“O sistema sempre quis uma candidatura fraca do Chega nestas eleições”, concluiu, garantindo que o Chega jamais terá candidaturas para “perder ou fracas” e deixando claro que estas presidenciais servirão, nas palavras de Ventura, para “acabar de vez como bipartidarismo e enterrá-lo”. A conquista dessa meta será, realçou, “a garantia de que [o Chega] tomou a opção certa para estas eleições presidenciais”.
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
O “candidato que está farto” não queria ir a votos, mas leva bandeiras do Chega
André Ventura foi dizendo, dia após dia, que não queria ser candidato a Presidente da República, chegou a referir (e a repetir) que seria um “mau sinal para a democracia” o líder da oposição ter de se candidatar a Belém e que o fato que lhe assenta melhor é o de primeiro-ministro. Nada disso o fez ficar fora da corrida. Durante o anúncio, o líder do Chega voltou a repetir a mesma tese, mas “entende que, nas circunstâncias em que condicionaram [o Chega], não há outra forma senão derrotar o sistema também nestas eleições presidenciais”. “Estas eleições presidenciais não foram uma escolha minha, não são o meu desejo, mas são, neste momento, a melhor forma de liderar a oposição em Portugal”, argumentou o presidente do Chega, acrescentando que estas eleições “trouxeram para a sua candidatura o pior que o sistema tem” e que, também por isso, o partido que lidera não podia ficar de fora.
Mesmo assim, o líder do Chega reconheceu que há “riscos” — nomeadamente o de perder algum capital político, como chegou a assumir em entrevista à CNN —, porém justificou que se ficasse a assistir seria ser “igual a todos os outros partidos”, estaria a pensar numa “jogada estratégica”. Agora que deu o passo em frente, Ventura explicou ao que vem e, principalmente, para quem se dirige. Destacou os ex-combatentes que há muito são bandeira do Chega, os que “sentem que a democracia lhes prometeu tudo e os traiu” e os que foram “deixados de lado para que outros tomassem o lugar do privilégio e beneficiassem dos privilégios ilimitados de uma classe política corrupta e de um Estado corrompido”.
E foi ao que não pode faltar num partido que tem conquistado os mais novos: os jovens. “Quero ser o candidato desses jovens, dos que votaram no Chega e que acreditam que o país pode ser diferente, não com os Marques Mendes ou com os almirantes desta vida, mas com políticos novos, diferentes, políticos que não foram abalroados pelos vícios que o sistema político transporta em si”.
Ventura também referiu a corrupção, recuperando uma das bandeiras do Chega para o arranque da candidatura presidencial, até como uma referência a José Sócrates, que, diz, “devia estar na cadeia”. André Ventura entende ser o “o candidato que diz que está farto e que quer representar os que estão fartos de pagar impostos para as minorias ruidosas que continuam a inundar o nosso país e a servir-se dos privilégios do Estado”.
E prometeu: “Serei o candidato que, com imprensa ou sem imprensa, vai dizer que os ciganos têm que cumprir a lei, mesmo que não gostem. Que os imigrantes ilegais terão que voltar para o seu país, mesmo que não gostem. Que os subsídio-dependentes terão de cumprir regras e terão o fim dos subsídios à vista, mesmo que não gostem.”
Ao fim de 20 minutos, André Ventura saiu sem responder a perguntas dos jornalistas — raro no caso do presidente do Chega — e deixou questões no ar, não só sobre como será líder da oposição e candidato ao mesmo tempo, mas também como fica o Governo-sombra que está prometido para esta quinta-feira. Uma coisa é certa, Ventura entrou na corrida e vai abanar a disputa à direita.