Não se sabe quando, nem quanto ou a quem. Nem sequer se sabe se a ameaça vai mesmo tornar-se real. Mas as empresas portuguesas que dependem, muito ou pouco, das vendas para os Estados Unidos, nos últimos dias só têm uma palavra em mente: “tarifas”. Dos dois lados do Atlântico vai-se tentando antecipar o que é possível, numa altura em que só o clima de incerteza assusta mais do que a ideia de novas taxas alfandegárias.
Há quem já esteja a enviar para os EUA o equivalente a seis meses de encomendas, e quem admita que esta pode ser uma oportunidade para algumas (poucas) empresas nacionais instalarem fábricas no país governado por Donald Trump. No sentido inverso, alguns setores adivinham que vem aí pressão por parte dos compradores norte-americanos para baixar preços, para compensar possíveis tarifas. Entre os empresários e associações setoriais ouvidas pelo Observador, há apreensão e cautela. Mas ninguém quer desistir do sonho americano.
Daqui a menos de dois meses, no início de abril, Frederico Falcão estará de malas feitas para Austin, no Texas. De lá partirá para Boston, três dias depois. Consigo, o presidente da ViniPortugal levará, em princípio, 20 a 30 produtores de vinho, ansiosos por dar a provar à América o produto das uvas nacionais. Os EUA são o maior importador mundial de vinho. Em 2023, compraram a Portugal 100 milhões de euros. São o terceiro maior cliente dos produtores portugueses em volume (só atrás de França e do Brasil) e o segundo maior em volume, atrás dos franceses, segundo dados do Instituto da Vinha e do Vinho. O vinho surge no 11.º lugar das exportações portuguesas para os EUA.
É por isso natural que as ameaças de Donald Trump sobre a imposição de tarifas façam tremer os produtores. “Há várias empresas portuguesas que têm nos EUA o seu maior mercado”, revela Frederico Falcão. Acontece sobretudo nos vinhos verdes e no Douro. Desde que o espectro das tarifas começou a pairar, alguns produtores “começaram a sentir receios por parte dos importadores”. E no final de 2024 “algumas empresas já adiantaram seis ou oito meses de compras para 2025, com medo das tarifas”.
“A perceção geral é de alguma preocupação”, reconhece Luís Miguel Ribeiro, presidente da Associação Empresarial de Portugal (AEP), que representa centenas de empresas de vários setores e que, com frequência, organiza missões empresariais aos EUA. “Em primeiro lugar porque o mercado dos EUA estava a crescer cerca de três vezes mais que a média dos restantes mercados. Por outro lado, porque isto acontece numa altura em que os principais destinos de exportações na Europa estão estagnados, e até se perspetiva que a própria Europa possa entrar em recessão. Estas possíveis tarifas nesta fase vêm acrescentar uma preocupação grande”, lamenta o líder da AEP.
Há setores “mais expostos e mais preocupados”, como o têxtil e o calçado, segundo o presidente da AEP, onde “a necessidade de apoio à tesouraria das empresas já se faz sentir”, não por causa dos EUA mas devido à “estagnação” da Europa. As tarifas vêm só agravar a inquietação.
▲ Em 2023, os EUA compraram 100 milhões de euros de vinho português.
Os EUA são o quarto principal destino das exportações nacionais. Segundo os dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) relativos a 2023 (os dados de 2024 serão publicados esta segunda-feira), Portugal vendeu para os EUA 5.238 milhões de euros nesse ano. É esperado que o valor de 2024 seja superior. Os dados já disponíveis permitem perceber que de janeiro a novembro de 2024 Portugal exportou para os EUA mais 404 milhões de euros face ao mesmo período do ano anterior. Já as importações têm diminuído. Em 2023 caíram 35,6%, o equivalente a 1.248 milhões de euros, em relação a 2022, ficando em 2.250 milhões.
EUA são o quarto principal destino das exportações portuguesas
O que é que Portugal vende aos EUA?
O top 10 de vendas portuguesas aos EUA é eclético. Os produtos farmacêuticos ocupam há alguns anos o primeiro lugar. Na lista de empresas com mais vendas aos EUA há três farmacêuticas: a Eli Lily (de origem norte-americana), a Hovione e a Hikma. Seguem-se os combustíveis, a borracha e as máquinas, aparelhos e materiais elétricos. Portugal exporta ainda mais de 200 milhões de euros numa categoria que inclui reatores nucleares, caldeiras, máquinas, aparelhos e instrumentos mecânicos, e que completa o top cinco. É um setor que já está habituado às regras dos norte-americanos.
“Já temos algumas empresas que estavam a sentir dificuldades antes. Há muitas peças que estão relativamente vinculadas com o setor da defesa, mesmo que algumas não estejam a trabalhar para a defesa. É uma área bastante mais regulada, o que significa que há já muitas tarifas que estão a afetar o setor, ou pelo menos muitas restrições que afetam empresas do nosso setor”, diz ao Observador Rafael Campos Pereira, vice-presidente da Associação dos Industriais Metalúrgicos, Metalomecânicos e Afins de Portugal (AIMMAP).
No setor, há empresas cuja faturação chega a depender 30% a 40% dos EUA. Mais do que preocupação, Rafael Campos Pereira vê as empresas a pensar em soluções para enfrentar o possível problema. “Nunca há planos de contingência para estas coisas. O que acontece é que as empresas têm de ser suficientemente flexíveis, e têm sido ao longo dos últimos anos, para encontrar alternativas”. Como por exemplo? Abrir fábricas nos EUA.
“Uma fábrica nos EUA abre-se em três meses, ao contrário do que acontece em Portugal e na Europa. Nos EUA apoiam o empreendedorismo, apoiam a indústria, e agora ainda mais. Na Europa estamos sempre do lado do problema e não da solução, e em Portugal mais ainda”, vinca o responsável. Rafael Campos Pereira acredita que “algumas, poucas”, poderão optar por esse investimento.
“É um número pequeno mas mesmo poucas podem arrastar e alavancar outras empresas portuguesas. A Metalogalva está lá”, exemplifica. Esta, que é a 10.ª empresa nacional que mais exporta para os EUA, abriu em 2023 uma fábrica em Memphis, no Tennessee, para produzir estruturas metálicas para a indústria fotovoltaica. Previa faturar 80 milhões de euros em 2024.
“Temos muitas empresas no México, que também são afetadas pelas tarifas ao México mas que estão ali mais próximas e, eventualmente, estarão a pensar entrar no mercado norte-americano”, aponta ainda o presidente da AEP. “Temos no México a Ricardo & Barbosa, a Colep, a Simoldes… Estamos a falar de dezenas de empresas portuguesas instaladas ali. Realisticamente não podemos falar de muitas empresas a abrir nos EUA, mas muitas vezes é o golpe de asa que é preciso, porque é mais difícil abrir uma fábrica em Portugal do que nos EUA, em termos de burocracias, constrangimentos. Claro que os salários estão diferentes mas empresas boas que vendam para lá podem, em alguns casos, ter essa capacidade”, destaca.
É precisamente na redução do peso da burocracia em Portugal e na Europa que a AEP considera que deve estar o foco, para que os países estejam mais preparados para enfrentar “abanões” como a imposição de tarifas. “A Europa tem muitas dificuldades em tomar decisões. E tem de competir com blocos que têm, decidem, fazem e avançam e as políticas têm consequências imediatas”, como os EUA, mas também a China, diz Luís Miguel Ribeiro. “Em Portugal temos de definir que a desburocratização tem de ser uma prioridade nacional”. Dá como exemplo os fundos comunitários, “que deviam ter avisos em contínuo”, para que as empresas pudessem definir o timing dos pedidos ao seu ritmo.
“A Europa tem tido relatórios interessantes”, como o de Mario Draghi, lembra, “mas ainda não se conhecem medidas que possam vir a alterar a capacidade de resposta da Europa face a estes desafios. O peso das importações na Europa é cerca de 47%. Nos EUA é de 14% e na China é de 18%. Temos uma economia europeia com um grau de abertura de 97%. A dos EUA é de 25% e na China 37%. Todos estes impactos são maiores na Europa do que noutros blocos económicos. Hoje são estes mercados a tomar estas decisões mas amanhã podem ser outros. Não podemos passar a vida a reagir ao que os outros fazem. Estas tarifas podiam ser uma preocupação menor para a Europa e Portugal se tivéssemos esta agilidade”, conclui o presidente da AEP, que defende ser este o tempo para “de uma vez por todas” se “reindustrializar” a Europa.
“Medir o pulso” da América na Alemanha e uma “oportunidade” nos colchões
João Martins estava de partida para a Alemanha no dia em que falou com o Observador. Esta sexta-feira começa, em Frankfurt, a Ambiente 2025, uma das principais feiras do mundo de objetos para decoração. É lá que, nos próximos dias, o CEO da Cerâmica da Borralheira conta “medir o pulso” aos clientes norte-americanos. “Os Estados Unidos são o nosso segundo mercado e estou apreensivo”, confessa. O país vale 15% das exportações da empresa do distrito de Aveiro, que se dedica à produção de vasos e artigos de jardim. As cerâmicas são o 14.º produto mais vendido de Portugal para os EUA. Em 2023, as vendas chegaram perto dos 91 milhões de euros e até novembro do ano passado, de acordo com os dados fornecidos ao Observador pelo INE, ultrapassaram os 80 milhões.
A experiência de João Martins com os clientes norte-americanos já lhe permite antecipar pelo menos uma coisa. “Do que já conheço sinto que vai haver pressão dos compradores no sentido de tentarem refletir esse aumento de preços nos fornecedores, ou seja, vai haver pressão para nós reduzirmos os preços para compensar” a aplicação de taxas.
“Quando estas coisas acontecem ou quando há novas tarifas há sempre uma pressão grande para que o fornecedor baixe preços para tentar compensar esse aumento das tarifas. Esse risco existe”, corrobora Frederico Falcão. No caso do vinho, essa pressão vai juntar-se à que já existe num país “que está um bocadinho inundado de vinho”, aponta. “Há muito arranque de vinha na Califórnia. Havendo muito vinho em stock porque há menos consumo, já temos aqui uma pressão para baixar preços. Com tarifas vai ser uma pressão adicional. E Portugal precisa de aumentar o preço médio para ter sustentabilidade económica”. Seja no vinho ou na cerâmica. “Não temos margem para baixar os preços, pelo contrário, temos pressão para subir”, diz João Martins.
▲ Os EUA são o quarto principal destino das exportações nacionais.
Corbis via Getty Images
Miguel Cunha, responsável de vendas do grupo Mindol, fabricante de colchões, chama a esta tática “a escola de vendas norte-americana”. “É única no mundo”, reconhece. E vai ser posta em prática não tarda, antecipam os empresários portugueses. “Quem estiver dependente do mercado dos EUA vai sofrer na pele”, vaticina Miguel Cunha. “Quer haja taxas ou não, eles vão apertar os fornecedores para baixar preços. Estão a levar com taxas, problemas, regras alteradas e vão pedir a ajuda dos fornecedores”.
Só há pouco mais de um ano é que a Mindol entrou no mercado norte-americano. Os colchões surgem em nono lugar no top das exportações nacionais para os EUA, juntamente com as “almofadas e semelhantes”, numa categoria de bens mais vasta que inclui vários “móveis”, como mobiliário médico-cirúrgico, luminárias e aparelhos de iluminação, anúncios, cartazes ou tabuletas e placas indicadoras e construções pré-fabricadas. Em 2023, as vendas do setor rondaram os 128 milhões de euros.
Para a Mindol, a faturação nos Estados Unidos ainda não é relevante. Mas Miguel Cunha espera que venha a ser. Não é um produto fácil de exportar para o país, explica. Mas abriu-se uma brecha de oportunidade que a empresa espera que as tarifas não venham fechar. “Temos de ter uma certificação. Na produção de colchões, precisamos de uma licença de exportador oficial. Temos de mandar colchões para lá, submeter à aprovação, fazer o pagamento de umas taxas, e depois podemos começar começar a enviar mediante umas regras que eles têm”.
Esse trabalho foi feito pela Mindol em 2023 e no ano seguinte já concretizaram uns milhares de euros em vendas. “Quisemos dar uma importância especial à faturação naquele mercado porque estavam a começar os embargos a material” proveniente de alguns países. Na prática, os EUA impuseram uma taxa anti-dumping aos colchões de certos países, que inicialmente eram 13 mas acabaram por ser apenas quatro — Espanha, Índia, México e Kosovo. “À entrada da alfândega, alguns produtos são taxados a 200%, o que é uma coisa abismal”. Portugal escapou a estas taxas. Mas a oportunidade não escapou à Mindol. “O nosso pensamento foi sempre: este mercado é gigante e pode ter um peso muito grande” na faturação.
Apesar do cenário de novas barreiras no horizonte ser desanimador, a ambição mantém-se, garante Miguel Cunha. “Continua a ser um mercado em que queremos apostar mas ninguém sabe muito bem que direção tomar, porque isto veio mudar tudo. Se meterem uma taxa de 25% vai matar o negócio à nascença”, nota. Do lado dos clientes norte-americanos “para já está tudo muito calado”. A empresa recebeu recentemente uma encomenda e o responsável de vendas tem uma viagem planeada aos EUA no primeiro semestre. “Continua a ser um mercado importante porque é gigante e poucas empresas estão preparadas para vender para lá”. Se “der barraca”, diz Miguel Cunha, a Mindol, tal como várias das empresas ouvidas pelo Observador, não terá escolha: vai procurar alternativas noutras paragens.
“Um mercado que corre muito bem é o Brasil“, pelo menos no caso do vinho, ressalva Frederico Falcão. “Mas neste momento o câmbio do real com o euro está muito desfavorável para eles”. Ainda assim, o ímpeto de “diversificar mercados”, que já pairava nas empresas antes da fúria taxadora de Trump, “é cada vez mais evidente” desde que as tarifas passaram a dominar as conversas de negócios.
Também a AEP vai este mês com uma delegação de empresas à cimeira luso-brasileira, em busca de oportunidades. E há anos que o continente africano está constantemente na mira das empresas portuguesas. Angola e Moçambique são dos mercados prediletos da Mindol, conta Miguel Cunha.
A procura por soluções noutras geografias não quer dizer que as empresas desistam dos EUA. “Mas temos de diversificar para mitigar os impactos quando se tomam medidas destas”, ressalva Luís Miguel Ribeiro. “Há que reforçar e valorizar relações com mercados com os quais já existe afinidade cultural e linguística. O trabalho de apoio à exportação tem de ser contínuo, os mercados têm de ser trabalhados”, defende a AEP.
À parte disso, Luís Miguel Ribeiro considera ainda que “Portugal e a Europa têm aqui algumas oportunidades“. Na medida em que “podem ser espaço de opção para investimentos, para a instalação de algumas indústrias importantes”, até “na sequência do último acordo com o Mercosul e da relação que temos com África”, através dos quais “podemos potenciar essas relações e os negócios com esses mercados e minimizar em parte o impacto destas medidas”.
À conquista do Tennessee
Se as tarifas entrarem em vigor “em breve“, como ameaça Donald Trump, nem todas as empresas que nos últimos anos trabalharam os EUA vão ter capacidade para, já em 2025, diversificar mercados, avisam os empresários. Para essas, há outra solução em carteira. “Algumas empresas estão no processo de acrescentar mais valor aos seus produtos e serviços, o que lhes permite continuarem a ser competitivas e a ganhar dinheiro vendendo para os EUA mesmo com as tarifas”, aponta Rafael Campos Pereira, da AIMMAP.
É isso que espera João Martins, da Cerâmica da Borralheira. “A minha única esperança é que o nosso tipo de produto” sobressaia, uma vez que “a nossa principal concorrência é o produto asiático”. E que, “em termos de taxas, o nosso produto europeu não seja agravado em relação às taxas aplicadas ao produto que vem da China”, refere o empresário.
No setor do vinho, a expectativa é semelhante. “Eu acho que os vinhos não vão ser afetados pelas tarifas”, declara Frederico Falcão. Na ViniPortugal, o mapa dos Estados Unidos continua em cima da mesa. Há várias ações de promoção para preparar naquele que é o país onde o setor mais investe neste tipo de iniciativas. Afinal, Portugal é o oitavo maior fornecedor de vinho aos EUA.
Além de Austin e Boston em abril, os produtores vão a Nova Iorque e Atlanta em setembro, numa “ação grande” com o Turismo de Portugal na qual devem participar “70 ou 80” empresas. Há ainda “ações de educação” previstas para São Francisco e Chicago e uma feira de sommeliers no Texas. Isto além das chamadas visitas inversas, em que os importadores vêm a Portugal. “Estamos a tentar ir a mais estados, não concentrar só na Califórnia ou Nova Iorque, ir ao Texas, ao Tennessee… vamos tentar ganhar quota de mercado. Porque assim, mesmo que o mercado caia, podemos crescer ganhando quota”. Do lado das empresas, para já não há desistências. Se as tarifas forem elevadas, “é possível que algumas voltem atrás” no projeto EUA. “Vamos ajustando, temos um plano estratégico até 2030”. E até 2030, também os planos de Trump podem mudar.
“Não é bluff”. Trump tem economia para suportar a “dor” de “ir até ao fim” nas tarifas