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A pesquisa sobre a Covid-19 foi liderada pela virologista Shi Zhengli, de 55 anos, a quem, na China, chamam a 'mulher morcego',  à conta das expedições a cavernas de morcegos

AFP via Getty Images

A pesquisa sobre a Covid-19 foi liderada pela virologista Shi Zhengli, de 55 anos, a quem, na China, chamam a 'mulher morcego',  à conta das expedições a cavernas de morcegos

AFP via Getty Images

Vírus fabricado, fuga acidental ou fake news? O que se sabe sobre Wuhan e os vírus que escapam de laboratórios /premium

Falta de transparência da China abriu a porta à teoria de que o vírus teve origem no laboratório de Wuhan. Ciência prova que não foi fabricado e duvida de fuga acidental, mas não seria o primeiro.

Entre todas as dúvidas que ainda existem sobre a origem exata do novo coronavírus, a ciência parece ter uma certeza: o vírus responsável pela Covid-19 — e pela pandemia que paralisou o mundo — teve uma origem natural e saltou de animais, provavelmente morcegos, para humanos. Isso mesmo mostrou a sequenciação do genoma do SARS-CoV-2. Um estudo publicado na edição de abril da Nature Medicine explica que o novo coronavírus evoluiu naturalmente porque verificam-se “falhas na proteína que é usada pelo vírus para se ligar às células humanas” — o que, segundo os autores do estudo, trata-se de uma “deficiência” que seria evitada por quem estivesse a tentar criar um “vírus assassino”.

“As nossas análises mostram que o SARS-CoV-2 não é uma construção de laboratório ou um vírus manipulado”, afirmaram os cientistas, liderados pela bióloga Kristian Andersen, do Instituto de Pesquisa Scripps, na Califórnia.

A ciência derruba, assim, a tese da arma biológica fabricada no laboratório, que guerras políticas, mas também a opacidade da China em relação ao tema — têm alimentado. Mas não resolve a questão da “fuga” acidental, que é mais complexa porque coexiste com o facto de se estar perante um vírus natural e não manipulado. Estaria esse vírus natural a ser estudado em laboratório? Terá havido alguma falha no protocolo de segurança e o vírus ter vazado para fora das instalações?

A ciência derrubou a tese da arma biológica fabricada no laboratório. Já a questão da "fuga" acidental é mais complexa porque coexiste com o facto de se estar perante um vírus natural

SHEPHERD ZHOU/EPA

Os cientistas são céticos em relação à ideia, por ser altamente improvável. E recordam que outros coronavírus que causaram infeções respiratórias graves nos últimos 20 anos (como SARS ou MERS) também saltaram de animais para humanos. Mas não é impossível. Tanto que já aconteceu, mesmo em laboratórios de máxima segurança, como o de Wuhan, noutros países. E, por vezes, através de pequenas falhas técnicas, como o sistema de ventilação.

Até agora, nem as autoridades de saúde pública chinesas, nem as equipas de cientistas do mundo inteiro que se dedicam ao estudo da Covid-19 responderam a uma questão crucial: como é que o vírus chegou ao mercado de animais vivos de Wuhan?  E estará a fonte original do SARS-CoV2 ainda ativa?

O que se sabe sobre o Instituto de Virologia de Wuhan

O laboratório de última geração que está no centro de todas as atenções pertence ao Instituto de Virologia de Wuhan, afiliado da Academia Chinesa de Ciências, e administrado pelo governo central. O Instituto abriga, ainda, o China Center for Virus Culture Collection, o maior banco de vírus da Ásia, onde estão preservadas mais de 1500 estirpes.

O Laboratório Nacional de Biossegurança é a única instalação de microbiologia na China continental classificado com o nível mais alto de segurança biológica – conhecido como BSL-4

SHEPHERD ZHOU/EPA

O Laboratório Nacional de Biossegurança é a única instalação de microbiologia na China continental classificada com o nível mais alto de segurança biológica (biosafety level) — conhecido como BSL-4 —, o que significa que está habilitado a armazenar amostras de vírus vivos, como o Ébola ou os coronavírus, assim como a dedicar-se ao estudo e investigação de outros agentes patogénicos virulentos, frequentemente fatais e, na maioria das vezes, sem uma vacina associada. Em Taiwan já existem dois laboratórios BSL-4.

Planeado em 2003 pela Academia de Ciências da China, o complexo pretendia oferecer “oportunidades à comunidade científica chinesa” e contribuir para “beneficiar o mundo” com o estudo de vírus perigosos com um alto risco de contaminação, como explicou George Gao, atual chefe do Centro Chinês de Controle e Prevenção de Doenças, no lançamento do projeto, à revista Nature. E que previa, ainda, a construção de mais cinco a sete laboratórios de referência da Organização Mundial de Saúde até 2025.

Foi desenhado e construído com o apoio da França, através de uma joint venture com um laboratório BSL-4 em Lyon, no âmbito de um programa de prevenção e controle de doenças infectocontagiosas. Mas a complexidade do projeto, a falta de experiência da China e toda a burocracia à volta das licenças, fizeram com que a construção só fosse concluída em 2015. E já sem a França.

O laboratório teve um custo estimado de 40 milhões de euros e só em 2018 é que foi inaugurado, com um evento de exaltação nacional. “O laboratório fornecerá à nossa nação um completo e avançado sistema de biossegurança, e os cientistas chineses têm agora a possibilidade de estudar os agentes patogénicos mais perigosos do mundo no seu país”, anunciou o governo chinês, em comunicado, na abertura das instalações, em janeiro de 2018.

Depois de testemunhar a rapidez com que a SARS varreu o território, o ex-presidente, Hu Jintao, começou a preparar o país para lidar com futuras infeções

LUCA ZENNARO/EPA

A Technip, a empresa francesa que deveria certificar se as instalações estava em conformidade com os padrões de segurança, recusou prestar o serviço depois de abandonar o projeto, em 2015. A revista de negócios francesa, Challenges, avançou com a notícia do projeto ter fracassado porque as forças militares da França se opuseram à entrega de vírus vivos à China, com o receio de que fossem usados ​​para armas biológicas.

Porque quis a China construir um laboratório BSL-4?

O plano do governo chinês foi delineado após a epidemia da SARS (Síndrome Respiratória Aguda Grave) que, entre 2002 e 2003, matou quase 700 pessoas e infetou mais de cinco mil. Paralisou a economia durante três meses, interrompeu as aulas e levou ao isolamento compulsivo de doentes, atingindo principalmente Pequim, a cidade que registou o maior número de casos.

Depois de testemunhar a rapidez com que a infeção varreu o território e outras partes da Ásia, o ex-presidente, Hu Jintao, começou a preparar o país para lidar com futuros surtos de doenças infecciosas. E impulsionou a construção de uma instalação BSL-4 com o objetivo de fortalecer a capacidade de controlo e resposta da China e melhorar as capacidades de investigação e desenvolvimento de vacinas e medicamentos.

Fora da China, esse plano a longo prazo não foi consensual. Alguns cientistas dissidentes identificaram o risco de fuga de agentes patogénicos e revelaram receio da escalada das tensões geopolíticas entre a China e outras nações — a que se juntaria, agora, o fator biológico. Na China, os investigadores comemoraram o facto de lhes terem sido atribuído poderes para enfrentarem as maiores ameaças virais do mundo. Um símbolo de status em biologia. Para além da China, existem instalações BSL-4 em França, Canadá, Alemanha, Austrália, EUA, Inglaterra, Suécia e África do Sul, entre outros. O Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge, em Portugal, é um BSL-3.

O laboratório tornou-se um centro de pesquisa global sobre as consequências devastadoras dos coronavírus. A pesquisa inovadora foi liderada pela virologista Shi Zhengli, de 55 anos — a quem, na China, chamam a 'mulher morcego', à conta das expedições a cavernas de morcegos para estudar como os coronavírus saltam entre as espécies.

O foco da pesquisa inicial, segundo conta a Nature, foi para a febre hemorrágica da Crimeia do Congo, assim como para o Ébola e o vírus de Lassa. Mas logo o laboratório se tornou num centro de pesquisa global sobre as consequências devastadoras dos coronavírus. A pesquisa inovadora foi liderada pela virologista Shi Zhengli, de 55 anos — a quem, na China, chamam a ‘mulher morcego’, à conta das expedições a cavernas de morcegos para estudar como os coronavírus saltam entre as espécies.

Em 2004, descobriu um reservatório natural de vírus em morcegos que viviam em cavernas no sul da China. Durante 15 anos, trabalhou de perto na transmissão do vírus de animal para humano com os principais especialistas do mundo inteiro, incluindo Peter Dazak, presidente da EcoHealth Alliance, uma organização sem fins lucrativos, com sede em Nova Iorque, que realiza programas de pesquisa e divulgação sobre saúde global.

Só em 2017 é que Shi Zhengli, e a sua equipa, concluíram que o vírus SARS-CoV (uma estirpe anterior à atual) tinha uma origem zoonótica, ou seja, que salta de animais para seres humanos, em particular de morcegos. Foi esse conhecimento, e dias inteiros de trabalho, que lhes permitiu a identificar a Covid-19 em janeiro. Em fevereiro, publicaram um artigo na revista científica Nature onde concluíam que o novo coronavírus “é 96% idêntico ao genoma inteiro de um coronavírus de morcego-ferradura”, encontrado na província de Yunnan, no sul da China.

Segurança máxima. O laboratório cumpria todas regras?

Na abertura das instalações, em janeiro de 2018, Yuan Zhiming, o diretor do laboratório BSL-4, afirmou à comunicação social que a partir desse momento, “a China iria assumir ativamente a responsabilidade de assegurar a segurança da saúde pública mundial”.

Os rumores de uma segurança inadequada em vários laboratórios chineses já circulavam em Washington dois anos antes da pandemia. No Centro para Controle e Prevenção de Doenças, em Wuhan, um edifício vizinho do Instituto de Virologia, (mas a operar no nível 2 de biossegurança), várias falhas graves já tinham sido identificadas.

Nas novas instalações, explicou ainda o diretor, foram implementados protocolos rigorosos de segurança de forma a garantir a certificação pelo Serviço Nacional de Acreditação da China — que depois de ter avaliado a estrutura e os métodos de trabalho do laboratório, determinou que estava assegurada a eficaz “prevenção de disseminação de agentes patogénicos infeciosos para o ambiente”. Ou seja, o ar, a água e os resíduos tóxicos estavam a ser filtrados e tratados antes de saírem do laboratório. As condições de segurança para os investigadores também estavam acauteladas, segundo o serviço de acreditação da China. Era-lhes pedido que trocassem de roupa e tomassem banho antes e depois de usarem as instalações.

Para aliviar as preocupações com a segurança, o complexo de 3.000m2 foi instalado num prédio dividido em quatro andares: o sistema de tratamento de resíduos e preservação biológica no subsolo; o laboratório principal no segundo andar; o sistema de filtragem do ar no terceiro, e entre o segundo e o terceiro piso, os sistemas de canalização. No topo do edifício, o ar condicionado. A instalação foi construída nos arredores montanhosos de Wuhan, com capacidade para suportar um terramoto de magnitude 7.

Mas os rumores de uma segurança inadequada em vários laboratórios chineses já circulavam em Washington dois anos antes da pandemia. No Centro para Controle e Prevenção de Doenças, em Wuhan, um edifício vizinho do Instituto de Virulogia, (mas a operar no nível 2 de biossegurança), várias falhas graves já tinham sido identificadas.

Em março de 2018, a Embaixada dos Estados Unidos em Pequim, numa decisão sem precedentes, enviou diplomatas científicos ao Instituto de Virologia de Wuhan. A delegação foi liderada por Jamison Fouss, cônsul em Wuhan, e Rick Switzer, especialista da embaixada em ciência, tecnologia e saúde. Nos dois telegramas diplomáticos que enviaram a Washington, logo após as visitas, alertavam para a escassez de técnicos e cientistas treinados para conduzirem pesquisas relacionadas com os coronavírus. Solicitavam ainda que os Estados Unidos prestassem atenção ao laboratório de Wuhan porque os estudos dos coronavírus de morcego eram “importantes”, mas “perigosos”.  

Nenhuma “assistência extra” foi prestada pelo governo dos EUA aos laboratórios. Os telegramas começaram a circular, novamente, dentro da administração Trump nos últimos dois meses, segundo o New York Times. 

É possível um vírus “escapar” acidentalmente de um BSL-4? Já aconteceu

É o que tem promovido o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que acusa o Laboratório Nacional de Biossegurança de ser o responsável pela explosão da pandemia que, mais tarde, veio ajudar a identificar — e a resposta das autoridades chinesas não se fez esperar. Hua Chunying, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, pediu aos Estados Unidos para pararem de colocar a culpa na China com o propósito de desviarem a atenção do modo como lidaram com a pandemia. “O que fizeram os EUA nos últimos meses? Como deixaram que o surto se tornasse incontrolável?

A troca de acusações desvia a atenção do que interessa: das redes de laboratórios BSL-4. A primeira instalação BSL-4, no Japão, foi construída em 1981, mas só em 2015 é que começou a operar com agentes patogénicos de maior risco, quando foram solucionadas todas as questões da segurança. A expansão dos laboratórios BSL-4 nos Estados Unidos e na Europa, nos últimos 15 anos, também encontrou resistência, incluindo questões sobre a necessidade de tantas instalações.

Quando os laboratórios estão a trabalhar com vírus patogénicos para evitar que se espalhem nas comunidades, as trágicas consequências são chamadas de “profecias auto-realizáveis”

AFP via Getty Images

O risco de uma pandemia provocada por uma fuga de laboratório não é hipotético: a primeira vez que isso aconteceu foi em 1977, devido, ironicamente, à preocupação de que uma pandemia natural estivesse iminente. Por esse motivo, quando os laboratórios estão a trabalhar com vírus patogénicos para evitar que se espalhem nas comunidades, as trágicas consequências são chamadas de “profecias auto-realizáveis”, segundo o site The Bulletin.

O vírus H1N1 reapareceu em 1977, na União Soviética e na China. Os virologistas, servindo-se de testes serológicos e genéticos, concluíram que o reaparecimento estava relacionado com a fuga de um vírus de 1949-1950 de um laboratório, que poderia estar a preparar uma vacina H1N1. A pandemia de 1977 espalhou-se rapidamente em todo o mundo, mas causava doenças leves e as mortes foram poucas. O vírus continuou a circular até 2009, quando o pH1N1 o substituiu. Não houve praticamente nenhuma consciencialização do público sobre a pandemia de H1N1 de 1977, nem das suas origens laboratoriais.

No Reino Unido, entre 1963 e 1978, foram contabilizados 80 casos e três mortes resultantes de fugas de dois laboratórios acreditados para varíola. A primeira fuga, em março de 1972, infetou uma assistente de laboratório da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres, que esteve em contacto com o vírus vivo e que, apesar de ter sido hospitalizada, não foi isolada. Infetou os dois visitantes do paciente deitado na cama ao lado da sua e todos acabaram por morrer. Uma enfermeira sobreviveu, assim como a assistente de laboratório. Em agosto de 1978, uma médica da Birmingham Medical School, com o hobby da fotografia, contraiu varíola e morreu. Infetou a mãe, que sobreviveu. Viria a descobrir-se que o seu estúdio de fotografia era no piso superior ao laboratório de varíola na Birmingham Medical School. Ventilação defeituosa e falhas técnicas estiveram na origem do óbito.

Durante o surto do SARS, entre 2002 e 2003, contam-se seis fugas nos laboratórios de virologia: duas em Singapura e Taiwan e quatro do mesmo laboratório de Pequim. O primeiro foi em Singapura, em agosto de 2003. Um estudante de virologia, 27 anos, da Universidade Nacional de Singapura, foi infetado. A contaminação ocorreu em instalações BSL3 – um nível abaixo de Wuhan – e concluiu-se que os padrões de segurança foram comprometidos porque os investigadores estavam a trabalhar todos juntos devido a obras a decorrer no complexo.

A Organização Mundial da Saúde formou um comité de especialistas para rever as diretrizes de biossegurança do SARS. A segunda fuga ocorreu em Taiwan em dezembro de 2003, quando um cientista que manipulava o vírus SARS adoeceu depois de participar numa reunião em Singapura. Foi preciso colocar 74 pessoas de quarentena mas nenhuma desenvolveu SARS. A investigação revelou que o cientista lidou com os resíduos de risco biológico sem luvas, máscara ou bata.

A expansão dos laboratórios BSL-4 nos Estados Unidos e na Europa, nos últimos 15 anos, também encontrou resistência, incluindo questões sobre a necessidade de tantas instalações.

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Investigações subsequentes descobriram inúmeras deficiências em biossegurança no Instituto Nacional de Virologia da China, em Pequim. As quatro fugas foram atribuídas a uma preparação inativada do vírus da SARS usada em áreas laboratoriais gerais (ou seja, não biosseguras) – sem sequer ter sido confirmada a sua segurança após a inativação.

Em 2007, no Reino Unido, a febre aftosa apareceu novamente a quatro quilómetros de um laboratório de nível 4 de biossegurança localizado em Pirbright. A estirpe causou um surto em 1967 mas já não circulava entre os animais. Foi, no entanto, usada no fabrico de vacinas nas instalações do laboratório. As investigações concluíram que os veículos pesados que por ali circulavam transportavam lama contaminada com febre aftosa de uma linha de águas residuais que ligava o laboratório à quinta onde os primeiros animais foram contaminados.

Ao site da Nature, Tim Trevan, fundador da Chrome Biosafety and Biosecurity Consulting, realça que uma cultura aberta é importante para manter os laboratórios BSL-4 em segurança. E questiona se isso é possível na China. “Pontos de vista diferentes, grupos de trabalho onde todos se sentem livres para falar e transmitir informações é importante”, disse ele, em 2018. Em resposta às inquietações Trevan, Yuan Zhiming, diretor do laboratório, assegurava que esse problema estava a ser ultrapassado em equipa. “Tenho vindo a transmitir que o mais importante é relatarem abertamente o que fizeram ou não fizeram”, diz ele. “A transparência é a base do laboratório“.

As suspeitas sobre Wuhan que se transformaram em guerra política

É preciso recuar até janeiro, ao momento em que os primeiros relatórios com dados clínicos sobre os doentes infetados na China ficaram disponíveis online e acessíveis aos investigadores, para perceber o que levou a origem do surto a ser posta em causa. Esses dados foram publicados na revista The Lancet em dois estudos separados. Resumidamente, concluíam que o novo vírus causava sintomas semelhantes aos relatados com a SARS (Síndrome respiratória aguda grave) e confirmavam que o SARS-CoV2 podia transmitir-se entre pessoas infetadas e entre cidades. As dúvidas foram, depois, levantadas nas páginas da revista Science. Dois especialistas constataram que num dos trabalhos divulgados na The Lancet, dos 41 casos analisados, 13 não tinham qualquer ligação ao mercado. Daniel Lucey, especialista em doenças infecciosas na Universidade de Georgetown, admitiu que “antes de o vírus sair do mercado de Wuhan, ele entrou no mercado de alguma forma ainda desconhecida”.

Resolver esse mistério de saúde pública é importante para evitar futuras pandemias. O que parece cada vez mais claro para a comunidade científica é que a “história inicial” – de que o vírus foi transmitido por pessoas que comeram animais contaminados à venda no mercado, em Wuhan – é “instável”.

A coincidência da pandemia ter ‘nascido’ na mesma cidade onde está instalado o laboratório BSL-4 levantou algumas dúvidas. O mais curioso é ter sido a virologista Shi Zhengli a colocar a pergunta que se impõe até hoje: “Poderiam os vírus ter vindo do nosso laboratório?” E disse-o durante uma entrevista à Scientific American, em março. Afinal, era no laboratório às portas de Wuhan que estavam armazenadas inúmeras amostras de vírus transmitidos por morcegos ao longo dos anos. E se ainda não há evidências de que os procedimentos rigorosos de segurança foram violados (tanto Shi como o laboratório já emitiram comunicados a desmentir qualquer falha nos protocolos) também é verdade que os acidentes acontecem.

O lixo produzido pelos laboratórios contém "vírus, bactérias ou micróbios com um impacto potencialmente mortal nos seres humanos, animais ou plantas". E, segundo Yang Zhanqiu, vice-diretor do departamento de Biologia da Universidade Wuhan, alguns cientistas despejavam esses materiais diretamente no sistema de esgotos, "sem recorrerem a um mecanismo específico de descarte biológico".

Criado no laboratório ou saído de lá por acidente, a China negou sempre qualquer uma das versões: “Gostaria de lembrá-los que a OMS afirmou repetidamente que não há evidências de que o vírus tenha sido produzido em laboratório”, disse Hua Chunying, porta-voz do ministério das Relações Exteriores da China. “Muitos especialistas também desconsideram a teoria do ‘acidente’ por não se basear em factos científicos”.

Em princípio, não somos alérgicos a nenhuma forma de investigação ou avaliação”, que permitam “preparar futuras emergências de saúde”, mas “não temos tempo a perder para salvar vidas”, sublinhou o diplomata.
Embaixador chinês nas Nações Unidas, Chen Xu

Mas há vozes a sugerir o contrário. Para Luc Montagnier, o virologista francês que identificou o vírus do HIV em 1983, a fonte da pandemia é mesmo o laboratório nacional de biossegurança, nos arredores montanhosos da cidade – e não o famoso mercado de vida selvagem na zona centro, como apontaram as autoridades locais. Também os serviços secretos norte-americanos não descartaram por completo essa teoria, que está a ser examinada há meses, segundo revelaram fontes ao site Político. “Não há consenso”, disse um funcionário do governo. Um ex-oficial sénior dos serviços de informação acrescentou ainda que a origem do vírus “não é de todo conclusiva” por duas razões: ou Pequim “não sabe” ou “não revela a verdade”.

É o que repete o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que chegou a denunciar, numa conferência de imprensa, que o vírus poderia ter sido contido com “relativa facilidade”. A China só não o fez porque “não conseguiu ou não o quis fazer”, garantiu. Pouco depois, Mike Pompeo, secretário de Estado, foi mais direto nas acusações, falando em “provas enormes” que apontavam para a possibilidade de o vírus ter saído de um laboratório chinês. Mas esta sexta-feira recuou — e muito: “Vimos evidências de que veio do laboratório, mas isso pode não ser o caso”, disse numa entrevista.

Nem as autoridades de saúde pública chinesas, nem as equipas de cientistas que se dedicam ao estudo da Covid-19, responderam à questão: como é que o vírus chegou ao mercado

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Enquanto endurecem as críticas à forma como Pequim geriu os primeiros tempos da pandemia, o embaixador chinês nas Nações Unidas, Chen Xu, recusou, esta quarta-feira, uma investigação internacional sobre a origem do novo coronavírus, apontando como “prioridade travar a pandemia”. Questionado sobre um possível convite pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para enviar especialistas a Wuhan, o berço do surto, Chen disse que o contexto diplomático “não o permite”. “Em princípio, não somos alérgicos a nenhuma forma de investigação ou avaliação”, que permitam “preparar futuras emergências de saúde”, mas “não temos tempo a perder para salvar vidas”, sublinhou o diplomata.

China recusa investigação internacional sobre origem do vírus

Declarações que só dão força à tese de Washington de que o governo chinês encobriu o incidente, culpou o mercado perto do laboratório de lançar a pandemia e agora recusa uma investigação independente.

Depois da pandemia, China mandou reforçar a segurança

Logo em fevereiro, o Ministério da Ciência e Tecnologia chinês emitiu novas regras, exigindo aos laboratórios de todo o país que aumentassem o nível de biossegurança – uma medida que, segundo especialistas contactados pelo site Global Times, teria como finalidade corrigir problemas de gestão inadequados durante a campanha contra o novo coronavírus. O próprio presidente chinês Xi Jinping já deu ordens para que se publique uma nova lei de biossegurança, ao mesmo tempo que proíbe qualquer instituição de científica de publicar qualquer artigo sobre a origem do novo coronavírus sem a aprovação do governo.

Segundo Yang Zhanqiu, vice-diretor do departamento de Biologia da Universidade Wuhan, na província de Hubei, as novas diretrizes do ministério “não estão relacionadas com a hipótese do vírus ter vazado para fora das instalações do Instituto de Virologia de Wuhan”. O problema, diz ele, está no facto dos laboratórios da China “não descartarem o lixo tóxico corretamente”. O lixo produzido pelos laboratórios contém “vírus, bactérias ou micróbios com um impacto potencialmente mortal nos seres humanos, animais ou plantas”. E, segundo Yang, alguns cientistas despejavam esses materiais diretamente no sistema de esgotos, “sem recorrerem a um mecanismo específico de descarte biológico”. Dada a sua gestão “extremamente rigorosa”, Yang rejeita que esses fossem os procedimentos no único laboratório de nível 4 da China.

Há muito que as equipas de cientistas e médicos solicitavam a supervisão dos institutos de pesquisa biológica na China, isto depois de um dos principais especialistas em tecnologias transgénicas da Academia Chinesa de Engenharia ter ganho mais de um milhão de euros a vender, ilegalmente, animais de laboratório e leite experimental, de acordo com um relatório do jornal The Paper, de Xangai.

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