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O que é a depressão sazonal?

É uma forma de depressão diretamente associada à mudança das estações do ano, que se manifesta sobretudo nos meses mais frios e com menos horas de sol, no outono e no inverno. Por isso é também popularmente conhecida como depressão de inverno.

Mas “não é ‘só depressão’, nem ‘só o tempo’”, diz a psiquiatra Maria Moreno. “É uma forma muito própria e muito biológica de reagir à falta de luz e aos dias mais curtos.” E, como depressão que é, pode afetar rotinas e bem-estar e interferir na vida pessoal e profissional.

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É uma doença?

Sim. É uma perturbação depressiva recorrente sazonal, em que os sintomas aparecem sem razão aparente e, à primeira vista, sem qualquer relação entre si. É recorrente porque vai e volta. E sazonal porque, por norma, surge sempre na mesma altura do ano.

“É um tipo de depressão causada por fatores biológicos e químicos internos, como alterações na produção e funcionamento de neurotransmissores (como serotonina e dopamina) no cérebro, sem estar diretamente ligada a eventos externos específicos”, diz a psiquiatra. Esta perturbação caracteriza-se por uma tristeza profunda e desproporcional, mesmo que a vida da pessoa esteja a correr bem. Demonstra, no fundo, a vulnerabilidade às mudanças.

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Quais são as causas?

“O que pesa não é tanto o frio na realidade, mas sim a ausência de luz do sol. São os dias curtos e cinzentos que mexem mais connosco. A luz solar é determinante para a regulação do nosso relógio biológico e ajuda a regular a produção de serotonina, uma molécula que influencia o nosso humor.” Quando a luz aparece mais tarde e desaparece mais cedo, o cérebro ressente-se e a depressão sazonal ganha espaço.

Recentemente, a literatura olhou para uma nova faceta que se encontra alterada na depressão sazonal, ou seja, o sistema imunitário. “A chamada teoria imuno-sazonal sugere que, no inverno, o organismo tende a ativar a nossa resposta inflamatória.” Este mecanismo atua com uma equipa de combate: produz inflamação, ataca vírus e bactérias dentro das células, e “trava” o cérebro.

“É como se o corpo dissesse ‘Poupa energia, recolhe-te, concentra-te em recuperar.’ Isto ajuda na luta contra infeções típicas do inverno, mas no cérebro pode traduzir-se em sintomas de depressão: lentidão, falta de energia, vontade de hibernar”, explica a psiquiatra. No fim, juntam-se dois elementos: uma maior probabilidade de os sintomas depressivos aparecerem e uma diminuição das estratégias que protegem a pessoa de desenvolver a doença.

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Também pode acontecer no verão, quando há mais sol?

Sim, pode. Habitualmente associada a dias frios, curtos e cinzentos, a depressão sazonal pode também manifestar-se em dias quentes.

“A verdade é que a depressão sazonal não é exclusiva do outono e do inverno. Há pessoas para quem os meses da primavera e do verão trazem (persistentemente) muita tristeza e um desânimo que teima em ficar, sem razão aparente”, realça a médica psiquiatra.

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E como se manifesta?

De várias maneiras. E não se manifesta da mesma forma em todas as pessoas. Em algumas, a diminuição da luz solar nas estações de outono e inverno causa um desequilíbrio em neurotransmissores no cérebro, causando mais fadiga, sono, irritação, falta de energia, vontade de ficar na cama ou pouco interesse em atividades sociais e de diversão.

Os sinais até podem não ser tão evidentes, para uma associação direta a uma depressão sazonal, mas não devem ser menosprezados.

Os sintomas regressam sazonalmente, geralmente nos meses de outono e inverno, prolongam-se pelas festas de Natal e de Ano Novo e tendem a diminuir ou desaparecer na primavera e no verão, com a chegada dos dias maiores, mais quentes e com mais sol.

Os especialistas indicam que há sinais que se invertem consoante a altura do ano: mais vontade de comer nos meses frios, perda de apetite e insónias na época de calor. Regra geral, há vontade de hibernar.

Maria Moreno enumera alguns sintomas:

  • Sentimentos persistentes de tristeza, desesperança ou vazio, bem como sentimentos de culpa e inutilidade. “Não devia sentir-me assim, tenho tudo para estar bem, mas não consigo evitar”;
  • Perda de interesse ou prazer em atividades habitualmente apreciadas e isolamento social: “Prefiro ficar em casa, não me apetece ver ninguém”;
  • Fadiga ou falta de energia constante. Esta é uma das principais queixas, um cansaço extremo que não vai embora, independentemente do número de horas dormidas;
  • Dificuldades de concentração, falhas na memória e menos produtividade no local de trabalho;
  • Agitação ou irritabilidade, ou, pelo contrário, letargia e lentidão;
  • Mais sono e mais necessidade de dormir e aumento do apetite. Resultado: ganho de peso que surge sempre nesta altura do ano;
  • Pensamentos recorrentes sobre a morte e/ou o suicídio.
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Como se diagnostica?

Os sintomas são semelhantes aos de outras formas de depressão, por isso, é difícil diagnosticar. Todavia, na maioria dos casos, há mais sono e mais fome, bem como cansaço extremo e maior irritabilidade. Não é fácil detetar, é preciso fazer as perguntas certas e perceber sinais, seja através de um inquérito ou através de uma avaliação psicológica.

Segundo a médica psiquiatra, as queixas, feitas em consulta, podem esconder episódios de depressão, incómodos e desconfortos, cenários de desadaptação a algumas situações.

O diagnóstico é clínico. “Está nas nossas perguntas e nas respostas do doente”, diz Maria Moreno. “O psiquiatra vai querer saber tudo e outras tantas coisas. Porquê? As várias caras da depressão não respondem de forma igual aos mesmos tratamentos. E a depressão sazonal é o exemplo máximo disto.”

A maioria das vezes, segundo a médica psiquiatra, as pessoas “vão ser tratadas para vários episódios de depressão ‘isolados’ (os mais graves ou que não passaram sozinhos), com sintomas que surgem todos os anos com a chegada do outono e a ‘queda da folha’ e se prolongam pelas festas adentro e, muitas vezes, com uma resposta subótima à medicação.” Ou seja, a medicação não faz o efeito pretendido.

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Há fatores de risco?

Sim. A depressão sazonal tem raízes biológicas. Quando se coloca genética e ambiente nos dois pratos da balança, é a genética que pesa mais. “Mas isso não quer dizer que o ambiente não conte — pelo contrário, continua a ter um papel importante.”

Entre os fatores de risco estão depressões que surgem cedo na vida e que se repetem, sobretudo em pessoas que viveram ou vivem em locais onde os dias são mais curtos e há menos horas de exposição à luz solar.

O temperamento e a história clínica também entram nesta equação. “Pessoas mais ansiosas ou com variações de humor ao longo do tempo (ciclotimia) e pessoas com antecedentes de doença mental, problemas de sono ou défices de vitamina D tendem a sofrer mais.”

Há especialistas que fazem referência a um grupo particularmente suscetível: pessoas com sensibilidade aumentada ao processamento sensorial, isto é, que são esponjas, sentem tudo, da mudança do tempo ao barulho do vizinho. Essa sensibilidade extrema multiplica o impacto do inverno.

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Quais os impactos no bem-estar mental e emocional?

Há impactos, como em todas as depressões. “As pessoas descrevem ‘um nevoeiro constante’, ‘uma falta de pilhas’, ‘uma sensação de vazio’ que influenciam a sua vida pessoal, familiar, as relações com os amigos e a maneira como as coisas correm no trabalho”, diz Maria Moreno.

A autoestima é bastante afetada, os pensamentos de que se é uma pessoa preguiçosa e egoísta são constantes. A tristeza que não passa interfere na vida pessoal e profissional. O frio empurra para dentro de casa, deixam-se de lado passatempos que se apreciavam.

A falta de concentração tem repercussões no trabalho, a produtividade diminui. Tanto a agitação como a lentidão condicionam os dias no emprego, tal como os afazeres em casa.

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Há tratamento?

Os sintomas são analisados para definir o tratamento adequado e personalizado, que pode passar por acompanhamento psicológico e prescrição de medicação. O tratamento inclui, regra geral, a mudança de rotinas e do estilo de vida.

A psicoterapia é uma das possibilidades. Trabalha-se a mente, desmontam-se pensamentos automáticos e sem sustentação, criam-se novas estratégias para lidar com dificuldades. A medicação ajuda a contrariar o que o corpo e a cabeça pedem.

“Não podemos mudar as estações, mas podemos ajudar a minimizar o efeito delas. Podemos até, em alguns casos, recomendar fototerapia, um tipo especial de terapia em que usamos uma luz especial que simula a luz solar.”

Maria Moreno conta o que se passa nas suas consultas. “Na depressão sazonal, mais do que nunca, vamos ter de saber colocar o doente como o agente principal na escolha da medicação. Começamos com um antidepressivo, mas, sempre que necessário, avançamos para novas estratégias ditadas pelo que o doente nos traz: psicoterapia mais intensiva, combinações de fármacos, outras classes terapêuticas, terapêuticas não farmacológicas.”

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Há formas de prevenir?

Sim, diversas. Eis algumas recomendações:

  • Sair de casa, passear, caminhar, aproveitar a luz do dia, apanhar sol quando possível;
  • Deixar a luz entrar em casa, abrir as cortinas;
  • Praticar exercício físico com regularidade para reduzir a ansiedade e evitar comportamentos e pensamentos depressivos;
  • Alimentar as interações sociais, passar tempo com a família e com os amigos;
  • Manter as atividades que dão prazer e que aumentam o bem-estar.