Têm-se multiplicado nas redes sociais e nos órgãos de comunicação social as publicações que se referem à grande conjunção de Júpiter e Saturno — um fenómeno astronómico em que os dois planetas gasosos parecem de tal forma próximos que ficarão quase sobrepostos no céu noturno — como a “Estrela de Belém” que, segundo a narrativa bíblica, terá guiado os Reis Magos até ao estábulo onde Jesus Cristo nasceu.

Uma dessas publicações foi colocada na página “Apocalipse às Portas”. Partilhada 1.300 vezes, a mensagem vai mais longe, ao sugerir ainda que este fenómeno é um mau presságio, capaz de provocar desastres naturais e crises humanitárias. Mas, à luz da ciência, tudo isso está errado.

Captura de ecrã da publicação em análise.

A grande conjunção, assim chamada porque ocorre entre os dois maiores planetas do Sistema Solar, ocorre quando, vistos a partir da Terra, os gigantes gasosos Júpiter e Saturno parecem tão próximos um do outro que formam um único grande ponto alongado muito luminoso no céu noturno. Claro que, no cosmos, não estão sequer na vizinhança um do outro: estarão afastados em 400 milhões de quilómetros.

Este evento acontece de duas em duas décadas, mas a grande conjunção planetária deste ano é especial. Por um lado, o fenómeno é entusiasmante porque atinge o ponto máximo a 21 de dezembro, precisamente o dia do solstício de inverno. Por outro lado, será a maior aproximação entre estes planetas desde 1623 e a maior aproximação visível da Terra desde 1226: apenas 0,1 graus de distância no céu noturno, ou seja, um quinto da largura aparente da Lua.

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A ideia de comparar a conjunção entre Júpiter a Saturno à Estrela de Belém — que, segundo o capítulo dois do livro bíblico de São Mateus, terá guiado os Reis Magos do oriente para Jerusalém e daí para Belém, ao encontro de Jesus — tem raízes na história da ciência. Foi Johannes Kepler, astrónomo e matemático oficial do império romano-germânico comandado por Rodolfo II, quem sugeriu esta teoria, no início do século XVII.

A 17 de dezembro de 1603, Kepler observou uma conjunção planetária, mas esta era ainda mais rara do que a que vai abrilhantar o céu a 21 de dezembro: além do aparente encontro entre Júpiter e Saturno no céu noturno (provavelmente não tão próximo como o que vai ocorrer este ano), Marte estava muito perto da conjunção entre os dois planetas gasosos. Como Kepler era também astrólogo, ter-se-á interessado pelo encontro entre os três planetas.

No ano seguinte, a 17 de outubro de 1604, um novo fenómeno conquistou a atenção do alemão: uma supernova, a explosão muito brilhante de uma estrela em fim de vida, surgiu na constelação de Serpentário, proximamente do local onde a conjunção entre os três planetas tinha ocorrido em dezembro de 1603. Johannes Kepler calculou então que algo de semelhante tinha ocorrido no ano 7 a.C. ou, no calendário juliano que o cientista usava, ano 39.

Kepler manteve registos sobre a supernova até 1605 e explicou como o novo astro que havia surgido no céu noturno chegou a ser visível durante a manhã, mas acabou por perder brilho até se desvanecer no céu. Era “como a mais bela e gloriosa tocha já vista quando acompanhada por um vento forte”, “uma obra extremamente maravilhosa de Deus”, descreveu ele na obra “De stella nova in Pede Serpentarii”, publicada em 1606.

Capa da obra “De stella nova in Pede Serpentarii” de Johannes Kepler. Créditos: History of Science Collections, University of Oklahoma Libraries

O astrónomo afirmou que o fenómeno a que havia assistido nos anos anteriores tinha sido o mesmo que tinha dado origem à Estrela de Belém, que guiou os magos até ao estábulo onde Jesus nasceu. O argumento de Kepler era que, algures entre os anos 7 a.C. e 5 a.C., uma estrela também teria nascido no lugar onde ocorreu uma conjunção entre Júpiter e Saturno, à semelhança do que ele própria tinha observado centenas de anos mais tarde.

Acontece que, além de ter enviesado a evidência científica (que, à época, ainda era escassa neste tipo de eventos) por causa do interesse religioso que nutria pela cronologia da Bíblia, os próprios conceitos científicos que Kepler utilizou para sustentar esta teoria estavam errados. A explosão que o astrónomo acompanhou ao longo de vários meses não era realmente o nascimento, mas sim a morte de uma estrela. Hoje em dia, chama-se SN 1604 ou Supernova de Kepler e é a mais recente supernova observada a olho nu a partir da Terra — explodiu 20 mil anos antes da luz ter chegado finalmente à Terra. Eis o que resta dela:

Detalhes dos restícios gasosos deixados pela supernova de Kepler, fotografados pelo Telescópio Espacial Hubble. Créditos: NASA, ESA, and The Hubble Heritage Team (STScI/AURA); Acknowledgment: R. Sankrit and W. Blair (Johns Hopkins University)

Apesar do significado religioso e astrológico que estes eventos podem ter para os mais crentes, os estudos vieram a confirmar que nenhuma das conjunções ocorridas por volta da altura em que Jesus terá nascido foram próximas o suficiente para serem confundidas com estrelas. Ou seja, a existir uma Estrela de Belém, dificilmente seria explicável por um evento desta natureza.

Além disso, ao longo dos anos, foram sugeridos outros corpos celestes que poderiam ser considerados a Estrela de Belém relatada na Bíblia. Como o Observador contou neste artigo, em 2018, é possível que os Reis Magos tenham antes visto um cometa, possivelmente o Halley, ou uma supernova. Mas todas estas teorias também têm falhas: na época, o aparecimento de cometas era considerado um sinal de que uma desgraça estaria a caminho, não a chegada de um salvador ao mundo terreno. E se fosse uma supernova, ainda hoje seria possível encontrar registos dela através das tecnologias mais avançadas ao dispor da astronomia

Alinhamento de planetas, explosão de uma supernova ou cometa? As 3 teorias que podem explicar a Estrela de Belém (ou não)

Certo é que, neste debate entre os factos científicos e as crenças religiosas, continua sem haver evidências de que a conjunção de Júpiter e Saturno a 21 de dezembro tem alguma semelhança com a Estrela de Belém referida na Bíblia. O fenómeno que vai abrilhantar o céu noturno no solstício de inverno (pelo menos se as condições climatéricas assim o permitirem) não vai desencadear o surgimento de um novo astro, nem a aparição de algum corpo celeste que tenha brotado nos céus há dois mil anos: será nada mais, nada menos que um encontro entre dois planetas gigantes na cúpula celeste.

Conclusão

É falso que o fenómeno que será observado no céu noturno a 21 de dezembro seja realmente a Estrela de Belém, isto é, o astro que terá guiado os reis magos até Jesus na altura em que nasceu. Na verdade, o evento trata-se de uma aparente aproximação extrema entre Júpiter e Saturno, os dois maiores planetas do Sistema Solar, que parecerão quase sobrepostos num único ponto alongado extremamente luminoso.

No século XVII, o astrónomo Johannes Kepler sugeriu que uma conjunção planetária semelhante a esta estaria na origem do fenómeno descrito na Bíblia. Mas os estudos publicados depois disso já derrubaram essa teoria. Ainda hoje não há evidências de que a Estrela de Belém tenha mesmo existido enquanto fenómeno astronómico. Mesmo assumindo que sim, não há qualquer explicação científica para ela: nenhuma conjunção planetária ocorrida na época em que Jesus viveu poderia justificar esse fenómeno e muito menos ter dado origem a um novo astro.

Assim, segundo a classificação do Observador, este conteúdo é:

No sistema de classificação do Facebook, este conteúdo é:

FALSO: As principais alegações do conteúdo são factualmente imprecisas. Geralmente, esta opção corresponde às classificações “falso” ou “maioritariamente falso” nos sites de verificadores de factos.

Nota: este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de fact checking com o Facebook.

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