A sugestão de que beber água morna com rodelas de limão é um meio eficaz para prevenir a infeção pelo coronavírus tem vindo a ser amplamente partilhada em texto no Facebook, ao longo dos últimos dias. A mensagem, que pode ser encontrada em múltiplas publicações de páginas e perfis individuais, surge atribuída a uma pessoa apresentada como “Laila Ahmadi”, supostamente “da China” e “estudante da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade de Zanjan”. Este é só o primeiro de muitos factos errados ou duvidosos que compõem o texto.

A mensagem tem como título “aviso importante” e começa assim: “O vírus Corona ou COVD-19 [sic] chegará a qualquer país mais cedo ou mais tarde, e não há dúvida de que muitos países não possuem nenhum kit ou equipamento de diagnóstico sofisticado”.

Exemplo de uma publicação no Facebook que reproduz o texto falso

Depois desta introdução aparentemente inócua — embora não sustentada em qualquer fonte científica —, a mensagem prossegue para uma série de informações e conselhos.

“Por favor, use o máximo de vitamina C natural possível para fortalecer seu sistema imunológico. Atualmente, o vírus não contém vacina nem tratamento específico. Infelizmente, devido à mutação genética que o tornou muito perigosa, esta doença parece ser causada pela fusão do gene entre uma cobra e um morcego, e adquiriu a capacidade de infectar mamíferos, incluindo humanos”, lê-se no texto.

Está correto que não existe nenhuma vacina nem tratamento específico para a infeção pelo coronavírus. De facto, como tem sublinhado a Organização Mundial da Saúde (OMS), o trabalho científico com vista ao desenvolvimento de uma vacina está em curso ao maior ritmo possível, mas ainda será preciso aguardar vários meses até que haja uma vacina pronta a ser usada em seres humanos. O progresso das atividades de investigação da comunidade científica neste sentido pode ser acompanhado aqui.

Já relativamente à origem do vírus, é errado afirmar que a doença tem origem na “fusão” genética entre “uma cobra e um morcego”. De acordo com um relatório recente da OMS, é verdade que o vírus tem origem animal e que há uma grande probabilidade de os morcegos serem o reservatório do vírus. Porém, sobre a forma como o vírus evoluiu e chegou aos seres humanos — incluindo sobre o papel de outros animais, como as cobras, na cadeia de transmissão —, não há ainda nenhuma certeza.

Sobre os benefícios da vitamina C no fortalecimento do sistema imunitário, a questão é antiga e já muito estudada pela comunidade científica. Se é verdade, como aponta a própria Direção-Geral da Saúde, que “a Vitamina C tem um papel importante no sistema imunitário e promove a absorção do ferro”, a capacidade desta vitamina para prevenir até uma constipação ou gripe comum é mais limitada.

Numa revisão científica da reputada base de dados Cochrane, lê-se que a “falha da suplementação de vitamina C na redução da incidência de constipações na população geral indica que a suplementação rotineira de vitamina C não é justificada”. Ou seja: não ficou comprovado que tomar suplementos de vitamina C reduza a probabilidade de apanhar uma constipação ou uma gripe. A mesma revisão acrescenta, contudo, que a vitamina C pode ter um efeito de redução da gravidade e da duração das constipações — efeito que depende de pessoa para pessoa.

A publicação continua: “É importante ter maor [sic] conhecimento da doença: o professor Chen Horin, CEO do Hospital Militar de Pequim, disse: “Fatias de limão em um copo de água morna podem salvar sua vida”.

É aqui que entra um misto de mentira com confusão de assuntos. Em primeiro lugar, a própria identidade do suposto professor Chen Horin: uma pesquisa intensiva não devolve nenhum resultado sobre este médico a não ser em textos associados ao mito das rodelas de limão em água morna. Também a própria existência do “Hospital Militar de Pequim” é duvidosa: na capital chinesa existem várias unidades hospitalares associadas às forças armadas do país — e a nenhuma parece estar associado um professor Chen Horin.

Na verdade, uma pesquisa pelo professor Chen Horin no Google devolve resultados datados de 2018 — bem antes do início do surto do coronavírus —, sempre associados à frase “Fatias de limão em um copo de água morna podem salvar sua vida”.

O reaparecimento deste texto a propósito do coronavírus já levou governos a alertar para a falsidade da eficácia da água com limão na prevenção e tratamento da infeção. O Ministério da Saúde brasileiro, por exemplo, já publicou um alerta e pediu aos cidadãos que parassem de partilhar a mensagem.

“Até o momento, não há nenhum medicamento, substância, vitamina, alimento específico ou vacina que possa prevenir a infeção pelo coronavírus”, diz claramente o Governo do Brasil.

A seguir, a publicação elenca os benefícios do limão noutro assunto completamente diferente: o cancro — igualmente sem fundamento científico. “Limão quente pode matar células cancerígenas! Corte o limão em três partes e colocado em um copo, depois despeje água quente e transforme-a em (água alcalina), beba todos os dias, definitivamente beneficiará a todos. O tratamento com esse extrato destrói apenas células malignas e não afeta células saudáveis”, lê-se no texto.

Esta afirmação baseia-se na tese de que uma dieta mais alcalina — ou seja, composta por alimentos menos ácidos, com um pH maior — ajuda no combate ao cancro porque as células cancerígenas se propagam mais em ambientes mais ácidos.

De acordo com o Instituto Americano para a Investigação em Cancro, “seria praticamente impossível alterar o ambiente celular para criar um ambiente menos ácido nos nossos corpos”. “Por exemplo, o estômago é muito ácido para uma digestão correta, por isso não o quereríamos mais alcalino”, lê-se num texto do instituto, no qual se desconstrói a teoria da dieta alcalina.

Uma alimentação equilibrada inclui alimentos mais alcalinos (como frutas e vegetais) e outros mais ácidos (como carne e cereais). A habitual recomendação de que uma alimentação saudável seja composta essencialmente por frutas e vegetais não se prende com o pH dos alimentos, mas com o facto de serem mais ricos em vitaminas, minerais, nutrientes e fibras, como recorda uma publicação do hospital universitário de San Diego sobre o tema.

Finalmente, uma nota sobre a identidade da suposta autora deste texto. Na Universidade de Zanjan (que fica no Irão, e não na China), existe de facto uma professora chamada Leila Ahmadi, que, de acordo com a AFP, é especialista na área de obstetrícia — e não aparenta ter nenhuma relação com a área das doenças infecciosas ou com a China.

Conclusão

De acordo com a evidência científica atual, beber água morna com limão não é um tratamento eficaz para o coronavírus nem ajuda na prevenção do contágio. O texto em questão está minado de informações erradas, assuntos misturados e verdades descontextualizadas que podem levar a acreditar nessa premissa.

Segundo o sistema de classificação do Observador, este conteúdo é:

Errado

No sistema de classificação do Facebook, este conteúdo é:

FALSO: as principais alegações do conteúdo são factualmente imprecisas. Geralmente, esta opção corresponde às classificações “falso” ou “maioritariamente falso” nos sites de verificadores de factos.

Nota 1: este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de fact-checking com o Facebook.

Nota 2: O Observador faz parte da Aliança CoronaVirusFacts / DatosCoronaVirus, um grupo que junta mais de 100 fact-checkers que combatem a desinformação relacionada com a pandemia da COVID-19. Leia mais sobre esta aliança aqui.

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