Não é citada nenhuma fonte e não há números, mas a publicação que circula no Facebook garante que a “Argentina é o segundo país do mundo em número de mortos proporcionais por Covid-19” e que, por isso, as medidas rígidas de isolamento aplicadas no país nem sequer resultaram. Estas afirmações são falsas, os dados apresentados não correspondem à realidade.

Se consultarmos as tabelas da Johns Hopkins, universidade de medicina norte-americana que atualiza os números diariamente, a Argentina surge na 21.ª posição da lista que reúne o número de mortos por cada 100 mil habitantes. Até domingo, 27 de setembro (a atualização mais recente), contavam-se em média 34,93 óbitos em cada 100 mil pessoas.

Estas médias e percentagens não podem ser interpretadas à risca, alertam os especialistas. Ao fazer simplesmente o cálculo matemático da taxa de morte por cada 100 mil habitantes são ignorados fatores determinantes que explicam números mais elevados ou mais baixos. Qual a população e qual a densidade demográfica, em que fase se encontra a pandemia, a população é ou não envelhecida, qual o nível de testagem — tudo isto influencia os números finais.

Os países que apresentam, em média, maior número de óbitos por 100 mil habitantes não são necessariamente aqueles em que o novo coronavírus tem sido mais fatal. Isso percebe-se logo olhando para o topo da lista de casos e mortalidade por país da Johns Hopkins. Em primeiro lugar está San Marino, que regista até agora 727 casos de Covid-19 e 42 mortes. O microestado europeu tem cerca de 30 mil habitantes. Quando é calculada a média de mortes referentes a cada 100 mil habitantes, o número de óbitos sobe para 124,32, o que faz com que o país fique no topo do ranking, à frente do Peru — que está na segunda posição com 100,15 mortes por 100 mil habitantes, tendo já quase 800 mil casos confirmados — e da Bélgica — que ocupa o terceiro lugar com 87,32 mortes por 100 mil habitantes.

Nestes cálculos, Portugal entra na 37.ª posição. Em cada 100 mil habitantes há 18,91 óbitos resultantes do novo coronavírus.

O post viral diz ainda que o confinamento é “um embuste, uma mentira ardilosa” e que se tem revelado “ineficaz”. Porém, não é isso que demonstram vários estudos elaborados desde o início da pandemia. Por exemplo, num artigo publicado a 21 de julho, a revista científica “Plos” reuniu a opinião de vários cientistas que garantiam que “estratégias auto-impostas de prevenção [entre elas o isolamento] contribuem significativamente para o controlo da epidemia”.

Em Portugal, o confinamento obrigatório decretado em março serviu para diminuir e atrasar o pico da doença, evitando ao mesmo tempo a rutura do Serviço Nacional de Saúde. Questionada sobre a possibilidade da aplicação de uma medida semelhante num futuro próximo, a ministra da Saúde descartou, para já, essa hipótese. “Já percebemos que o confinamento tem uma eficácia menos importante do que no passado”, disse Marta Temido em entrevista à RTP1 a 21 de setembro.

Conclusão

Não é verdade que a Argentina seja o segundo país com mais mortes associadas à Covid-19 por cada 100 mil habitantes. Está em 21.º lugar dessa lista, embora os especialistas alertem que não se deve olhar apenas para essa média. Analisar densidade populacional, média de idades da população ou nível de testagem são dados que devem ser tidos em conta. Também não é verdade que o confinamento seja ineficaz, como sugere a publicação do Facebook. A medida serviu em muitos países para atrasar o pico da infeção e evitar a rutura dos serviços de saúde.

Assim, de acordo com o sistema de classificação do Observador, este conteúdo é:

Errado

No sistema de classificação do Facebook este conteúdo é:

FALSO: as principais alegações do conteúdo são factualmente imprecisas. Geralmente, esta opção corresponde às classificações “falso” ou “maioritariamente falso” nos sites de verificadores de factos.

NOTA: este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de fact checking com o Facebook.

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