Circula nas redes sociais uma publicação que alerta os utilizadores para não abrirem a porta a ninguém que diga que está a fazer um rastreio à Covid-19, uma vez que se tratará apenas de um método para os criminosos assaltarem as casas. A acompanhar o texto está uma imagem com um logótipo da Polícia de Segurança Pública (PSP), mas esta força de segurança nunca emitiu qualquer alerta deste tipo,  nem tem qualquer registo de assaltos com recurso a esta técnica, como confirmou fonte oficial da Direção Nacional da PSP ao Observador.

Na publicação, o autor pede aos utilizadores que “informem” os seus “familiares e amigos para não abrirem a porta a ninguém” que diga que “vai fazer rastreio à Covid-19”. “Anda para aí uma equipa de energúmenos a assaltar as casas com este discurso”, lê-se ainda. A publicação, feita em março deste ano, voltou a ser partilhada nos últimos dias de agosto, ultrapassando as 65 mil partilhas. O facto de ter sido utilizado o logótipo da PSP contribui para que os utilizadores acreditem que se trata de um aviso oficial, levando-os ainda a partilhar o post.

A publicação é de março, mas voltou a ser partilhada na última semana, ultrapassando as 65 mil partilhas

O Observador questionou a Direção Nacional da PSP — a entidade visada na publicação. Numa resposta enviada por escrito, esta força de segurança garantiu que “não tem conhecimento/registo sobre qualquer ocorrência criminal, na sua área de responsabilidade, relacionada com supostas burlas/fraudes associadas a falsos rastreios à Covid-19, através de contactos porta-a-porta”.

É verdade que no início de março veio a público o caso de dois indivíduos que tentaram vender um medicamento contra o coronavírus a um idoso, na zona da Freguesia de Santo António, em Lisboa — o que, na altura, levou a PSP a pedir à população que denunciasse eventuais situações de burla relacionadas com a pandemia. Mas já então, além deste caso (cuja burla não se chegou a concretizar e que é diferente do relatado na publicação), a PSP não tinha registo de qualquer crime de burla ocorrido nestas circunstâncias e muito menos tinha dados que pudessem configurar uma onda de assaltos como é dito na publicação.

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Ainda assim, a PSP difundiu, logo em março, alertas sobre possíveis situações relacionadas com rastreios à Covid-19 e sobre a possibilidade de surgirem burlas e/ou fraudes relacionadas com possíveis vacinas ou curas. No entanto, estes alertas foram feitos como forma de prevenção já que a PSP, como confirmou ao Observador, não teve registo de crimes levados a cabo com este pretexto.

Prevenção de Burlas e Fraudes | COVID-19Alertamos para as burlas, em ações de contacto porta-a-porta.Tenha atenção a…

Posted by Polícia Segurança Pública on Monday, March 23, 2020

Num dos alertas, a PSP pede à população que “tenha atenção a falsos profissionais de saúde”, que dizem “disponibilizar serviços” ou “produtos ao domicílio, para despistagem e/ou tratamento da Covid-19”. Num outro, alerta “para o modus operandi utilizado por burlões, em ações de contacto porta-a-porta e incidindo maioritariamente sobre a população idosa”. Estes alertas, no entanto, são preventivos e não significam que haja alguma onda de assaltos com estas características. Servem precisamente para as evitar.

Prevenção de Burlas e Fraudes | COVID-19Alertamos para o modus operandi utilizado por burlões, em ações de contacto…

Posted by Polícia Segurança Pública on Saturday, March 21, 2020

Conclusão

Uma publicação alerta a população para não abrir a porta a ninguém que diga que está a fazer um rastreio à Covid-19, dizendo que se trata de um método que está a ser utilizado por criminosos para assaltar habitações. A acompanhar o texto está uma imagem com um logótipo da PSP, mas esta força de segurança nunca emitiu qualquer alerta deste tipo, não havendo qualquer registo de assaltos com recurso a esta técnica.

Assim, segundo a classificação do Observador, este conteúdo é:

ERRADO

No sistema de classificação do Facebook este conteúdo é:

FALSO: as principais alegações do conteúdo são factualmente imprecisas. Geralmente, esta opção corresponde às classificações “falso” ou “maioritariamente falso” nos sites de verificadores de factos.

Nota 1: este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de fact checking com o Facebook.

Nota 2: O Observador faz parte da Aliança CoronaVirusFacts / DatosCoronaVirus, um grupo que junta mais de 100 fact-checkers que combatem a desinformação relacionada com a pandemia da COVID-19. Leia mais sobre esta aliança aqui.

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