Tornou-se viral uma publicação falsa no Facebook que afirma que o multimilionário Bill Gates, criador da Microsoft e filantropo, tem injetado o vírus da poliomielite em sudaneses. É falso.

A imagem que ilustra a publicação sugere que uma campanha de vacinação terá estado na origem de um surto de poliomielite no Sudão, “diretamente relacionado a uma epidemia contínua provocada pela própria vacina no Chade”. E que terá ocorrido apenas uma semana depois de a Organização Mundial da Saúde (OMS) ter considerado esta doença erradicada do continente africano.

Vamos por partes. A 1 de setembro, a OMS anunciou, em comunicado de imprensa, a identificação de dois casos confirmados e 11 casos suspeitos de paralisia aguda flácida, a forma mais severa de uma infeção pelo vírus da poliomielite, no Sudão.

Estes casos terão tido origem no poliovírus derivado da vacina circulante, uma mutação da forma enfraquecida do vírus da poliomielite que entra na composição da vacina contra esta doença. Tal como sugerido na imagem em causa, e de acordo com o mesmo comunicado da OMS, o vírus encontrado no Sudão está mesmo “geneticamente relacionado” com o detetado no Chade. 

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Mas isso não significa que o surto no Sudão tenha sido causado diretamente “pela própria vacina”. Quando as crianças recebem a vacina, que é administrada por via oral, o vírus enfraquecido replica-se durante algum tempo no intestino e o organismo cria uma resposta imunitária contra ele. Assim, quando aquela criança voltar a contactar com o vírus, o corpo já saberá como reagir.

Ao fim de umas semanas, o vírus usado na vacina é eliminado pelas fezes. Mas, nas áreas com más condições de saneamento e higiene, ele continua a circular na comunidade durante algum tempo. Por isso, antes de perder a capacidade de infetar os humanos, poderá chegar a outras crianças que, tal como as primeiras, desenvolvem uma resposta imune contra o vírus.

A OMS usa um termo para se referir a esta estratégia: “Imunização passiva.” Mas ela pode falhar. De acordo com a organização, há “raras ocasiões”, quando a população está “gravemente subimunizada”, em que o vírus excretado continua a circular entre as crianças durante mais tempo do que era esperado, dando-lhe tempo para sofrer mutações que o tornam mais perigoso. Surge, então, o poliovírus derivado da vacina circulante, que pode paralisar as crianças infetadas.

Ou seja, não é verdade que estes surtos tenham sido causados diretamente pela vacina. A origem dos casos está nas mutações que o vírus sofreu já depois de ser eliminado pelas crianças que receberam a vacina originalmente. Enquanto os cientistas trabalham em formas de controlar a capacidade de mutação deste vírus, a única solução é mesmo o alargamento da cobertura da vacina e a aposta em melhores condições de saneamento.

A imagem da publicação viral também afirma que estes casos são conhecidos “uma semana após a OMS declarar que o continente africano estaria livre do vírus da poliomielite”. Mas não é bem assim. De facto, a organização anunciou, a 25 de agosto, a erradicação do polivírus selvagem em África, ao fim de quatro anos sem qualquer caso de infeção, como pode ler-se nesta nota.

Mas este vírus é diferente do poliovírus derivado da vacina circulante, que está na origem dos casos em análise. Enquanto este último surge através de mutações do agente infeccioso usado nas vacinas em populações sub-imunizadas e sem condições de saneamento, o polivírus selvagem encontra-se na natureza. Ou seja, o surgimento destes surtos e a erradicação do polivírus selvagem em África não estão relacionados.

Ora, de facto, como refere a publicação, Bill e Melinda Gates financiam a Iniciativa Global de Erradicação da Pólio, através da fundação do casal. Mas não são os únicos: o Centro Norte-Americano de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), o UNICEF, o clube Rotary e a própria Organização Mundial da Saúde (OMS) também contribuem para este projeto, que já vacinou 2,5 mil milhões de crianças em 122 países.

Conclusão

É verdade que o Sudão identificou um surto de poliomielite causado por um vírus geneticamente semelhante ao que já tinha sido detetado numa epidemia da mesma doença no Chade. Mas não é verdade que este surto tenha sido “provocado pela própria vacina” distribuída pela Iniciativa Global de Erradicação da Pólio, financiada pela fundação de Bill Gates (e por outras organizações pelo mundo fora).

A origem dos casos sudaneses está em mutações que o vírus enfraquecido presente na vacina sofreu após ter sido eliminado pelas crianças imunizadas originalmente. Em comunidades com baixas condições de saneamento, o vírus continua a circular durante algum tempo, criando imunidade noutras crianças antes de perder infecciosidade. Mas em populações onde muito poucas crianças foram vacinadas, então o vírus demora demasiado tempo a desaparecer e pode sofrer mutações. Foi isso que aconteceu no Sudão e no Chade.

Além disso, não há ligação entre a notícia da erradicação do polivírus selvagem no continente africano e o surgimento destes surtos. O polivírus selvagem ocorre naturalmente, enquanto o poliovírus derivado da vacina circulante surge através das mutações que descrevemos em cima.

Assim, de acordo com o sistema de classificação do Observador, este conteúdo é:

ERRADO

De acordo com o sistema de classificação do Facebook, este conteúdo é:

FALSO: as principais alegações do conteúdo são factualmente imprecisas. Geralmente, esta opção corresponde às classificações “falso” ou “maioritariamente falso” nos sites de verificadores de factos.

Nota: este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de fact checking com o Facebook.

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