O porta-voz de um movimento cívico alega que um cidadão belga se encontrava em inícios de novembro na situação de sem-abrigo em Lisboa por ter perdido a casa nos incêndios que assolaram a região centro do país em outubro de 2017. A alegação é, porém, enganadora.

A história iniciou-se a 20 de novembro, quando o fotógrafo Pedro Abranches contactou Nuno Fernando Tavares Pereira, porta-voz do Movimento Associativo Apoio Vítimas Incêndio Midões (MAAVIM), enviando-lhe uma fotografia que captara em Lisboa e que consistia num retrato de um homem descrito como sem-abrigo.

Nesse mesmo dia 20 de novembro, Nuno Pereira fez um “post” no Facebook e identificou o homem da foto como Jan Roosenboom, cidadão belga que morou na Quinta do Pisão, em Ervedal da Beira (concelho de Oliveira do Hospital, distrito de Coimbra). “Os problemas na sua vida”, escreveu Nuno Pereira, deviam-se à “perda da sua residência em outubro de 2017”. “Pediu ajuda ao Município de Oliveira do Hospital [mas] nunca conseguiu a ajuda que deveria ter sido dada e é hoje um sem-abrigo dos incêndios de outubro de 2017”, acrescentou, prometendo ajudar Jan Roosenboom.

O post tornou-se viral e deu origem a várias notícias, incluindo no jornal Informa+ sob o título “Vítima dos incêndios de 2017 é agora sem-abrigo nas ruas de Lisboa”, e no site Bombeiros24 (que no Facebook gere a página Obrigado Bombeiros), sob o título “Vítima dos incêndios de 2017 perdeu a casa e é agora sem-abrigo em Lisboa“. Milhares de pessoas fizeram a partilha.

Imagem da publicação retirada da rede social Facebook

A 23 de novembro, o Correio da Manhã acrescentou pormenores: “A casa onde Jan viveu, na Quinta do Pisão, é do pai – com quem se desentendeu antes do fogo. Ardeu e continua em ruínas. Esta sexta-feira, Jan Roosenboom foi retirado das ruas pel[o] Movimento Associativo Apoio Vítimas Incêndio Midões, que lhe arranjou casa em Oliveira do Hospital. ‘Vamos ajudá-lo a viver com dignidade’, diz ao CM Nuno Pereira, da associação.”

Entretanto, o presidente da Câmara de Oliveira do Hospital tinha publicado a 22 de novembro, à tarde, uma “nota de esclarecimento” no Facebook, em que classificava como fake news (notícia falsa) as informações que circulavam na internet sobre o cidadão belga.

Na nota, José Carlos Alexandrino, o autarca, ameaçou processar Nuno Pereira por este sugerir que Jan Roosenboom estava a viver na rua por falta de apoio da Câmara de Oliveira do Hospital.

“Contrariamente ao que foi afirmado de forma caluniosa, nunca o cidadão Jan Roosenboom pediu qualquer tipo de ajuda a este município”, escreveu José Carlos Alexandrino, dando a entender que o alegado sem-abrigo terá problemas de saúde mental. “Aliás, e conforme me esclareceu hoje [22 de novembro] o seu pai – um respeitável cidadão belga que se instalou em Ervedal da Beira no início dos anos 90, e com o qual mantenho as melhores relações desde há muitos anos –, à data do incêndio, o filho encontrava-se a viver na Bélgica. […] A casa tinha seguro e o processo foi sempre tratado com a seguradora. […] O pai do cidadão Jan Roosenboom assegurou-me que esta é a segunda vez que o filho decide assumir a condição de sem abrigo em Lisboa, sendo que a primeira foi antes do incêndio de 15 de outubro de 2017. […] Aliás é o seu próprio pai que nos diz que o filho tem várias casas onde poderá ficar, pelo que não tem nenhuma necessidade de viver nestas circunstâncias.”

Também a 22 de novembro, à noite, Nuno Pereira reafirmou no Facebook que Jan Rooseboom vivia como sem-abrigo “após ter perdido todos os seus bens nos incêndios de outubro de 2017 em Oliveira do Hospital” e publicou o vídeo de uma entrevista que tinha dado à CMTV.

Entrevista de ontem acerca do cidadão Jan Rooseboom, que agora é Sem Abrigo, após ter perdido todos os seus bens nos incêndios de Outubro de 2017 em Oliveira do Hospital.#Portugal #Semabrigo #oliveiradohospital

Posted by Nuno Tavares Pereira on Friday, November 22, 2019

O site da Rádio Regional do Centro, de Coimbra, publicou a 26 de novembro um texto de Nuno Pereira, em que este afirmou: “Infelizmente gostaríamos que fossem fake news mas não são”. Segundo este responsável, Jan Roosenboom dirigiu-se às instalações do Movimento Associativo Apoio Vítimas Incêndio Midões “nas primeiras semanas após o incêndio de outubro de 2017” para “solicitar apoio”. Daí que Nuno Pereira o tenha reconhecido na foto que Pedro Abranches lhe fez chegar a 21 de novembro.

Naquele texto, o porta-voz do movimento associativo acusou o autarca de Oliveira do Hospital de “aproveitamento político”, por alegadamente distribuir como seus os donativos dos portugueses para as vítimas dos incêndios. E acrescentou este pormenor: “Confirmei com o próprio [cidadão]  que na altura [dos incêndios] se encontrava a trabalhar em jardinagem na Bélgica e que, inclusive, já tinha bilhete comprado para Portugal antes do dia 15 de outubro de 2017.”

Conclusão

Um homem fotografado nas ruas de Lisboa, e que várias fontes confirmam ser Jan Rooseboom, um cidadão belga que em tempos viveu no concelho de Oliveira do Hospital, perdeu de facto a casa durante os incêndios de outubro de 2017 na região centro. No entanto, mesmo a pessoa que alega esse facto reconhece que à data dos factos o cidadão não vivia na casa ardida, à qual provavelmente planeava regressar.

Não cabendo aqui verificar se a Câmara de Oliveira do Hospital ajudou ou não o Jan Rooseboom, conclui-se ser pouco rigoroso apresentá-lo como “um sem-abrigo dos incêndios de outubro de 2017” ou correlacionar a situação de sem-abrigo com a perda da casa nos incêndios. A família de Jan Rooseboom garante que ele se encontrava a viver fora de Portugal naquela data, já tinha passado um período a viver na rua e dispõe de alternativas de alojamento.

Assim, segundo o sistema de classificação do Observador este conteúdo é:

Enganador

De acordo com o sistema de classificação do Facebook este conteúdo é:

MISTO: as alegações do conteúdo são uma mistura de factos precisos e imprecisos ou a principal alegação é enganadora ou incompleta.

Nota: este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de fact checking com o Facebook.

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