Várias publicações nas redes sociais têm afirmado que o novo coronavírus, 2019-nCoV, foi criado num laboratório na China. E que foi libertado com o intuito de contaminar a humanidade e controlar o crescimento populacional ou por causa de uma falha de segurança.

A página “STFN Reloaded” publicou no Facebook um vídeo com cerca de 30 minutos afirmando que “o pânico atacou a China depois de o super vírus de Wuhan ter escapado de um laboratório”, que esse laboratório era de “biosegurança nível 4, de acordo com os especialistas” e que havia “mais de 100 mil casos” de infeção em Wuhan, a cidade onde começou o surto do novo coronavírus.

Também o jornal The Washington Times, que se descreve como “um contrapeso confiável da media convencional”, publicou que “o coronavírus letal transmitido por animais que se está a espalhar pelo mundo pode ter origem num laboratório na cidade de Wuhan, vinculado ao programa secreto de armas biológicas da China”, citando um “analista de guerra biológica israelita”, Dany Shoham.

À esquerda, uma captura de ecrã ao vídeo publicado pela página STFN Reloaded no Facebook. À direita, outra captura de ecrã do artigo que afirma que o vírus pode ter escapado de um laboratório em Wuhan.

Mas nada disto é verdade.

De facto, existe em Wuhan um laboratório de alta segurança biológica que trabalha com infeções virais — o Instituto de Virologia de Wuhan, que fica a 30 quilómetros do mercado de Huanan, onde o vírus foi detetado pela primeira vez. E uma das especialidades desta instituição é o estudo da forma como os coronavírus se transmitem dos morcegos (um dos animais de onde este agente pode ter vindo) para os humanos.

De acordo com o The Washington Times, Dany Shoham terá dito que “certos laboratórios no instituto devem ter-se envolvido, em termos de investigação e desenvolvimento, pelo menos de forma colateral, mesmo que não numa instalação principal no alinhamento de armas biológicas chinesas”.

No entanto, embora confirme que tenha concedido uma entrevista a esse jornal norte-americano, Dany Shoham afirma que o The Washington Times ocultou parte da resposta que enviou por e-mail, descontextualizando as suas palavras: “Perguntaram-me sobre essa conexão e sugeri uma possível ligação com o programa de desenvolvimento de armas biológicas chinês na forma de libertação do vírus, mas acrescentei que: ‘Não há evidências ou sinais de tal incidente’. Tudo o que aconteceu, é claro, pode ser completamente natural e é exatamente isso que parece no momento. São necessárias mais informações sobre a origem do vírus”, esclareceu ele ao Fact Check Cazaquistão.

É verdade que, em 2017, um estudo publicado na revista científica Nature levantava dúvidas sobre o real nível de segurança deste laboratório. Contactado pelo The Washington Post, Tim Trevan, especialista em segurança biológica citado nesse estudo, explica que essas preocupações surgiram-lhe à época no que toca “à capacidade de gerir riscos nestes sistemas complexos quando não se consegue prever todas as formas através dos quais o sistema pode falhar”. No entanto, Tim Trevan não acompanhou a situação do laboratório desde então. E diz duvidar que o coronavírus tenha partido dali.

De resto, outros especialistas explicaram ao The Washington Post que não há provas que sustentem a teoria de que o coronavírus foi desenvolvido em laboratório, fosse para que fim fosse.

Richard Ebright, professor de química biológica da Universidade de Rutgers, disse que “com base no genoma do vírus e nas propriedades, não há indicação alguma de que se trata de um vírus manipulado”. Vários artigos científicos têm relacionado a nova estirpe de coronavírus que está a provocar este surto com outras estirpes semelhantes que atacam animais vendidos no mercado onde a doença eclodiu — como as cobras ou os pangolins, embora esses dados ainda estejam em análise.

Além disso, se o coronavírus fosse programado como arma biológica, provavelmente teria sido concebido para se espalhar mais facilmente e com maior grau de mortalidade entre humanos, argumenta Vipin Narang, do Massachussets Institute of Technology (MIT).

Milton Leitenberg, especialista em armas químicas da Universidade de Maryland, também acrescenta que embora seja “claro” para ele que a China está a desenvolver armas biológicas através de projetos secretos, muito dificilmente utilizaria este instituto em Wuhan para o fazer: “O Instituto Wuhan de Virologia é uma instituição de pesquisa de classe mundial que faz pesquisas de classe mundial em virologia e imunologia”, descreveu, dizendo ainda que esta é uma instituição mais aberta a colaborações com cientistas estrangeiros do que a maior parte dos outros laboratórios — tanto que foi construído por franceses e tem uma parceria com o Laboratório Nacional de Galveston, nos Estados Unidos.

Quanto ao número de vítimas que o novo coronavírus já provocou, embora várias fontes credíveis indiquem dados diferentes, nenhuma delas se aproxima dos 100 mil doentes indicados pela página “STFN Reloaded” só em Wuhan. Embora os dados estejam em constante atualização, às 17h de sábado, 8 de fevereiro, a Organização Mundial de Saúde contabilizava 31.481 casos em todo o mundo, 31.211 dos quais na China e, só dentro da província de Hubei (onde fica Wuhan), eram 22.112 os infetados. E o site do Centro de Ciência e Engenharia de Sistemas da Universidade John Hopkins contabilizava à mesma hora 34.963 casos em todo o mundo, 34.620 dos quais na China e, destes, 24.953 em Hubei.

Conclusão

O coronavírus que está a provocar um surto de doenças respiratórias em todo o mundo não foi criado em laboratório. Tem sim origem natural, como provam as informações genéticas estudadas pelos cientistas. Também não é verdade que a doença já tenha atacado “mais de 100 mil pessoas em Wuhan”, como indicam os dados oficiais de várias fontes credíveis.

Assim, de acordo com a classificação do Observador, este conteúdo é:

ERRADO

E de acordo com a classificação do Facebook, este conteúdo é:

FALSO: as principais alegações do conteúdo são factualmente imprecisas. Geralmente, esta opção corresponde às classificações “falso” ou “maioritariamente falso” nos sites de verificadores de factos.

Nota: este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de fact-checking com o Facebook.

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