Se os geradores eólicos são imponentes só por si, estas imagens impressionam ainda mais — filas de pás destes mecanismos alinhadas quase que numa espécie de vala comum, a serem enterradas por uma escavadora. É este o cenário visível nas fotos que acompanham uma publicação no Facebook que tem gerado controvérsia. “A suposta e tão aclamada energia limpa para a qual colaboramos todos os meses na fatura da luz. [Isto] São pás das torres eólicas feitas de plástico e fibra de vidro, não recicláveis, a ser enterradas depois do seu curtíssimo prazo de “validade””, lê-se na legenda que acompanha a publicação.

Não há dúvidas quanto à veracidade das imagens: são reais. Um utilizador, na secção de comentários desse post, mostra que foram retiradas de um artigo do serviço noticioso norte-americano Bloomberg que tem como título: “Wind Turbine Blades Can’t Be Recycled, So They’re Piling Up in Landfills” — em português algo como “As pás de moinhos eólicos não são recicláveis, por isso estão a amontoar-se em aterros”. As fotos, lê-se no artigo, foram tiradas no aterro municipal de Casper, no estado do Wyoming, por muito que revelem uma realidade preocupante e pouco conhecida, não fazem total justiça ao ditado popular que diz que uma imagem vale mais que mil palavras.

Apesar do título deste trabalho dizer que as ditas pás não são recicláveis, os factos do artigo em si acabam por contradizê-lo. É verdade que ainda não é prática massificada mas o trabalho em questão fala de uma start-up, a Global Fiberglass Solutions, que desenvolveu um método que permite transformar essas lâminas gigantes em pedaços pequenos que depois podem dar origem a uma espécie de tábuas que podem ser usadas na construção civil, por exemplo. A ideia subjacente no mesmo título, de que esta realidade é altamente poluente, também é extrapolada, e os factos do artigo explicam-no. É verdade que tem o seu custo ambiental mas:

  1. 85% de todos os componentes de um gerador eólico são totalmente recicláveis;
  2. Qualquer fonte de combustível fóssil é muito mais poluente que isto.

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Mas vamos à explicação mais aprofundada sobre as alegações enganadoras deste assunto.

Uma das alegações feitas no texto que acompanha o post em análise é a de que as pás de moinho eólico têm um “curtíssimo prazo de validade”. Em resposta a questões do Observador, a Associação Portuguesa de Energias Renováveis (APREN) — que representa mais de 90% do total da potência instalada de fontes de produção de eletricidade renovável em Portugal — explica que “o tempo de vida médio operacional de uma turbina eólica ronda os 20-25 anos, sendo que existem atualmente turbinas que demonstram fiabilidade operacional por um período mais longo, podendo atingir os 35 anos”.

Segundo a norte-americana Worldwide Power Products, empresa distinguida pela Forbes como uma das 100 mais promissoras dos EUA que é especializada em energia, um gerador a diesel precisa de ser alvo de manutenção depois de entre 12 a 20 mil horas de funcionamento com boa manutenção — se funcionar quatro horas por dia, em 14 anos alcança o limite das 20 mil horas, valor bem inferior ao “curtíssimo prazo de validade” das pás de moinho eólico.

Por estarem em permanente contacto com a imprevisibilidade dos elementos, as pás de moinho eólico têm de ser feitas de um material resistente, como fibra de vidro, carbono, epóxis, metais ou ésteres de vinil, como explica a APREN. Segundo a mesma agência sem fins lucrativos, cabe ao gestor do parque eólico prezar pela sua manutenção, substituição e/ou reparação em caso de danos. A EDP Renováveis, por exemplo, tem parques eólicos em 13 países e, segundo fonte na empresa, tem diversos acordos com empresas especializadas, que fazem a reciclagem destas pás, um deles em vigor desde 2017, por exemplo.

Aliás, no contexto europeu, há legislação específica que responsabiliza e orienta as empresas que gerem este tipo de fontes energéticas, a Diretiva 2018/98/CE, por exemplo, que define o promotor como “responsável pelo destino final das pás, ou qualquer outro componente da turbina, sendo obrigado a entregar os resíduos a agentes devidamente autorizados ou registados para o efeito, que processam os mesmos da forma ambientalmente correta”, como explica a APREN.

Não há dúvidas de que o tratamento de pás que perderam a sua funcionalidade é um desafio, muito por culpa dos materiais de que são feitos, e que a colocação em aterro é uma realidade em alguns casos. Ainda assim a APREN ressalva que “esta dificuldade não se identifica unicamente no sector eólico”, já que “existem outras indústrias e setores que produzem mais resíduos compósitos que a eólica, como é o caso dos setores da construção, dos transportes e dos materiais eletrónicos”, por exemplo. Até já existem projetos, por exemplo, de pás de turbina eólica mais amigas do ambiente: é o caso da dinamarquesa Vestas, que anunciou os seus planos para desenvolver turbinas “zero-waste”, assegurando a total circularidade dos materiais.

Conclusão

As imagens partilhadas nesta publicação são verdadeiras e refletem uma processo igualmente real: o depósito de pás de turbina eólica inutilizáveis em aterro. Ainda assim há muita coisa extrapolada no raciocínio que acompanha o post. Estas mesmas pás são recicláveis, apesar de esse processo ser complexo, e já existem vários projetos e empresas que lidam com essa transformação. Também não é correto afirmar que os referidos componentes têm um “prazo de validade” curto, especialmente em comparação com outras formas de gerar energia feitas com recurso a combustíveis fósseis.

É real que existem pás a serem enterradas em depósitos sanitários e que isso é uma prática prejudicial para o ambiente. Ainda assim, pelo menos 85% das componentes de turbinas eólicas são recicláveis e há cada vez mais projetos a explorar alternativas mais “verdes” para lidar com a inevitabilidade destes mecanismos precisarem de substituir peças de tempos a tempos.

Assim, de acordo com o sistema de classificação do Observador, este conteúdo é:

ENGANADOR

No sistema de classificação do Facebook este conteúdo é:

PARCIALMENTE FALSO: as alegações dos conteúdos são uma mistura de factos precisos e imprecisos ou a principal alegação é enganadora ou está incompleta.

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