Tem circulado no Facebook a imagem de um cheque alegadamente passado por Jorge Nuno Pinto da Costa, presidente do Futebol Clube do Porto (FC Porto), ao antigo árbitro de futebol Manuel Martins dos Santos, que em 2013 foi condenado a um ano e meio de prisão com pena suspensa por tráfico de influências e que foi investigado no âmbito da operação Apito Dourado. Uma das publicações com esta alegação soma mais de 400 mil visualizações em poucos dias e cerca de 3500 partilhas naquela rede social.

Na fotografia em causa, o suposto cheque tem o logótipo da Caixa de Crédito Agrícola Mútuo (CCAM), alegadamente pertencente à SAD do FC Porto, levantado na sucursal de Nogueiras (Coimbra), assinado por “Pinto da Costa” à ordem do “Sr. Árbitro Martins dos Santos” no valor de um milhão de euros; e terá sido emitido no Porto, a 4 de maio de 2011.

Mas o documento é falso e há vários elementos que o provam. A imagem do cheque, que inclui o símbolo do banco, os campos para preenchimento ou o número de série, foi impressa numa folha que, a seguir, foi recortada, como comprovam as formas irregulares do papel.

Além disso, se o documento fosse verdadeiro e pertencesse realmente ao “Futebol Clube do Porto — SAD”, os carateres teriam a mesma fonte e aspeto que a data de validade do cheque e os números logo acima do nome do proprietário. Como são diferentes, isso indica que a imagem foi manipulada para ocultar o nome do real dono e introduzir um novo nome.

A assinatura que surge no documento também é falsa. O presidente dos Dragões não assina simplesmente “Pinto da Costa”, nem aquela é a letra do líder portista. E isso fica comprovado ao comparar esta mesma imagem com a da carta escrita à mão pelo presidente do FC Porto e enviada aos sócios mais idosos do clube durante o confinamento imposto pela pandemia de Covid-19.

“Caro amigo e consócio”. A carta escrita à mão por Pinto da Costa para todos os portistas acima dos 70 anos

Como se isso não bastasse, também o destinatário do cheque não poderia ser identificado como “Sr. Árbitro”, pois o Banco de Portugal exige que o nome do beneficiário seja inscrito com o “nome da pessoa e/ou identidade a quem pretende pagar o valor do cheque”, não com o seu cargo ou profissão.

Mas a escolha desta nomenclatura não foi inocente. Como conta um artigo do Correio da Manhã, publicado em 2005, a Polícia Judiciária chegou a investigar um cheque que os inspetores da operação Apito Dourado encontraram nas buscas à sede e à SAD do FC Porto; e que estava endereçado a “Martins Santos”.

O nome era, de facto, similar ao de Manuel Martins dos Santos, que chegou a ser arguido no processo Apito Dourado, acusado de corrupção desportiva passiva e condenado a 20 meses de prisão com pena suspensa — condenação que veio a ser anulada pelo Tribunal da Relação do Porto. Mas as autoridades vieram a confirmar que, afinal, o cheque destinava-se a um fornecedor de medalhas, Martins Santos, que não tinha qualquer relação com o árbitro.

A suposta data de emissão do cheque, 4 de maio de 2011, também tem uma história, mas nada tem a ver com o árbitro Martins dos Santos, que nessa altura já não estava no ativo.

Nesse dia, o jornal desportivo espanhol Marca noticiou que Pinto da Costa, Reinaldo Teles (ex-presidente da SAD do FC Porto) e o ex-árbitro António Garrido tinham jantado com o holandês Bjorn Kuipers, que arbitrou o jogo dos Dragões contra o Villarreal a 28 de maio. O caso veio mesmo a ser investigado pela Procuradoria-Geral da República.

Em comunicado, o FC Porto desmentiu “em absoluto que alguns dos seus dirigentes ou funcionários tenham jantado com o árbitro Bjorn Kuipers, após o jogo com o Villarreal”: “Como acontece nestas circunstâncias, a Federação Portuguesa de Futebol (FPF) nomeou o senhor António Garrido para acompanhar a equipa de arbitragem, tendo mesmo levado os árbitros a jantar após o jogo”, esclareceu o FC Porto.

A Federação confirmou estas declarações. De acordo com a UEFA, nenhum membro dos clubes pode conviver com os árbitros antes ou depois dos jogos. No entanto, isso é permitido a representantes das federações e a elementos de comissões de arbitragem. Logo, um jantar entre Bjorn Kuipers e os membros da FPF já seria legítimo.

Conclusão

Não é verdade que a imagem em causa mostre um cheque no valor de um milhão de dólares entregue por Pinto da Costa ao árbitro Martins dos Santos. O documento foi falsificado e o seu preenchimento não é autêntico: a assinatura não é a do presidente do FC Porto, o nome do beneficiário não é real e tanto esse elemento como a data da suposta emissão do cheque remontam a suspeitas de corrupção em que os Dragões estiveram envolvidos no passado.

Assim, segundo a classificação do Observador, este conteúdo é:

ERRADO

No sistema de classificação do Facebook este conteúdo é:

FALSO: as principais alegações do conteúdo são factualmente imprecisas. Geralmente, esta opção corresponde às classificações “falso” ou “maioritariamente falso” nos sites de verificadores de factos.

Nota: este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de fact checking com o Facebook.

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