Uma publicação feita na página “Franca Política” sugere que Rui Tavares, fundador do Livre e membro da Assembleia do partido, foi escolhido pelo governo para dar aulas na telescola. Mas a afirmação é falsa, tal como o Observador explicou no artigo que pode ler aqui. A transmissão desse vídeo levou mesmo o CDS a pedir explicações do Governo sobre a “escolha dos professores do projeto #EstudoEmCasa”, afirmando que o módulo de História tinha sido “parcialmente dado pelo historiador e político Rui Tavares”, fundador do partido Livre e publicamente reconhecido como seu líder e porta-voz”.

No Twitter, Rui Tavares esclareceu que não deu aulas na telescola: “As professoras da telescola decidiram usar um episódio de um programa meu. Está aqui, veja por si se não equilibra e contextualiza os argumentos de regime, oposição e observadores externos“, escreveu, publicando a seguir o episódio original da RTP Play, transmitido em 2018.

CDS questiona Governo sobre “aula” de Rui Tavares na telescola. Afinal, era um programa de 2018

Na verdade, Rui Tavares surgiu numa aula do projeto #EstudoEmCasa, mas não como professor nem presencialmente — apenas como orador num programa transmitido originalmente na RTP2 e recuperado pelas verdadeiras professoras durante a lição número 2 da disciplina de História e Geografia de Portugal para o 2º Ciclo.

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A polémica arrancou a 24 de abril. Na aula de História e Geografia de Portugal para os 5º e 6º anos, em que se falou sobre “expansão marítima do século XV” e a “manutenção do Império Colonial no século XX”, as duas professoras transmitiram um vídeo de Rui Tavares. Era um programa de divulgação histórica que, após ser transmitido no canal público há dois anos, foi disponibilizado na RTP Play e na plataforma RTP Ensina.

Ou seja, o conteúdo nada teve a ver com a telescola — apenas foi escolhido pelas professoras de História para apoiar a aula, sem a interferência de Rui Tavares ou do Governo.

Ainda assim, a transmissão desse vídeo causou polémica nas redes sociais. Um dos utilizadores publicou uma mensagem afirmando que Rui Tavares tinha dado uma aula na telescola e utilizado a expressão “período negro” para se referir ao Império Português: “Estão a usar a telescola para propaganda ideológica e a introduzir no ensino das crianças propaganda ideológica marxista de extrema-esquerda”, acusou o internauta.

É uma acusação semelhante à que é feita pela página “Franca Política” no Facebook, que afirma que o historiador “difunde a propaganda marxista, por meio de lavagem cerebral das nossas crianças, com o objetivo de abominarem a História de Portugal”:

“Para tal utiliza o revisionismo histórico, num objetivo nítido de criar nas atuais gerações um sentimento de culpa em relação ao passado da nossa civilização, para “justificar” uma “dívida a saldar” para com as ex-colónias, cumprindo a agenda multi-culturalista e o desmantelamento da civilização ocidental”.

Exemplo das publicações que têm andado a circular nas redes sociais

A página, que aponta o dedo ao governo por supostamente ter escolhido Rui Tavares como docente da telescola “por encaixar nos critérios do Ministério da Educação para a seleção de professores”, também afirma que o historiador terá dito: “O Império Português do séc. XV ao séc. XX foi um período negro”. No entanto, essa citação não surge em momento algum na transmissão feita na telescola.

Também Nuno Melo, do CDS, afirmou no Twitter que “entre tantos, Rui Tavares foi escolhido para a tele-escola, destilando ideologia e transformando alunos em cobaias do socialismo”: “Nem disfarçam. Uma aviltante e ignóbil revolução cultural em marcha que pais sem recursos não podem evitar. Política travestida de educação. Miséria”.

O comentário foi criticado por Pedro Adão e Silva, professor de ciência política e comentador, que publicou no Twitter: “Entre tantos, Nuno Melo foi escolhido para eurodeputado. Política travestida de ignorância. Miséria”.

Também David Justino, antigo ministro da Educação e militante do PSD, defendeu Rui Tavares nas redes sociais, esclarecendo que “basta rever a ‘aula’ para perceber que o alarido é desonesto, manipulador e próprio de uma direita trauliteira sem escrúpulos”. “Eu não teria a paciência do Rui Tavares para responder a estes ataques. Por muito que discorde dele, neste caso tem toda a razão”.

Entretanto, e apesar destas chamadas de atenção, o CDS pediu explicações ao governo sobre a “escolha dos professores do projeto #EstudoEmCasa”, afirmando que o módulo de História tinha sido “parcialmente dado pelo historiador e político Rui Tavares, fundador do partido Livre e publicamente reconhecido como seu líder e porta-voz”.

No documento enviado esta segunda-feira ao presidente da Assembleia da República para ser reencaminhado para o ministro da Educação, o CDS colocou três perguntas a Tiago Brandão Rodrigues:

“Considera Vossa Excelência aceitável a escolha de um político, independentemente do partido a que pertença, para ministrar aulas neste projeto? Não considera Vossa Excelência que as aulas, nomeadamente as aulas de História, devem ser dadas de forma politicamente isenta? Que medidas vão ser tomadas no sentido de corrigir esta situação, de modo a que não se repita?”, pode ler-se no documento a que o Observador teve acesso.

Acontece que Nuno Melo, o CDS e a página “Franca Política” confundiram o vídeo de Rui Tavares com uma aula, quando, na verdade, não o era. Rui Tavares não deu qualquer aula no projeto #EstudoEmCasa, nem foi “escolhido para a telescola”. As imagens em que o porta-voz do Livre fala sobre a “expansão do mundo português” não são novas: o conteúdo está disponível desde dezembro de 2018 na RTP Play e foi utilizado por decisão das professoras de Histórias para suportar parte da aula.

Aliás, de acordo com a apresentação feita num vídeo introdutório durante a aula da telescola, o programa foi retirado do serviço RTP Ensina. “Vamos ver um vídeo do site RTP Ensina, que a partir de fotografias nos mostram um pouco dessa exposição [do mundo português]”, disse Franklin, a personagem criada pela Escola Virtual e pela Leya para conduzir estes conteúdos.

Em declarações ao Observador, Rui Tavares defendeu que “as professoras têm direito a buscar conteúdos onde quer que seja, desde que usem esses conteúdos de acordo com a deontologia, o que, aliás, fizeram”: “As aulas eram de contextualização da utilização da Historia de Portugal pela propaganda do regime do Estado Novo. E foi nesse contexto que o programa foi utilizado”, sublinhou.

O historiador fala de “um ato de difamação contra a integridade de alguém que respeita a profissão e a deontologia própria de um historiador”, assegurando que o programa contém “apenas factos verificados, contextualizados e equilibrados”. “Apliquei ao Estado Novo o mesmo crivo crítico que apliquei à Primeira República”, garantiu Rui Tavares em conversa com o Observador.

Conclusão

Rui Tavares, fundador do Livre, não deu qualquer aula na telescola, nem foi escolhido pelo governo para tal. Durante a aula de História, as professoras da disciplina decidiram transmitir parte de um programa em que Rui Tavares surge enquanto historiador a explicar a Exposição do Mundo Português. Esse programa remonta a 2018, não tem qualquer relação com o projeto #EstudoEmCasa e foi transmitido por decisão das docentes da disciplina, sem intervenção de Rui Tavares ou do ministério da Educação.

Assim,de acordo com o sistema de classificação do Observador este conteúdo é:

ERRADO

De acordo com a classificação do Facebook, este conteúdo é:

FALSO: as principais alegações do conteúdo são factualmente imprecisas. Geralmente, esta opção corresponde às classificações “falso” ou “maioritariamente falso” nos sites de verificadores de factos.

Nota 1: este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de fact-checking com o Facebook.

Nota 2: O Observador faz parte da Aliança CoronaVirusFacts / DatosCoronaVirus, um grupo que junta mais de 100 fact-checkers que combatem a desinformação relacionada com a pandemia da COVID-19. Leia mais sobre esta aliança aqui.

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