O uso ou não de máscara tem sido um dos temas mais debatidos nesta nova era Covid-19. Nesse sentido, surgiu uma publicação no passado 23 de setembro que alega que as máscaras provocam hipoxia (uma redução da concentração de oxigénio no sangue), dando o exemplo de casos específicos de alunos e professores nas escolas portuguesas. “Crianças com dores de cabeça ao fim de um dia respirando através de uma máscara (sintomas de hipoxia), professoras a sentirem-se mal durante o decorrer das aulas com falta de ar, arritmias, fadiga extrema (todos sintomas de hipoxia), crianças obrigadas a permanecerem sentadas nos intervalos, vigiadas por auxiliares, sem poderem movimentar-se a não ser para irem ao WC (sob vigilância de auxiliares)”, lê-se na publicação. Chegou às 15,3 mil visualizações e às 476 partilhas. É, no entanto, uma publicação com informações factualmente erradas.

Post falso argumenta que máscaras provocam hipoxia.

O post em questão, além de não dizer a que escolas do país se refere, releva logo um primeiro sinal de que possam estar a ser seguidas opções de segurança inadequadas: nomeadamente, quando o autor diz que existem “crianças asmáticas que se queixam de falta de ar com uma máscara N95”. É que este tipo de máscaras não é recomendado para o público em geral. “As máscaras FFP2 ou N95, mais corretamente chamados respiradores, não são recomendados para o público em geral, pois devem ser reservados para uso dos profissionais de saúde, especialmente em contexto de pandemia”, afirma Tiago Alfaro, professor auxiliar convidado de Pneumologia da Faculdade de Medicina de Coimbra e vice-presidente da Sociedade Portuguesa de Pneumologia ao Observador. Ou seja, “embora os respiradores possam oferecer maior proteção do próprio contra a infeção, quando bem usados e bem adaptados à face, são menos confortáveis e mais difíceis de usar corretamente. Também é difícil obter uma boa adaptação à face, especialmente em crianças”, acrescenta.

Nesse sentido, Filipe Froes, pneumologista e coordenador do gabinete de crise da Covid-19 da Ordem dos Médicos, esclarece ao Observador que, “nas escolas, as máscaras recomendadas são modelos comunitários certificados e, no máximo, máscaras cirúrgicas”. É importante também dizer que o uso deste material de proteção só é obrigatório nas escolas a partir do 5º ano de escolaridade.

Mesmo assim, e havendo poucos estudos relacionados com esta temática, Tiago Alfaro facultou ao Observador um estudo sobre as variações nos níveis de oxigénio que resultam do uso de uma máscara N95 em crianças. Esse estudo revelou um nível normal de saturação de oxigénio “com o uso da máscara em repouso e durante uma caminhada rápida em 106 crianças de 7 e 14 anos”.

Já sobre as máscaras cirúrgicas e sociais, a verdade é que a resistência contra o novo coronavírus “é menor, porque o ar passa pelos lados”, diz Tiago Alfaro. No entanto, “não há riscos de redução dos níveis de oxigénio, muito menos de uma redução significativa”, esclarece. O pneumologista afirma também que o eventual desconforto com o uso deste tipo de máscara “tende a diminuir com o tempo e habituação da criança e é também menor” quando comparado com as N95 e FFP2.

Quanto às queixas que podem surgir do uso daquele material de proteção, como causar ou agravar dores de cabeça, isso só acontece pela pressão que o material exerce sobre o rosto, e não por uma eventual falta de oxigénio. “Os equipamentos de proteção individual usados nos hospitais pelos profissionais de saúde foram os mais problemáticos. As máscaras cirúrgicas e sociais são mais ajustáveis e confortáveis. O uso mantido da máscara vai permitir às crianças e adultos ajustarem-se melhor e aumentar a tolerância”, concluiu Tiago Alfaro.

Nem a Organização Mundial de Saúde, nem o Centro de Prevenção e Controlo de Doenças (Centers for Disease Control and Prevention, instituto norte-americano) nem o Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças referem, nas suas recomendações, qualquer tipo de alterações dos níveis de oxigénio como riscos associados ao uso das máscaras. A Sociedade Italiana de Pediatras (SIP) também já refutou a informação veiculada. “As máscaras podem ser desconfortáveis, mas não têm um impacto na saúde de crianças depois dos três anos [o uso de máscara em Itália é recomendado a partir desta idade]. Os cirurgiões usam máscara durante muitas horas e não sofrem qualquer tipo de consequência”, afirmou a SIP a 15 de setembro deste ano. Portanto, um uso prolongado não provoca nem a intoxicação por dióxido de carbono nem uma deficiência na concentração de oxigénio.

A “Acta Médica”, revista científica da Ordem dos Médicos lançou este mês uma recomendação, assinada por três pediatras portugueses, para o uso correto de máscaras nas crianças — excepção feita a menores de 2 anos –, sendo que o uso das FFP2/N95 só é aconselhado para crianças imunocomprometidas ou com doenças crónicas. As máscaras cirúrgicas podem prevenir a inalação de gotículas e estão disponíveis em tamanhos mais pequenos para crianças com mais de 3 anos. “Para já, parece claro que o uso de máscara, combinado com outras medidas de contenção, podem limitar o contágio do SARS-CoV-2”, lê-se no artigo científico.

Lá fora, posts com alegações como as que foram analisadas pelo Observador, e também outras publicações do género, já foram desmentidos por fact-checkers internacionais, como o da Agence France-Presse (AFP). Shelley Payne, diretor do Centro de Doenças Infecciosas de La Montagne, da Universidade do Texas, afirmou à AFP que “um correto uso da máscara permite a circulação de ar, não permitindo a acumulação de CO2”. Ou seja, não pode causar hipoxia. Por outro lado, John Criscione, professor de engenharia biomédica da Universidade A&M do Texas, esclarece que, num caso hipotético, se alguém tivesse hipoxia durante o uso daquele material de proteção, isso só poderia acontecer “ou porque a máscara era muito restritiva ou a pessoa em questão sofre de uma condição médica específica que a torna menos apta para acomodar uma pequena restrição na respiração”, afirmou. Já Claudio Mendez, professor de Políticas de Saúde da Universidade Austral do Chile, concorda que, desde que o uso de máscaras permita a circulação de oxigénio, não poderá causar hipoxia.

Segundo as autoridades de saúde, a máscara cirúrgica deve ser usada durante um período de quatro a seis horas — ainda que, em Portugal, os profissionais de saúde as utilizem por um turno de oito horas, como esclarecido por Filipe Froes. A máscara N95 pode ser utilizada por um turno de oito horas, havendo, porém, formas de as reutilizar. Quanto às crianças, a duração “não varia com a idade mas com o modo de utilização”, refere o pneumologista.

Conclusão

Não é verdade que o uso de máscaras provoque hipoxia (baixa concentração de oxigénio). O pneumologista Tiago Alfaro esclareceu ao Observador que não existe esse risco nem evidência científica que comprove a alegação do post viral. Diz também que o uso dos respiradores N95 não são recomendados para a comunidade em geral nem tão pouco nas escolas — como alega o autor da publicação –, mas sim para os profissionais de saúde. A Organização Mundial de Saúde, o Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças e o Centro de Prevenção e Controlo de Doenças, sediado nos Estados Unidos da América, não fazem qualquer referência a esta consequência nas suas recomendações. Outros fact-checkers internacionais também já desmentiram a informação propagada.

Assim, de acordo com o sistema de classificação do Observador, este conteúdo é:

ERRADO

No sistema de classificação do Facebook este conteúdo é:

FALSO: as principais alegações do conteúdo são factualmente imprecisas. Geralmente, esta opção corresponde às classificações “falso” ou “maioritariamente falso” nos sites de verificadores de factos.

NOTA1: este artigo foi produzido no âmbito de uma parceria de fact-checking entre o Observador e a TVI

NOTA2: este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de fact checking com o Facebook.

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