Uma publicação divulgada no Facebook alega que as vacinas contra a Covid-19 administradas a idosos não foram testadas. O autor defende esta posição ao partilhar o excerto de uma entrevista do coordenador da task force do plano de vacinação na RTP, acompanhado de um texto negacionista da pandemia. “Se (as vacinas) não são seguras e testadas para jovens, que se lixem os velhos? É isso? É o que estão claramente a dizer os que SUPOSTAMENTE estão a querer ‘salvar vidas’ dos velhos!”, lê-se na publicação do Facebook. A conclusão é errada e as palavras do vice-almirante Henrique Gouveia e Melo são tiradas do contexto. Mas vamos por partes.

A entrevista em causa remonta a 4 de maio. No dia anterior, o jornal The New York Times noticiava que o regulador norte-americano estava a preparar-se para autorizar a administração da vacina da Pfizer a jovens entre os 12 e os 15 anos. Sendo assim, a jornalista da RTP perguntou ao vice-almirante Gouveia e Melo quando é que, em Portugal, os jovens poderão começar a ser vacinados. E é aqui que surge o excerto da entrevista em questão: “Para se fazer vacinação de jovens, tem que haver vacinas seguras e testadas. Enquanto a EMA, que é o regulador europeu, não garantir que as vacinas são testadas (nos jovens), nós não devemos vacinar essa população”, explicava Henrique Gouveia e Melo.

O vice-almirante referia-se ao facto de a EMA ainda não ter aprovado na União Europeia a administração das vacinas contra a Covid-19 atualmente disponíveis a crianças e adolescentes, uma vez que os testes nesta faixa etária ainda estão a ser feitos. Só a título de exemplo, o presidente-executivo da BioNTech já revelou que conta começar a administrar vacinas contra a Covid-19 a jovens em junho.

Ou seja, o autor da publicação alvo de verificação de factos neste artigo mistura dois assuntos — a vacinação de idosos já em curso e os testes da eficácia e segurança das vacinas em jovens. E retira das palavras de Henrique Gouveia e Melo uma conclusão precipitada e errada: se as vacinas contra a Covid-19 ainda não foram testadas em jovens, é porque as vacinas administradas a idosos também não foram testadas. É falso. E para o concluir basta consultar os ensaios clínicos de cada farmacêutica.

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Que as vacinas contra a Covid-19 foram testadas, é óbvio. Ao longo dos últimos meses, entidades como a Pfizer, Moderna ou AstraZeneca têm divulgado os estudos que o comprovam. Aliás, a EMA frisou que testou a vacina da Pfizer/BioNTech em cerca de 44.000 pessoas antes de anunciar a sua aprovação no espaço Europeu, em dezembro do ano passado. Este Fact Check podia ficar por aqui. Mas atentemos ao “público alvo” referido na publicação: os idosos. Será que as vacinas atualmente administradas em todo o mundo não foram testadas em idosos? Uma vez mais, e como já dissemos anteriormente, basta consultar os ensaios clínicos de cada farmacêutica para concluir que foram. Neste caso, vamos analisar os estudos das vacinas disponíveis em Portugal.

Na terceira e última fase do ensaio clínico da vacina da Pfizer/BioNTech, participaram mais de 43.000 pessoas. 41% tinham idades entre os 56 e os 85 anos.

Num estudo da AstraZeneca divulgado em março deste ano, é referido que a mesma fase de ensaios clínicos foi feita com mais de 32 mil pessoas. Cerca de 20% tinha 65 ou mais anos. Podemos ainda recordar que, e depois de algumas dúvidas numa fase inicial, a Direção-Geral da Saúde recomendou esta vacina para pessoas acima dos 60 anos.

Na Moderna, a terceira fase dos ensaios clínicos começou em julho do ano passado. De acordo com dados de outubro, cerca de 8 mil pessoas com 65 ou mais anos tinham tomado a vacina durante os testes.

A vacina da Johnson & Johnson, que em Portugal já foi recomendada para pessoas acima dos 50 anos, começou a ser testada em julho do ano passado. A farmacêutica norte-americana explica que 375 pessoas com 65 ou mais anos participaram nesta fase inicial de ensaios clínicos.

Na maioria dos ensaios clínicos que descrevemos acima, todos os participantes tinham pelo menos 18 anos. Podemos assim concluir que as vacinas contra a Covid-19 administradas na população mais idosa foram testadas — em diferentes grupos etários e incluindo os idosos. Quanto aos testes e à vacinação em crianças e adolescentes, a Pfizer/BioNTech já garantiu que a sua vacina é eficaz e segura para a população entre os 12 e os 15 anos. Nos Estados Unidos, a vacinação deste público pode começar muito em breve. No resto do mundo, os ensaios continuam a ser feitos e as farmacêuticas aguardam as respetivas aprovações.

Conclusão

A publicação no Facebook em causa defende que as vacinas administradas a idosos não foram testadas. É falso. Uma análise aos vários ensaios clínicos de farmacêuticas como Pfizer, AstraZeneca ou Moderna mostra que participaram nos ensaios clínicos de avaliação de segurança e eficácia dos fármacos milhares de pessoas, de diferentes idades e incluindo idosos. O autor da publicação confunde as palavras do coordenador da task force do plano de vacinação: na entrevista à RTP em causa, o vice-almirante Henrique Gouveia e Melo falava dos testes das vacinas em jovens que ainda decorrem, e não do processo de vacinação da população mais idosa, já em curso e com garantias de eficácia e segurança.

Segundo a classificação do Observador, este conteúdo é:

ERRADO

No sistema de classificação do Facebook este conteúdo é:

 FALSO: as principais alegações do conteúdo são factualmente imprecisas. Geralmente, esta opção corresponde às classificações “falso” ou “maioritariamente falso” nos sites de verificadores de factos.

Nota: este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de fact checking com o Facebook.

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