Circulou nas mais diversas redes sociais desde o mês passado e com poucos segundos alcançou milhões de utilizadores. É esta a história de um vídeo com aparente origem no Reino Unido e que mostra imagens de uma suposta câmara de vigilância numa sala de uma escola britânica, na qual uma professora ensina um grupo de 12 crianças uma oração islâmica. Ajoelham-se em pequenos tapetes de forma sincronizada, levantam as mãos para o ar e repetem “Allahu Akbar” (Alá é grande, em português).
Similar a todas as partilhas do vídeo no Facebook ou Instagram — quer sejam britânicas, brasileiras ou até portuguesas — é a mensagem de alerta para uma doutrinação de crianças em escolas ocidentais sob os preceitos da religião muçulmana.
“Depois de o islamismo tomar o poder do Estado e da cultura local, então é decretado o fim desse país como conhecemos e de sua cultura”, escreve um utilizador em português do Brasil, enquanto numa publicação numa página portuguesa se lê que “o que os muçulmanos querem são as nossas crianças para as doutrinar com a sharia, já que não conseguem doutrinar os pais”.
Ou seja, simboliza o impacto permanente e de longo prazo da imigração proveniente de países muçulmanos para a Europa, com uma suposta consequência de adulteração dos valores e da identidade destes países. Contudo, o referido vídeo não é real e denota vários indícios de que terá sido gerado por inteligência artificial (IA). A baixa qualidade geral das imagens ajuda a ocultar as inconsistências de um vídeo desta natureza, mas é possível constatar sinais da sua ausência de autenticidade.
Do elástico no penteado da primeira criança à esquerda, que encolhe visivelmente ao longo dos movimentos efetuados, à professora que se senta numa cadeira aparentemente invisível nos primeiros segundos do vídeo, sem esquecer o tapete que parece estar em falta na fila de trás e que leva a uma aparente sobreposição de duas crianças — todos estes sinais apontam para uma produção assente em IA.
Sem ter ‘marcas de água’, o vídeo conseguiu tornar-se mais verosímil e ganhar um alcance significativo nas redes sociais, ao ampliar a dimensão das partilhas. Paralelamente, outras plataformas de ‘fact checking’, como o Full Fact, o The Journal ou o Snopes já vieram atestar também online que o vídeo em causa não é real, mas, com elevado grau de certeza, produzido através de inteligência artificial.
As imagens começaram a ser difundidas na sequência da divulgação de um estudo no Reino Unido que apontava para o crescimento de tensões e descontentamento em relação à imigração naquele país.
Conclusão
O vídeo de uma suposta professora a ensinar uma oração islâmica a alunos de uma escola britânica não é verdadeiro e todos os sinais apontam para que tenha sido produzido por inteligência artificial e depois partilhado e promovido em utilizadores, páginas ou grupos associados à extrema-direita.
Assim, de acordo com o sistema de classificação do Observador, este conteúdo é:
ERRADO
No sistema de classificação do Facebook, este conteúdo é:
FALSO: As principais alegações do conteúdo são factualmente imprecisas. Geralmente, esta opção corresponde às classificações “falso” ou “maioritariamente falso” nos sites de verificadores de factos.
NOTA: este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de fact checking com o Facebook.