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Porque é que se continua a morrer tanto de doenças cérebro-cardiovasculares em Portugal?

14 ago. 2024, 10:51
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quarta, 14 ago. 2024
Fotografia de Cláudia Pinto
Cláudia Pinto
Foto da Newsletter

O título desta newsletter foi  inspirado numa das perguntas que colocámos ao cardiologista Filipe Macedo, coordenador do Programa Nacional para as Doenças Cérebro-Cardiovasculares (PNDCCV), na grande entrevista que fizemos ao médico. A resposta não tardou: “Faltam camas para AVC, faltam médicos, falta reabilitação cardíaca”. Numa conversa longa, na sede da Direção-Geral da Saúde, em Lisboa, o médico abordou o que tem melhorado na prevenção, gestão e tratamento das doenças cérebro-cardiovasculares (DCCV), mas também revelou as suas principais preocupações, desde logo, o facto de as pessoas se deslocarem pelos próprios meios perante alguns sintomas de enfarte agudo do miocárdio e de AVC em vez de contactarem o 112, como temos alertado em algumas reportagens desde março deste ano. É que este gesto é a diferença entre ser rapidamente socorrido, não ter de passar pela triagem à chegada ao hospital e ter uma equipa e meios devidamente preparados para tratar estas doenças.

Apesar de defender que Portugal responde bem a tratar as situações agudas, o cardiologista afirmou que  a aposta não é semelhante ao nível da reabilitação cardíaca. “É fundamental, senão obrigatório, que as administrações hospitalares e as direções dos serviços de cardiologia estejam empenhadas nesta questão. Enquanto a tutela ou a Ordem dos Médicos não derem instruções para que os serviços de cardiologia tenham obrigatoriamente reabilitação cardíaca, não vamos melhorar nesta área.”

Nesta entrevista falámos de outras doenças igualmente graves e que, apesar de não liderarem os números da mortalidade, têm um grande impacto no cenário global. É o caso da insuficiência cardíaca. “Ficámos alarmados com o elevado número de doentes que encontrámos com insuficiência cardíaca. Segundo o estudo PORTHOS  [uma iniciativa da Sociedade Portuguesa de Cardiologia e da Astrazeneca], mais de 700 mil portugueses vivem com esta doença, o que é, de facto, um número demasiado alto. Outro aspeto a assinalar é que há uma percentagem elevada de doentes que não têm noção que têm insuficiência cardíaca”, disse Filipe Macedo.

E esta constatação remete-nos para a importância da prevenção (ter estilos de vida saudáveis, como uma alimentação equilibrada, a prática de exercício físico, não fumar e não beber álcool), mas também para o diagnóstico precoce de doenças e a devida vigilância e controlo. “É preciso tratar mais precocemente estes doentes para não evoluírem para uma situação catastrófica, porque já se morre mais de insuficiência cardíaca do que devido a algumas neoplasias (cancros).”

… Faço aqui uma pausa – antes de voltar à entrevista ao coordenador do PNDCCV – para sugerir o Explicador que preparámos para si sobre insuficiência cardíaca, essa doença silenciosa que é desconhecida de 90% de portugueses.

No que respeita ao acesso a cuidados para tratamento das DCCV, existem desigualdades entre as diferentes zonas do País, mas Filipe Macedo destacou a abertura, no espaço de ano e meio, de “uma sala de hemodinâmica [onde se faz o diagnóstico e tratamento de doenças cérebro-cardiovasculares, através de procedimentos como o cateterismo, em caso de enfarte] no Serviço de Cardiologia do Hospital da Covilhã, situação que já se arrastava há 12 anos, onde já se fizeram cerca de 500 cateterismos desde fevereiro deste ano. Foi ainda possível abrir mais duas salas de hemodinâmica, uma em Aveiro e outra em Guimarães”. Com esta mudança, as pessoas da região já conseguem ser tratadas atempadamente.

Sobre o Plano de Emergência para a Saúde, apresentado pelo governo em maio, o coordenador do PNDCCV lamenta que os cardiologistas e a coordenação do PNDCCV não tenham sido ouvidos e reforçou “não entender porque não foi dada prioridade a estas patologias [cérebro-cardiovasculares] neste Plano”. Recorde-se que o mesmo decidiu priorizar a oncologia, a saúde mental e a obstetrícia.

Mariana Cardoso, 31 anos, foi a protagonista mais recente da rubrica “Quando a minha vida mudou” e teve um AVC, grávida de cinco meses. Relata que sempre “fez tudo bem”, ao ser muito atenta a questões de saúde, e que se questionou porque é que este episódio lhe aconteceu… A professora de clarinete explica ainda o medo que tem de voltar a engravidar e de passar por uma situação semelhante. A entrevista é da jornalista Sofia Teixeira e o vídeo de Nuno Neves e Kimmy Simões. Vale a pena ver este episódio.

Existem outras doenças cérebro-cardiovasculares igualmente impactantes como as que constituem a principal causa de morte e de incapacidade prematura em Portugal – como o enfarte e o AVC – mas que não são tão conhecidas ou faladas. É o caso do aneurisma da aorta abdominal, uma doença grave e potencialmente fatal, que pode ser prevenida através do diagnóstico precoce (mediante a realização de uma ecografia), mas que ainda não tem o mesmo foco de outras doenças. Foi este o mote para uma conversa no programa Consulta Informal [disponível em vídeo e em podcast] com o cirurgião vascular Ricardo Castro Ferreira e o conhecido apresentador de televisão Júlio Isidro que descobriu ao acaso que vivia com este problema.  Como ele, estima-se que mais de 25 mil pessoas em Portugal desconheçam que têm esta doença.

Depois de uma ida à urgência devido a uma cólica renal, Júlio Isidro foi submetido a uma TAC (Tomografia Axial Computorizada) que trazia a notícia inesperada: tinha um aneurisma da aorta abdominal. Apesar do diagnóstico, esperou quatro anos até ser submetido a uma cirurgia que permite prevenir o grave desfecho e aconselha os leitores a não seguirem o seu exemplo.

Não quero terminar esta newsletter sem destacar um projeto do Hospital de Santa Cruz e da Faculdade de Motricidade Humana que ajuda à reabilitação de crianças, adolescentes e jovens adultos com doenças cardíacas graves. A reportagem da jornalista Carla Mateus e do fotojornalista Diogo Ventura dá-nos a conhecer os bastidores do HERO – Programa de Reabilitação Cardíaca Pediátrica, nascido em novembro de 2022 e que já apoiou mais de quarenta pacientes, junta profissionais de várias áreas e pretende melhorar a capacidade física adequando os exercícios aos limites de cada um. O cardiologista pediátrico e coordenador do HERO João Pedro Rato lamenta que o SNS esteja “assoberbado com os desafios das doenças que precisam de respostas imediatas, o que torna muito difícil implementar projetos desta natureza” e denota que os participantes têm vindo a melhorar a sua aptidão física.

Sabia que Portugal é o país da União Europeia com piores resultados relativos à prática de atividade física? O Observador noticiou, em fevereiro de 2023, o relatório da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Económico (OCDE) e da Organização Mundial de Saúde (OMS), que conclui que, “45% dos adultos portugueses fazem menos de 150 minutos de atividade física por semana”.

Se está de férias, descanse a mente, mas mantenha o corpo ativo. Deixo-lhe algumas sugestões gratuitas de prática de atividade física na agenda que integra esta newsletter, mas pode aproveitar o bom tempo para manter algumas rotinas de exercício físico. Na praia, na piscina, no campo, o que interessa é mexer-se e apostar na sua saúde. Pode também aproveitar para aceder aos nossos conteúdos mais recentes. Se, entretanto, já voltou de férias, desejo-lhe um bom regresso ao trabalho.

REPORTAGENS E ENTREVISTA

Fotografia
Arterial

"É essencial aumentar o número de camas para AVC"

O cardiologista Filipe Macedo, coordenador do Programa Nacional das Doenças Cérebro-Cardiovasculares, defende mais reabilitação, educação para a saúde e tratamento atempado da insuficiência cardíaca.

Fotografia
Arterial

Insuficiência cardíaca: que perigo é este?

Tem os mesmos sinais de alerta de outras doenças, mas é silenciosa, o que pode atrasar o diagnóstico e o tratamento em tempo útil. A insuficiência cardíaca é um perigo à espreita que pode ser evitado.

Fotografia
Arterial

“Se eu faço tudo bem, porque é que fui eu?”

Aos 31 anos, grávida de cinco meses, Mariana Cardoso teve um AVC. Recuperou das sequelas físicas, mas o medo de passar pelo mesmo condicionou algumas escolhas. Nomeadamente a de ter outro filho.

Fotografia
Arterial

A fatal doença vascular que pode ser prevenida

Júlio Isidro e Ricardo Castro Ferreira, cirurgião vascular, ajudam-nos a conhecer esta doença potencialmente fatal. No caso do apresentador, foi detetada a tempo.

Fotografia
Arterial

A doença discreta que é uma emergência médica

Júlio Isidro e o cirurgião Ricardo Castro Ferreira conversam sobre o aneurisma da aorta abdominal, a doença cardíaca que afeta sobretudo homens a partir dos 65 anos - como foi o caso do apresentador.

Fotografia
Arterial

Reabilitar o coração e ter mais qualidade de vida

Uma doença cardíaca pode tornar as crianças mais sedentárias. Este projeto do Hospital de Santa Cruz e da Faculdade de Motricidade Humana ajuda-as a sentirem-se “mais capazes”. Física e mentalmente.

Fotografia
Arterial

A rede e a rádio que reabilitaram Carlos

Aos 45 anos, Carlos Diogo sofreu um AVC hemorrágico. Graças a uma rede familiar e profissional, o o jornalista voltou à rádio. E a uma parte da vida que tinha.

OPINIÃO

Fotografia do Colunista
Sónia Dias

Prevenção e promoção em saúde: prioridade nacional

A prevenção e a promoção são o caminho para continuarmos a construir uma sociedade com mais saúde e mais sustentável. A Escola Nacional de Saúde Pública quer ser parte da solução.

Fotografia do Colunista
António Lopes

É preciso aumentar o número de fisioterapeutas

É necessário e urgente permitir o acesso rápido e facilitado à fisioterapia nas várias fases das doenças cérebro-cardiovasculares pois esta é essencial para a reabilitação dos sobreviventes.

Fotografia do Colunista
Cristina Vaz de Almeida

Evitar a principal causa de morte desde a infância

Se considerarmos que, em 100 pessoas com doenças cérebro-cardiovasculares, 85 poderiam prevenir e não ter a doença, percebemos que a solução se centra quase toda no comportamento humano.

Fotografia do Colunista
Madalena Barros

Uma família a querer sobreviver a um AVC

Ser assistente social não tornou mais fácil a tarefa de cuidar da minha mãe após um AVC. Fui cuidadora, filha, amiga, enfermeira, advogada, e senti muito a falta de um suporte integral.

AGENDA

19 e 26 de agosto

10h00 Online: Aulas de Pilates Clínico em direto

Até 20 de agosto

Sines em Movimento

9 e 13 de setembro

Ribeira do Neiva, Vila Verde: Rastreios de saúde gratuitos

Até 13 de setembro

Almancil, Loulé e Quarteira: Verão Ativo 2024

O QUE SE ESCREVE LÁ FORA

Tive um AVC aos 32 anos enquanto praticava jiu-jitsu
Daily Mail
Estudo revela a influência do colesterol alto no desenvolvimento de demência
Financial Times
Os exames de sangue que podem sinalizar o risco oculto de doença cardíaca
The Wall Street Journal
Quer aumentar o "bom" colesterol? Eis o que tem de fazer
Time
O que é que a nova calculadora do risco cardiovascular trará aos doentes?
Harvard Medical School
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