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“Hoje, com mais de trinta anos de experiência, sinto-me muito mais tranquilo a falar e a trabalhar com os pacientes. Uma das coisas que aprendi é que não podemos ter medo da dor dos outros. Se nós nos assustamos, o que fará quem vive com dor? Como poderá suportá-la sozinho? Mas não ter medo da dor dos outros não significa indiferença. Pelo contrário: acredito que devemos deixarmo-nos tocar pelas pessoas e pelo seu sofrimento. Podemos ter muitos conhecimentos teóricos e saber muitas técnicas, mas, se vestimos uma carapaça, as coisas não vão correr bem”. O testemunho é do fisioterapeuta Alexandre Lopes (na foto), o protagonista mais recente da rubrica “O que aprendi com a dor dos outros”, entrevistado pela Sofia Teixeira e fotografado pelo Igor Martins. |
Trabalhar diariamente com pessoas com dor é desafiante e apesar das estratégias que os profissionais de saúde vão criando ao longo dos anos, existem casos mais complexos e marcantes. São essas as histórias que temos conhecido nesta rubrica. O fisioterapeuta do Hospital de Santo António, no Porto, e professor na Escola Superior de Saúde, do Instituto Politécnico do Porto, confessa que já foi mais sensível, mas que há situações que mexem mais do que outras. No artigo que pode ler na secção DOR, recorda a jovem de 20 anos, que foi atropelada e projetada, tendo ficado politraumatizada. “Quando chegou às minhas mãos, estava num estado gravíssimo, um dos mais graves que já vi. Mas o que mais me perturbou foi o silêncio. Não havia gritos nem queixumes. As lágrimas escorriam-lhe pelo rosto, mas sem ruído. Sentia uma dor tão severa, tão avassaladora, tão pessoal, tão profunda, que ultrapassava qualquer possibilidade de expressão. Impressionou-me e tocou-me muito. Doeu-me também.” |
Há acidentes rodoviários que mudam vidas. Foi o que aconteceu a Tiago Alegria, autor de um artigo de opinião. Pode ler aqui o relato dos dias em sobrevivência, das várias cirurgias a que foi submetido e do momento de viragem: o dia em que implantou um neuroestimulador, “um pequeno dispositivo que ajuda a ‘baralhar’ os sinais da dor, para que o cérebro deixe de receber a mensagem em volume máximo”, como o próprio descreve. É um relato tocante, na primeira pessoa, que aconselho. |
Mas será que a dor é apenas física? Ou é sempre psicológica? A dúvida pode ser polémica porque os sinais físicos chegam mesmo ser incapacitantes. Mas a mais recente convidada do podcast Conversas sobre Dor — que tem sido transmitido no último mês também na Rádio Observador, todos os sábados — defende que “a dor é sempre psicológica”, ainda que esta frase não deva ser “dita ou utilizada com um tom estigmatizante”. Sónia Bernardes, psicóloga da saúde, especialista em psicologia da dor e professora no ISCTE, suporta-se dos resultados de estudos de neurociência para explicar que “qualquer que seja a experiência de dor tem sempre uma componente psicológica”. Mas também é verdade que “a dor é um sistema de alarme que existe para nos proteger, mas não é um sinal de lesão, mas de perigo potencial”. |
Foi nesta conversa que a também investigadora revelou o projeto que coordena no ISCTE e na qual podem participar pessoas que vivem com dor crónica músculoesquelética persistente. Chama-se Know Your Pain – Compreender a Dor para viver melhor. O convite é simples. Se sente dor muscular, óssea ou articular (como lombalgia, cervicalgia, artrite, fibromialgia, entre outras) há mais de três meses, este programa gratuito oferece uma oportunidade única para explorar e compreender melhor a sua dor. |
O programa consiste em quatro sessões em grupo, duas vezes por semana, presencialmente na sede do ISCTE, em Lisboa, em datas a confirmar, com duração até duas horas (em horário pós-laboral), dinamizadas por formadoras especializadas. É uma forma de os participantes — que podem inscrever-se até julho — partilharem os seus receios e dúvidas. Este espaço dá voz a todos e esta participação irá contribuir para novas conclusões decorrentes da investigação científica sobre dor crónica e bem-estar. Pode inscrever-se aqui. |
Além do tratamento e acompanhamento individualizado, sabe-se que algumas recomendações não se restringem à medicação. Alguns especialistas com quem conversámos para as várias rubricas da secção DOR consideram que o movimento é sempre melhor que o sedentarismo. Agora que o sol veio para ficar e as tempestades já afastaram um inverno que não deixa saudades é mais fácil caminhar ou retomar atividades ao ar livre. Se precisa de um impulso aproveite as iniciativas gratuitas disponíveis um pouco por todo o país já no próximo fim de semana, no seguinte ou mesmo durante o mês, como forma de assinalar o Dia Mundial da Atividade Física, celebrado a 6 de abril. |
A título de exemplo a Câmara Municipal do Funchal promove várias atividades no dia 4 de abril, no Parque Urbano da Nazaré, entre as 10h00 e as 14h00; e os municípios de Lisboa, Cascais e Oeiras juntam-se para a terceira edição do Dia Mundial da Atividade Física, já no dia 12 de abril, como noticiou há dias o Observador. A Universidade do Porto dinamiza várias iniciativas entre 6 e 28 de abril e é possível encontrar outras iniciativas em vários outros locais. Esteja atento e aproveite! |
Não quero terminar esta newsletter sem lhe desejar uma Boa Páscoa. Fique com o Observador durante as férias ou os dias de descanso, se for o caso, ative os alertas da secção Dor e fique a conhecer os novos conteúdos mal sejam publicados. Subscreva esta e outras newsletters e se quiser sugerir algum tema e história relacionados à dor crónica, escreva-nos. Para que a dor não seja vivida em silêncio. |