Na ilha de Malta, a quase 2000 km da minha família, foi onde, num breve instante, o acidente de mota aconteceu. Uma curva, as primeiras chuvas, algum óleo na estrada, um impacto, e a minha vida ganhou um “antes” e um “depois”. Do lado direito, os nervos do plexo braquial [uma rede complexa de nervos situada na região do pescoço e ombro] foram arrancados. Foi como se o corpo tivesse perdido ligações por dentro. E, com isso, nasceu uma dor que não se vê, mas comanda.
Acordei pela primeira vez, já intervencionado ao braço direito. Fixadores metálicos por todo o braço, e uma peça em forma de borboleta a sair do ombro, demasiado surreal para ser real. Fiz a única coisa que conseguia, na linguagem que podia: o humor, e perguntei se aquilo era para rodar e dar corda aqui ao “soldadinho de chumbo”.
Nas cirurgias seguintes, colocaram-me hastes de titânio em ambos os fémures. Também, estes, fraturados e era preciso recuperar mobilidade depressa, porque sem pernas não há autonomia nem recomeço. Numa terceira, removeram os fixadores do braço, que foram substituídos por mais titânio, duas placas e uma haste. Foi aí que se fez a primeira incursão ao plexo braquial e o meu “antes” e “depois” ficou solidificado: o plexo estava destroçado. Não havia margem. Não havia fio para puxar com esperança. Apenas dar tempo. Seguidamente, outra cirurgia onde tentaram recuperar o nervo fibular, responsável pela síndrome do pé caído, infelizmente, sem sucesso.
Seis meses depois, com fisioterapia intensiva (duas sessões por dia, de três horas cada), percebi que há uma diferença enorme entre reabilitar um corpo e gerir uma dor neuropática. Voltei a Portugal com uma bengala para conseguir andar, ou melhor, para cambalear entre voos e aeroportos, já com a matriarca mais forte do mundo ao meu lado. A distância acabou. A batalha, não.
Em Coimbra, fui operado pelo professor doutor Abel Nascimento, que com expectativas controladas, aceitou o desafio. Numa primeira cirurgia tentou religar nervos do plexo braquial e recuperar a função do pé caído com uma rotação de tendão. Cerca de 60% da função do pé voltou — e eu agarrei-me a essa vitória como prova de que o resto também podia seguir o mesmo caminho. Numa segunda operação, colocámos um bloqueador interno no cotovelo do braço direito para que o braço deixasse de viver em extensão total e ganhasse uma forma mais natural. E foi aí que a esperança ficou mais dura: fizemos tudo o que era possível, dentro das circunstâncias.
Há um luto nisto de dizer “adeus” a algo que se torna um anexo, e que vem com dor constante. Não é um momento. É um processo. A dor nunca foi “normal”. Era constante. Torção por dentro, esmagamento, queimadura sem fogo, e choques elétricos a aparecer do nada, como estalos secos.
A melhor forma de explicar foi através do som: um ruído de estática, como um rádio fora de sintonia, sempre ligado. Às vezes tão alto que parecia ocupar a casa inteira. E quando digo “sempre”, é mesmo sempre: 24 horas por dia, sete dias por semana, sem pausas, sem botão de desligar. Durante oito anos.
Quem nunca viveu assim imagina que o pior é o sofrimento físico. Também é. Mas há outro lado: a dor rouba a clareza, a paciência, a capacidade de decidir coisas simples. Não é fraqueza. É sobrevivência. E, nesse modo, até pensar custa.
Durante anos, o meu dia foi gestão de ruído. Não era “viver” no sentido pleno. Era aguentar. Era estar presente enquanto uma parte de mim gritava sem parar. Era sorrir e dizer “está tudo bem, isto já passa” a quem amo, sabendo que, com sorte, o volume só baixaria o suficiente para eu conseguir ouvir as suas vozes.
A viragem aconteceu quando cheguei às pessoas certas, com ajuda da minha melhor amiga, a quem hoje chamo, com muito orgulho, de minha esposa. Conheci o Dr. Mariano Veiga, que me referenciou para o Dr. Edgar Semedo. E, com a aprovação do Dr. Nuno Franco, na Consulta da Dor da ULS Médio Tejo (Unidade de Tomar), surgiu a opção de implantar um neuroestimulador: um pequeno dispositivo que ajuda a “baralhar” os sinais da dor, para que o cérebro deixe de receber a mensagem em volume máximo.
Aceitei com medo e esperança ao mesmo tempo. Quem vive com dor crónica aprende a desconfiar de promessas, mas também aprende a agarrar-se a portas que se abrem.
Depois da cirurgia, não houve milagre de cinema. Houve algo melhor: margem. O ruído que era ensurdecedor ficou ténue. E essa diferença mudou tudo. Pela primeira vez em oito anos, consigo pensar com clareza. Consigo descansar sem contar minutos até ao próximo choque. Consigo falar sem a dor se meter no meio de cada frase. Consigo, sobretudo, voltar a ser eu – não “eu com dor”, mas eu.
Escrevo isto como opinião e como testemunho: dor crónica não é só “doer”. É viver em alarme constante. E apenas quando esse alarme baixa, mesmo que não desapareça, o mundo volta a caber dentro de nós.
Hoje, o meu rádio ainda existe. Mas já não está no volume máximo. E esse “quase silêncio” devolveu-me a coisa mais simples e mais preciosa: a capacidade de estar aqui, inteiro.
Tiago Coimbra é fundador da PMELP. Foi web lead e lead designer, com pós-graduação em Web UI/UX, em várias empresas tecnológicas, tanto em Portugal quanto fora. Dedica-se à cibersegurança, com foco em ethical hacking e freelancing em investigação forense digital. É também estudante de Engenharia Informática na Universidade Aberta.
Dor é uma secção do Observador dedicada exclusivamente a temas relacionados com a dor e respetivo acompanhamento clínico e impacto na sociedade. Resulta de uma parceria com a FAI Therapeutics, um projeto da Ferraz Lynce (Grupo Iberfar), e tem a colaboração da Associação Portuguesa para o Estudo da Dor e da SIP-Portugal. É um conteúdo editorial completamente independente.
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