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A sua mulher é ciumenta? E o seu marido? E o que diz isso de vocês e da vossa saúde mental?

09 jul. 2025, 18:04
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quarta, 09 jul. 2025
Fotografia de Paulo Farinha
Paulo Farinha
Editor de Inovação

Síndrome de Otelo. Já ouviu falar?

E d’A Tragédia de Otelo, o Mouro de Veneza? É este o título da peça de teatro escrita por Shakespeare no início do século XVII e cuja história inspira o nome do síndrome emocional em cima. Há muita informação disponível na literatura e alguma informação disponível na internet, mas o resumo é simples: Otelo é um militar mouro de reconhecido mérito no campo de batalha que, por influência de terceiros, fica louco de ciúme infundado e acaba a estrangular a mulher, convencido que esta o traíra. Nem Desdêmona o enganou nem Otelo era, no início, um fulano com maus fígados. Mas ela acaba morta e ele também (suicida-se depois, ao ver o que fez). Fim.

Parecia apropriado dar o nome do fictício ciumento a um conjunto de reais sintomas característicos do ciúme patológico. A Síndrome de Otelo diferencia-se dos ciúmes “normais” pela grande dose de irracionalidade, violência e intensidade. Este artigo assinado por  um conjunto de profissionais de saúde mental da Unidade Local de Saúde de Aveiro (antigo Centro Hospitalar do Baixo Vouga) explica como, dentro do ciúme patológico, encontramos o ciúme obsessivo e o ciúme delirante. “Em comum, têm uma má adesão ao tratamento e um mau prognóstico. Mas enquanto o ciúme obsessivo se baseia em ruminações de que o parceiro poderá estar a ser infiel, acompanhadas de comportamentos compulsivos de verificação, o ciúme delirante é um distúrbio psicótico caracterizado por crenças fortes e falsas de que o parceiro é infiel.”

Está tudo aqui bem explicado, neste artigo assinado pela jornalista Sofia Teixeira e que faz parte de uma série de trabalhos em que tentamos decifrar o que ocorre no cérebro humano para justificar alguns comportamentos do dia a dia. Podem encontrá-los todos no Mental, a secção do Observador totalmente dedicada à saúde mental.

Este, em particular, incide sobre o ciúme, e procura trazer alguma luz a uma dúvida que assalta tanta gente a toda a hora, sobretudo quando passam por relações abusivas: porque carga de água é que a outra pessoa tem tantos ciúmes quando não tem razão nenhuma para tal naquela relação?

A resposta pode estar na outra. A outra relação. As outras relações. As anteriores, em que terá sido traído e viu assim minada a confiança que tinha no/a companheiro/a, e contaminando tudo o que vem depois. “Se a pessoa já teve uma relação em que foi traída ou se viu isso acontecer com alguém próximo, pode ficar mais vigilante em relação a situações que, para outras, passariam completamente despercebidas”, disse a psicóloga Ana Isabel Lage à autora do artigo.

Mas há outras razões — umas mais difíceis de entender do que outras, sobretudo para quem nunca passou por isto — e estão bem explicadas neste artigo.

O tema é fascinante para quem gosta de refletir sobre emoções humanas e a forma como nos moldam. Este artigo da psicóloga norte-americana Mary C Lamia é antigo (2013) mas traça umas comparações interessantes entre ciúme e inveja. Neste outro, também da Psychology Today, Lucia O’Sullivan, professora de psicologia da universidade canadiana de New Brunswick, escreve sobre uma tóxica mistura de emoções. E neste, publicado no New York Times, a psicóloga Juli Fraga e a escritora Connie Chang dissertam sobre ciúmes e amizade.

Seja qual for a forma como olhamos para o tema, é importante não o desvalorizar. Os números da violência doméstica em Portugal são assustadores e o fenómeno continua a vitimar todos os anos dezenas de pessoas, sobretudo mulheres. Em 2024 foram registadas 22 mortes por este motivo, com o número de queixas na PSP e GNR a chegar às trinta mil.

Será impossível saber quantas das quase 700 vítimas da violência doméstica em Portugal nos últimos 25 anos foram mortas por ciúme. Mas a livre associação não é exagerada. “O ciúme patológico, além do impacto para o paciente, pode ter consequências graves para o parceiro e para o rival imaginado, nomeadamente com o risco aumentado de violência doméstica”, pode ler-se no nosso artigo. “Em alguns casos, podem justificar-se medidas como internamentos involuntários para garantir a toma de medicação, além da psicoterapia.”

Além deste trabalho, estes são os mais recentes que publicámos no último mês no Mental:

Reportagens

Fotografia
Saúde Mental

A mulher que não conseguia dizer “não”

Ao acompanhar uma paciente com um perfeccionismo extremo, a psicóloga Ana Moniz sentiu-se impressionada com a crueldade com que ela se tratava a si própria: era vítima e agressora em simultâneo.

Fotografia
Saúde Mental

A depressão é genética?

A ideia parece ter surgido em oposição ao estigma de que só deprime quem não sabe lidar com os problemas da vida. A verdade estará algures numa fórmula de 50/50. O psiquiatra Gustavo Jesus explica.

Fotografia
Saúde Mental

A depressão é genética?

A ideia parece ter surgido em oposição ao estigma de que só deprime quem não sabe lidar com os problemas da vida. A verdade estará algures numa fórmula de 50/50. O psiquiatra Gustavo Jesus explica.

Fotografia
Saúde Mental

Porque sentimos ciúmes sem razão?

É frequente sentimos ciúmes não por aquilo que a outra pessoa faz, mas por tudo o que já nos fizeram antes. A razão? Más experiências passadas dão origem a um radar emocional mais sensível.

Fotografia
Saúde Mental

O que é a hipnoterapia?

A hipnoterapia ajuda a melhorar a saúde mental em alguns diagnósticos. Se o objetivo for desbloquear emoções, a hipnose pode ser uma via aberta para memórias e dores escondidas.

Fotografia
Saúde Mental

Sons e tiques involuntários. O que é ter Tourette?

Fotografia
Saúde Mental

Porque fazermos listas mentais na hora de ir para a cama?

Ao deitar, o corpo abranda. Mas o cérebro pode acelerar e impedir o sono com ruminaçõe, problemas por resolver e... muita ansiedade.

Fotografia
Saúde Mental

Porque são as primeiras impressões importantes?

Formamos uma primeira ideia de alguém em poucos segundos e isso pode ditar o rumo de uma relação. Esta rapidez tem utilidade, mas pode levar a julgamentos imprecisos e difíceis de desfazer.

Opinião

Fotografia do Colunista
Pedro Neto Monteiro

A Crise da Saúde Mental no Ensino Superior

Não podemos permitir que a saúde mental dos estudantes seja ignorada ou relegada a segundo plano. Está em causa o futuro de uma geração e de um país.

Fotografia do Colunista
Filipa Pinheiro Marques

Esquizofrenia: uma sentença de isolamento

Num novo ciclo político, deixo um desafio para os decisores: olhem para a saúde e a doença mental como uma prioridade, e não apenas como uma bandeira eleitoral.

Fotografia do Colunista
Helene Westerlind

A saúde mental dos jovens: um investimento urgente

Na União Europeia (UE), mais de 1 em cada 6 jovens enfrenta desafios relacionados com a saúde mental.

por falar em saúde mental

O segredo sueco para o bem-estar? Pequenos jardins urganos
New York Times
Saúde mental e seguros de saúde: pressão simultânea?
Wall Street Journal
Nas escolas que proibiram os telemóveis, os alunos voltaram a ouvir os pássaros
BBC (em espanhol)
Ecrãs, suicídio e problemas de saúde mental: qual a relação?
El País
O que eu vi como enfermeira especialista em saúde mental
The Times
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