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Síndrome de Otelo. Já ouviu falar? |
E d’A Tragédia de Otelo, o Mouro de Veneza? É este o título da peça de teatro escrita por Shakespeare no início do século XVII e cuja história inspira o nome do síndrome emocional em cima. Há muita informação disponível na literatura e alguma informação disponível na internet, mas o resumo é simples: Otelo é um militar mouro de reconhecido mérito no campo de batalha que, por influência de terceiros, fica louco de ciúme infundado e acaba a estrangular a mulher, convencido que esta o traíra. Nem Desdêmona o enganou nem Otelo era, no início, um fulano com maus fígados. Mas ela acaba morta e ele também (suicida-se depois, ao ver o que fez). Fim. |
Parecia apropriado dar o nome do fictício ciumento a um conjunto de reais sintomas característicos do ciúme patológico. A Síndrome de Otelo diferencia-se dos ciúmes “normais” pela grande dose de irracionalidade, violência e intensidade. Este artigo assinado por um conjunto de profissionais de saúde mental da Unidade Local de Saúde de Aveiro (antigo Centro Hospitalar do Baixo Vouga) explica como, dentro do ciúme patológico, encontramos o ciúme obsessivo e o ciúme delirante. “Em comum, têm uma má adesão ao tratamento e um mau prognóstico. Mas enquanto o ciúme obsessivo se baseia em ruminações de que o parceiro poderá estar a ser infiel, acompanhadas de comportamentos compulsivos de verificação, o ciúme delirante é um distúrbio psicótico caracterizado por crenças fortes e falsas de que o parceiro é infiel.” |
Está tudo aqui bem explicado, neste artigo assinado pela jornalista Sofia Teixeira e que faz parte de uma série de trabalhos em que tentamos decifrar o que ocorre no cérebro humano para justificar alguns comportamentos do dia a dia. Podem encontrá-los todos no Mental, a secção do Observador totalmente dedicada à saúde mental. |
Este, em particular, incide sobre o ciúme, e procura trazer alguma luz a uma dúvida que assalta tanta gente a toda a hora, sobretudo quando passam por relações abusivas: porque carga de água é que a outra pessoa tem tantos ciúmes quando não tem razão nenhuma para tal naquela relação? |
A resposta pode estar na outra. A outra relação. As outras relações. As anteriores, em que terá sido traído e viu assim minada a confiança que tinha no/a companheiro/a, e contaminando tudo o que vem depois. “Se a pessoa já teve uma relação em que foi traída ou se viu isso acontecer com alguém próximo, pode ficar mais vigilante em relação a situações que, para outras, passariam completamente despercebidas”, disse a psicóloga Ana Isabel Lage à autora do artigo. |
Mas há outras razões — umas mais difíceis de entender do que outras, sobretudo para quem nunca passou por isto — e estão bem explicadas neste artigo. |
O tema é fascinante para quem gosta de refletir sobre emoções humanas e a forma como nos moldam. Este artigo da psicóloga norte-americana Mary C Lamia é antigo (2013) mas traça umas comparações interessantes entre ciúme e inveja. Neste outro, também da Psychology Today, Lucia O’Sullivan, professora de psicologia da universidade canadiana de New Brunswick, escreve sobre uma tóxica mistura de emoções. E neste, publicado no New York Times, a psicóloga Juli Fraga e a escritora Connie Chang dissertam sobre ciúmes e amizade. |
Seja qual for a forma como olhamos para o tema, é importante não o desvalorizar. Os números da violência doméstica em Portugal são assustadores e o fenómeno continua a vitimar todos os anos dezenas de pessoas, sobretudo mulheres. Em 2024 foram registadas 22 mortes por este motivo, com o número de queixas na PSP e GNR a chegar às trinta mil. |
Será impossível saber quantas das quase 700 vítimas da violência doméstica em Portugal nos últimos 25 anos foram mortas por ciúme. Mas a livre associação não é exagerada. “O ciúme patológico, além do impacto para o paciente, pode ter consequências graves para o parceiro e para o rival imaginado, nomeadamente com o risco aumentado de violência doméstica”, pode ler-se no nosso artigo. “Em alguns casos, podem justificar-se medidas como internamentos involuntários para garantir a toma de medicação, além da psicoterapia.” |
Além deste trabalho, estes são os mais recentes que publicámos no último mês no Mental: |