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FOTOILUSTRAÇÃO RODRIGO MENDES/OBSERVADOR

FOTOILUSTRAÇÃO RODRIGO MENDES/OBSERVADOR

Porque é que as primeiras impressões são tão importantes?

Formamos uma primeira ideia de alguém em poucos segundos e isso pode ditar o rumo de uma relação. Esta rapidez tem utilidade, mas pode levar a julgamentos imprecisos e difíceis de desfazer.

Houve um tempo em que, para os humanos, saber rapidamente quem era o outro e ao que vinha era uma questão de vida ou morte. Um homem desconhecido a correr na nossa direção com um pau na mão, uma ameaça contra a qual lutar; alguém que se aproximava devagar e com ar curioso, talvez um possível aliado.

Formar primeiras impressões muito rapidamente permitiu-nos, sobreviver e prosperar, noutro tempo, mas desengane-se quem julga que hoje já não importam. “Talvez atualmente o que se entende por sobreviver e prosperar é que seja diferente. Na maioria das situações, os outros não nos vão atacar ou roubar comida. No entanto, os outros continuam a ser a base da nossa vida e do nosso bem-estar.” As palavras são de Margarida Garrido, doutorada em Psicologia Social e investigadora no CIS/ISCTE-IUL onde desenvolve estudos na área da cognição e julgamento social. “As primeiras impressões mantêm o seu valor adaptativo nos dias de hoje. É com base nelas que fazemos as nossas avaliações de confiabilidade e competência, essenciais e muitas vezes determinantes, da relação futura, seja pessoal ou profissional.”

Para formar primeiras impressões, o nosso cérebro recorre a atalhos mentais, também chamados heurísticas, que são uma uma estratégia de economia cognitiva, ou seja, permite-nos poupar tempo e energia. Em vez de analisarmos cuidadosamente todas as características de uma pessoa, fazemos uma avaliação rápida com base em pistas simples e familiares — como a forma de apertar a mão, a aparência, a linguagem corporal, o tom de voz ou a forma de vestir. E, com base nessas pistas, encaixamos a pessoa em categorias conhecidas: “competente”, “simpática” ou “confiável”, entre outras. Alguns estudos mostram que formamos impressões sobre alguém em menos de um segundo, apenas com base na aparência ou expressão facial.

Toda a gente quer criar uma boa primeira impressão e por ótimas razões: são muito persistentes. Quando o cérebro “arquiva” esta primeira ideia sobre uma pessoa ela tende a persistir no tempo, mesmo que surjam dados contraditórios depois, um fenómeno que tem o nome de efeito de primazia. "São precisas cerca de oito interações consistentemente positivas para mudar uma primeira impressão negativa”, diz a investigadora Margarida Garrido.

Esta estratégia é muito útil porque permite rapidez na tomada de decisões ao mesmo tempo que evita a sobrecarga de informação, mas pode levar a erros, preconceitos ou julgamentos apressados. “Embora vários estudos indiquem que somos capazes de formar impressões em segundos, até menos, e que durante esse curtíssimo período tomamos uma série de decisões sobre a pessoa, isto não significa necessariamente que essas impressões são acertadas, estimando-se que a sua correção esteja próxima do acaso — ou seja, de 50%”, explica Margarida Garrido. “Na maioria das vezes, formamos as primeiras impressões com base em informação limitada e potencialmente enganadora.”

A investigadora refere que há alguns erros especialmente frequentes “que obviamente têm consequências e podem levar a impressões erradas e injustas, mas são muitas vezes um preço a pagar pela flexibilidade e conveniência cognitiva”. É o caso…

  • … do efeito de halo, quando generalizamos uma impressão positiva ou negativa para outros aspetos (por exemplo, se alguém parece muito confiante, assumirmos que também é competente e confiável)…
  • … ou o erro fundamental da atribuição, quando atribuímos um comportamento à personalidade da pessoa minimizando a influência do contexto (por exemplo, considerar alguém irresponsável porque chega atrasado, sem lembrar que pode ter tido um imprevisto)…
  • … ou também interpretar um comportamento com base em estereótipos, um conjunto de características que associamos ao grupo social no qual caracterizamos a pessoa, entre outros.

Aquilo que tem maior peso na construção das primeiras impressões depende do contexto, da relação com o outro e daquilo que o observador valoriza, até porque podemos formar primeiras impressões não só através da interação direta mas também através da observação do seu comportamento na televisão ou redes sociais e mesmo com base naquilo que alguém nos diz sobre uma pessoa que nunca vimos.

Numa interação direta, Margarida Garrido refere que as pistas de confiabilidade são importantes, “como o sorriso, o contacto visual e outros aspetos como a pontualidade, se a pessoa mostra interesse no que dizemos e nos dá atenção”. Mas diferentes contextos e tipos de interação podem fazer-nos reparar ou valorizar questões diferentes, mais adaptadas ao que é importante para nós naquela situação. “Uma pessoa que valoriza o aspeto físico num potencial parceiro romântico pode ficar com uma primeira impressão positiva quando conhece alguém bem vestido e que acha atraente, mesmo que chegue atrasado.” Por outro lado, “é pouco provável que alguém forme uma primeira impressão de uma oftalmologista com base no seu aspeto físico, mas antes, provavelmente, com base em comportamentos que indicam a sua competência”.

Toda a gente quer criar uma boa primeira impressão e por ótimas razões: são muito persistentes. Quando o cérebro “arquiva” esta primeira ideia sobre uma pessoa ela tende a persistir no tempo, mesmo que surjam dados ou informações contraditórias depois — uma tendência que tem o nome de efeito de primazia. “É bastante difícil mudar a nossa opinião”, diz Margarida Garrido. “Alguns estudos sugerem que são precisas cerca de oito interações subsequentes, consistentemente positivas, para mudar uma primeira impressão negativa.”

Mental é uma secção do Observador dedicada exclusivamente a temas relacionados com a Saúde Mental. Resulta de uma parceria com o Hospital da Luz e com a Johnson & Johnson Innovative Medicine e tem a colaboração do Colégio de Psiquiatria da Ordem dos Médicos e da Ordem dos Psicólogos Portugueses. É um conteúdo editorial completamente independente.

Uma parceria com:

Hospital da Luz Johnson & Johnson Innovative Medicine

Com a colaboração de:

Ordem dos Médicos Ordem dos Psicólogos

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