“Vou só responder a este e-mail, é rápido.”
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“Tenho aqui uma chamada não atendida de um número que não conheço. Pode ser trabalho, vou devolver” |
“Preciso de fazer uma pausa de meia hora nas férias para uma call com um cliente” |
“O meu chefe chegou agora de férias e pediu-me ajuda com uma coisa. Vou ligar-lhe num instante” |
Conhece estas frases? Ou outras parecidas? Já as disse? Ou já as ouviu sair da boca da sua mulher ou do seu marido? Ou do seu pai? Já teve jogos de cartas adiados, passeios de bicicleta que passaram para o dia seguinte ou almoçaradas de longas horas transformadas em snacks rápidos porque aquela pessoa pura e simplesmente não consegue desligar? |
Este é, para muito boa gente, um clássico estival: tirar “só um bocadinho” ao tempo de descanso para adiantar trabalho e facilitar o regresso. Ou facilitar a vida a quem está no escritório? Ou facilitar a sua própria saúde mental, porque assim não ficará ansioso a pensar no que deixou de responder e conseguirá usufruir melhor dos dias que ainda tem pela frente. |
Há razões para todos os gostos, funções, trabalhadores e cabeças. Cada caso é um caso e há motivos válidos que encaixam em todas as justificações e motivos que legitimam estes e outros momentos de pausa nos tempos de pausa. Assim como quem tira férias das férias para trabalhar um pouco. Cada um sabe de si e do tempo que dedica ao descanso necessário, mas o que faz isto à nossa saúde mental? Que efeitos tem este on-off-on-off contínuo, enquanto ligamos e desligamos o modo “trabalho” quando estamos de férias? E o que faz aos outros? Às pessoas que passam férias connosco? Que repercussões tem isto na saúde mental das famílias? |
“Devemos usar as férias para diminuir os níveis de stress do dia a dia”, diz o psiquiatra Henrique Prata Ribeiro, com quem conversei sobre isto – e a quem enviei uma mensagem antes, perguntando se estava de férias. “Se estivermos sempre a reconectar-nos com o trabalho, mantemos os níveis de stress — e isso, já se sabe, terá efeitos a médio ou longo prazo.” |
Dito de outra forma, a coisa até pode não ter efeito imediato naqueles dias de descanso na praia ou na aldeia, mas mais cedo ou mais tarde poderá repercutir-se no nosso bem-estar. “Está mais do que provado que se não houver um limite entre as duas dimensões da nossa vida — a pessoal e a profissional —, elas acabam a misturar-se e a afetar as dinâmicas familiares”, diz o psiquiatra. E isso é mais relevante nas férias? “É relevante sempre. Não apenas nas férias.” |
Esta é a minha última semana de trabalho antes de ir de férias e, como habitualmente, estou uma pilha de nervos. Ir de férias dá trabalho e tenho uma longa lista de tarefas para executar antes de ligar o “out of office” do meu e-mail. Sinto-me cansado e a necessitar de parar, mas por estes dias não tenho dedicado à cama a atenção que ela merece e o meu corpo precisa. A razão é simples: cortisol. A hormona produzida pelas minhas glândulas supra-renais liga-se a recetores que tenho espalhados pelos órgãos e tecidos. Resultado: todo o corpo é influenciado pela hormona do stress, que regula a minha resposta aos estímulos exteriores e me faz manter o estado de alerta e prontidão perante tarefas a executar e que me podem provocar ansiedade. |
O cortisol não é uma coisa tão forte como a adrenalina, que nos faz dar um pulo e desatar a correr em caso de perigo ou ameaça, mas cada hormona cumpre o seu papel e esta, em particular, deixa muitas pessoas num nível de ativação que pode não ser saudável: não dormimos bem, não comemos bem, não respondemos bem aos nossos, não tratamos de nós em condições. |
As férias servem também para isso: para baixar os níveis de cortisol e levar-nos a descansar e reduzir o stress, esse responsável por tantas coisas más que podem ocorrer no nosso corpo. O tempo de descanso prolongado — o tal que não se consegue ao fim-de-semana ou numa noite melhor dormida — contribui para isso. E ajuda a quebrar ritmos e rotinas do dia a dia que, se não forem interrompidos, levam a perdas de memória, dificuldade em manter o foco ou redução da capacidade cognitiva. |
Aproveitar as férias é também planear as férias e planear o tempo de “não-trabalho” em que estaremos a usufruir delas. Por isso é essencial conseguir delegar e arrumar assuntos para que eles não venham bater à sua porta (ou ao seu telemóvel) enquanto está na praia, no piquenique ou a dar um passeio de bicicleta. Se não conseguir mesmo desligar pelo maior período de tempo possível, isso terá efeitos nefastos na sua saúde, mais cedo ou mais tarde. E, neste momento, é bem possível que já tenha esses efeitos na saúde mental das pessoas que estão aí consigo. Por si — e por elas — desligue. |
PS: se estiver de férias, guarde isto para ler mais tarde. Se não estiver, fique a par dos últimos trabalhos que publicámos no Mental, a secção do Observador totalmente dedicada à saúde mental: |