“Se ele tem ciúmes, é porque gosta de ti”. “O amor verdadeiro supera tudo — até os gritos e insultos”. Estas frases, comuns em filmes, músicas e conversas do dia a dia, parecem inofensivas. Mas por detrás das mesmas escondem-se ideias perigosas, mitos românticos que, segundo um novo estudo, são frequentes em Portugal e contribuem para a normalização da violência no namoro entre os jovens portugueses.

Os dados são inquietantes e devem fazer-nos pensar. Mais preocupante, ainda, é o facto de este tipo de violência ter muitas vezes início precocemente, como o evidenciam estudos nacionais e internacionais em diferentes contextos. No trabalho clínico com adolescentes e jovens adultos, assim como na investigação com estas populações, percebe-se a crescente legitimação de comportamentos violentos pelo par amoroso, seja ao nível psicológico, físico e/ou sexual.

A forma como todos pensamos sobre o amor, moldada no processo de desenvolvimento pessoal é, neste âmbito, uma variável de relevo. Influenciadas por fatores contextuais e socioculturais, as narrativas individuais sobre “o que é o amor romântico” incluem muitas vezes o que tem sido designado de “mitos”, potenciando um sistema de crenças, valores e normas sociais que se associam à violência. São exemplo os designados mitos do ciúme (ex. o ciúme é sinal de verdadeiro amor) e da ambivalência (ex. amor e violência podem coexistir numa relação).

Num estudo recente (2025) abrangendo jovens adultos de Portugal, Espanha e Itália, não podemos ficar indiferentes aos dados no nosso país: os homens evidenciaram uma aceitação significativamente maior de crenças na necessidade do casal (ex. não é possível ser feliz sem um parceiro amoroso) e na ambivalência, enquanto nas mulheres se destaca significativamente a crença no mito da metade da laranja (ex. existe alguém predestinado para todos). A potencial ligação destes “mitos” com a legitimação da violência e os estereótipos, preocupa-nos e torna necessária mais investigação e a urgente intervenção a este nível.

De acordo com o Inquérito à Violência de Género da UE (FRA et al. 2024), a prevalência de violência sofrida por mulheres com idades compreendidas entre os 18 e os 74 anos na UE é de 32%. A proporção é notavelmente mais elevada nas populações jovens (18-29 anos) e jovens adultas (30-44 anos), situando-se nos 35% de ambos os grupos. Em Portugal, a prevalência da violência física e/ou sexual com base no género é de 10,3% mas, quando incluímos a violência psicológica, o valor sobe para 22,5% (FRA et al. 2024).

Olhando para a legitimação da violência durante o namoro, um estudo nacional recente (União de Mulheres Alternativa e Resposta 2024) veio evidenciar que os jovens do sexo masculino legitimam certos tipos de violência mais do que as mulheres, incluindo controlo (64,1% vs. 46,8%), violência psicológica (44,0% vs. 24,9%), perseguição (39,9% vs. 24,0%), violência sexual (41,1% vs. 20,8%), violência nas redes sociais (25,5% vs. 13,6%) e violência física (13,9% vs. 6,3%).

É urgente ensinar os jovens que amar não é anular-se, ser desrespeitado ou perdoar o imperdoável. É construir uma relação baseada na igualdade e no respeito mútuo. Romantizar o sofrimento não torna o amor mais próximo e afasta-nos da construção cuidada e consciente que os relacionamentos podem e devem ser. Para termos relações mais saudáveis em Portugal, é urgente começar por desromantizar o tóxico.