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Vergonha alheia. Quando o embaraço dos outros também é o nosso

Sentir embaraço com as gaffes ou momentos menos felizes dos outros pode parecer irracional, mas tem bases sólidas: é um reflexo da empatia e do medo partilhado de falhar em público.

Uma amiga com um copo a mais agarra no microfone do karaoke e canta completamente desafinada, convencida de que está a brilhar. Um colega de trabalho diz uma piada idiota e fica a ri-se sozinho, rodeado de um silêncio constrangedor dos outros. E nós? Bom, nós encolhemo-nos na cadeira tomados por esse sentimento universal que é a vergonha alheia. Porque é que tantas vezes, a vergonha dos outros também é a nossa vergonha?

A vergonha é uma emoção que requer uma audiência. Ao contrário de outras emoções, como a tristeza ou a alegria, que sentimos frequentemente quando estamos sozinhos,  a vergonha é uma emoção social que surge quando sentimos que transgredimos normas ou nos apresentamos de uma maneira pouco favorável. Sinaliza que alguma coisa na nossa maneira de agir pode ser percebida como inadequada pelos outros. Já a vergonha alheia acontece quando sentimos esse embaraço, não pelos nossos atos, mas pelos dos outros.

Sentimos vergonha alheia, em parte, por causa da empatia, a nossa capacidade para nos colocarmos no lugar do outro, de compreender e sentir o que o que está a experienciar. E acredita-se que a base neurobiológica dos processos empáticos são os neurónios-espelho, que permitem que haja padrões de ativação cerebral muito idênticos quando sentimos emoções e quando observamos essas mesmas emoções nos outros.

Sören Krach, investigador do departamento de psiquiatria da Universidade de Lübeck, na Alemanha, coordenador do grupo de investigação de neurociências sociais do Social Neuroscience Lab, na mesma universidade, tem estudado extensamente a vergonha alheia nos últimos 15 anos. Interessou-se pelo tema quando, numa conferência, assistiu a uma palestra onde o orador passou o tempo todo a citar-se  a si mesmo e à sua investigação e ele começou a ter uma sensação de constrangimento. “Mas o próprio palestrante não apresentou nenhum sinal de vergonha, estava muito contente com o seu desempenho”, conta. Esse foi o ponto de partida para a sua investigação sobre a vergonha alheia, que o levou distingui-la em dois tipos: “a vergonha com o outro que acontece, por exemplo, quando alguém tropeça no palco [e fica envergonhado] e a vergonha pelo outro, por exemplo, este palestrante que se citava excessivamente, mas sem qualquer sinal de constrangimento”.

No primeiro caso, sentimos vergonha porque notamos os sinais de constrangimento da outra pessoa e acompanhamos o seu estado emocional, no segundo caso, partimos de uma perspetiva mais auto-centrada: “sentimo-nos que se fossemos nós a estar aquele papel teríamos vergonha, ou seja, a vergonha que sentimos parte da nossa própria avaliação da situação”, explica o investigador.

A vergonha alheia também funciona como um mecanismo de alerta e de aprendizagem. As normas sociais e de comportamento público são aprendidas por observação: sempre que vemos alguém a ficar envergonhado ou sempre que nos sentimos envergonhados com o comportamento alheio, isso encoraja-nos a evitar comportamentos semelhantes.

Alguns estudos do autor mostram que, em ambos os casos, a proximidade social com outra pessoa condiciona muito a nossa experiência de embaraço em segunda-mão: quanto mais próxima nos é a pessoa, mais vergonha sentimos. Isso pode ser explicado por temos maior envolvimento afetivo com ela, logo mais capacidade de empatia. Mas acontece também por motivos mais egoístas: podemos sentir que, por associação, a nossa imagem social também é afetada quando alguém que nos é próximo comete uma gafe ou tem um comportamento que pouco adequado em público.

A vergonha alheia também funciona como um mecanismo de alerta e de aprendizagem. As normas sociais e de comportamento público são aprendidas por observação. O que significa que sempre que vemos alguém a ficar envergonhado ou sempre que nos sentimos envergonhados com o comportamento alheio, isso encoraja-nos a evitar comportamentos semelhantes.

As pessoas mais perfeccionistas ou para as quais a imagem social é muito importante, tendem a sentir mais vergonha – tanto própria, como alheia, na medida em que têm mais dificuldade em lidar com o erro ou a falha em público. Da mesma forma, quem tem ansiedade social, que se caracteriza pelo medo exagerado de situações de convívio social, nas quais a pessoa se possa sentir sob avaliação ou julgamento, também é mais propenso a sentir estas dois tipos de vergonha.

Por oposição à vergonha alheia motivada pela empatia, podemos também sentir prazer em ver os outros fazer figuras embaraçosas ou humilhantes em público, um sentimento que não tem um nome em português, mas tem em alemão: Schadenfreude, que literalmente, significa alegria com a desgraça alheia. É um conceito muito estudado na psicologia, havendo autores que defendem são estes dois opostos, a empatia e o prazer na desgraça alheia, que motivam as pessoas a ver programas de reality TV, como o Big Brother.

Mental é uma secção do Observador dedicada exclusivamente a temas relacionados com a Saúde Mental. Resulta de uma parceria com o Hospital da Luz e com a Johnson & Johnson Innovative Medicine e tem a colaboração do Colégio de Psiquiatria da Ordem dos Médicos e da Ordem dos Psicólogos Portugueses. É um conteúdo editorial completamente independente.

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