O Partido Conservador britânico liderado por Boris Johnson ganhou as eleições de 12 de Dezembro. Obteve uma maioria esmagadora no Parlamento, com uma afluência às urnas de 66%. Mais 80 deputados do que a oposição toda junta. O Reino Unido vai sair da União Europeia no próximo dia 31 de Janeiro. Vai iniciar a negociação de acordos comerciais bilaterais com os Estados Unidos e a União Europeia.

Os Tories têm um programa original e ambicioso sobre investimento público, no Serviço Nacional de Saúde, Educação e não só, assim como medidas claras sobre segurança pública, imigração, impostos e inovação tecnológica. O plano de Corbyn, que queria nacionalizar quase tudo o que mexe no Reino Unido, foi destruído. Tanto os Trabalhistas e os Liberais Democratas, como o próprio Brexit Party de Farage, entraram em profunda agonia e depressão. O indiscutível círculo eleitoral de Tony Blair foi ganho por um Conservador. Dentro de casa, John Major, Michael Heseltine, Philip Hammond, Amber Rudd e o triste Oliver Letwin extinguiram-se.

Em Portugal, o Presidente da República e o primeiro-ministro declararam apenas – e concertadamente – que o resultado das eleições no Reino Unido vai permitir uma saída ordenada da União Europeia, sublinhando assim o que consideram, no seu íntimo, ser o mal menor. Os partidos em Portugal próximos dos Conservadores britânicos, o CDS e o PSD, não produziram sequer uma palavra de felicitações ao reeleito primeiro-ministro Boris Johnson, revelando uma incapacidade cada vez mais notória para aprender com os erros do passado recente. Neste caso, o erro de não falar sobre assuntos que possam ser considerados “complicados”.

Na União Europeia, apesar de esta eleição acalmar um pouco a Comissão, permitindo fechar a porta ao tema do acordo de Outubro, continuamos sempre em frente, sem resolver nada do que está para trás. Agora surge o tema do European Green Deal, em inglês, claro. Sobre a união monetária, supervisão bancária, regras orçamentais, fiscalidade, imigração, política externa, defesa comum, perturbação legisladora obsessivo-compulsiva, tudo permanece debaixo do tapete.

No resto do mundo já ninguém fala de um segundo referendo sobre o Brexit, ou de um terceiro. A comunicação social e os círculos de pensamento fechados do costume, em vez de analisarem a vitória incontestável dos Tories, o enterro do Labour marxista e o princípio do fim da novela Brexit, saltaram vários degraus para o anúncio do apocalipse: com a saída da União Europeia vem aí a saída da Escócia do Reino Unido, com a Irlanda do Norte em ebulição também.

No caso da comunicação social, gostava de me enganar, mas acho que é de esperar o mesmo do que tem sido até aqui. Foco na perseguição pessoal a Boris Johnson, que já apanhou com tudo e mais alguma coisa, desde gravações ilícitas no interior da sua casa, a acusações ridículas de jornalistas, datadas de há mais de 20 anos, no pior estilo do #MeToo, a fotografias consideradas pelos pseudo-puritanos como menos convencionais. Sem perceber que isso só fortalece o visado, neste caso, o perseguido. Sem perceber, ao fim de tantos anos, que estas tecnologias que nos permitem saber ao segundo tudo o que se está a passar, com qualquer pessoa, em qualquer lado do mundo, não podem ser usadas para deturpar, retirar do contexto e destruir aqueles de que não gostamos.

No fundo, para mentir, para instituir o primado do que se diz sobre o que se faz. Usar até à exaustão o que alguém diz, em público ou em privado, sem qualquer relevância, uma gafe para comprometer para a vida. Destruindo por destruir, para exibir um ridículo troféu de caça.

Na política, como em tudo o que depende das decisões que se tomam e se conseguem implementar, é o inverso. O que se faz é que importa e, se bem que a forma seja crucial, o que as pessoas pretendem saber é o que verdadeiramente se faz e se anda a fazer. Mesmo que esteja escondido atrás do fumo do que se diz.

O que vai acontecer, o que o Governo de Boris Johnson e a Comissão de Ursula von der Leyen vão começar a fazer nestes próximos dias, é de capital importância para toda a Europa. Depois do Brexit done, a União Europeia vai ter que voltar à sua agenda, sem o tema britânico a desviar as atenções. Vai ser obrigada a pensar se quer prosseguir no mesmo sentido, de costas voltadas para os cidadãos, com o seu corpo de funcionários a trabalhar em modo automático, ou se vai abrir o jogo e pensar no futuro.

Um Tratado que esteve para ser uma Constituição Europeia, em que não se pode tocar porque os consensos entre 27 são impossíveis, é o marco de uma certeza de fracasso. Não há nada que dure eternamente, muito menos uma lei. O peso relativo de cada estado membro, que é insignificante no confronto com França e Alemanha, cresce na exacta medida em que se unem visões comuns, não comprometidas com os objectivos da Europa depois de Maastricht. É preciso ter a coragem de rever os últimos 30 anos, desde Maastricht. Manter o conceito de cidadão europeu? A moeda única? Schengen? A política agrícola comum? Regressar às origens da livre circulação de trabalhadores, bens e capitais?

Um fresh start. Nem que para isso se tenha que adoptar uma terapia de 12 passos. Com pensamento e imaginação, inventando um anti-Delors. O Reino Unido de fora pode ajudar-nos neste resgate, como já ajudou noutros tempos. De outro modo, continuaremos a fingir que está tudo bem e, quando não está, reúne-se um Conselho Europeu. Sem fim à vista.

Para ouvir durante o primeiro passo: “Common People”, Pulp.