Há cerca de um ano, num noutro artigo de opinião, escrevi que o comportamento do Governo evidenciava que a AD queria eleições legislativas o mais rápido possível. “Veremos como tudo fará para que o orçamento para 2025 seja chumbado”, disse na altura.
Errei relativamente ao prazo, mas acertei na intenção da AD. O Orçamento 2025 passou na Assembleia da República, mas o Governo não tardou em provocar eleições o mais rápido possível. Fê-lo na primeira oportunidade que teve, apresentando a Moção de Confiança, cujo chumbo fora previamente anunciado.
Em quinze meses, o Governo teve o dissabor de perder, por razões éticas, um secretário de Estado, que tinha criado uma empresa para atuar na área do urbanismo que o próprio tutelava. Nunca foi acusado de qualquer ato concreto. Já o primeiro-ministro, sobre o qual se colocaram dúvidas sérias relativamente à construção de uma vivenda em Espinho, era dono de uma empresa: a famosa Spinumviva, da qual se conhecem diversos atos concretos de conflito de interesses entre o privado e o público e objetivamente violadores dos mais elementares princípios éticos.
Ora, se o secretário de Estado se demitiu, o primeiro-ministro devia fazer o mesmo. O primeiro tinha razões bem menores para fazê-lo, comparativamente àquelas que são conhecidas sobre Luís Montenegro. Mas a verdade é que o primeiro-ministro deu um pontapé na ética e avançou com o apoio, quase unânime, do seu partido para as eleições. Umas eleições que, em caso de vitória, poderão servir de indulto face a práticas violadores da ética e de duvidosa legalidade.
Bem sabemos: não é essa a função das eleições. Mas a verdade é assim que serão interpretadas. Nunca, desde 1976, se colocou problema semelhante. Em caso de vitória da direita, a política, e de algum modo a democracia, degradará
a sua imagem, porque se assumirá que o crime compensa e que os fins justificam os meios. De resto, algo muito bem explicado por Maquiavel, embora este falasse de regimes totalitários dominados pelo seu príncipe.
A democracia portuguesa nunca viveu nada igual, ou sequer parecido. Faltam alguns dias para as eleições e quero acreditar que a AD as perderá. Continuo a acreditar que não vale tudo. Que o “crime” não compensa e que os fins, por mais relevantes que sejam, nunca justificam os meios violadores da Lei, dos princípios éticos e dos valores da democracia.
Acredito, mas preocupo-me. Temos todos presente, infelizmente, a recente eleição de Donald Trump.