Que ideia tem a extrema-direita da Europa Cristã? Qual o significado das  palavras de André Ventura, pronunciadas em Madrid, num comício realizado há dias, com várias personalidades das mais extremistas da Europa, quando referiu a “reconquista da Europa Cristã”?

A sociedade em geral olha, paradoxalmente, para afirmações deste  género com curiosidade e algum desprezo. Penso que devem ser levadas a sério e que devemos tentar compreender o que verdadeiramente pretendem. A Europa teve a sua guerra da reconquista dolorosa e suficientemente  catastrófica para ser repetida. Mas a extrema-direita fala de reconquista como se a Europa estivesse ocupada, ou quase tomada, e não fosse uma união livre  de nações. Reconquistar o quê e a quem?

Os chavões impedem concretizar uma comunicação política dominada por  palavras de ordem, por slogans que repetidos, na lógica do propagandista hitleriano Joseph Goebbels, para quem uma mentira hoje, mil vezes repetida, passa a ser verdade. Será que se referem à Europa do Papa Francisco, de proclamação de princípios de amor ao próximo, da fraternidade, da caridade,  da paz, do perdão e da igualdade na diversidade? Não creio.

Porque esta Europa Cristã de diversidade social, política e cultural já existe. Esta Europa Cristã da liberdade e do pluralismo existe e afirma-se. Tem, claro, fragilidades que fazem parte da vida humana. Tem problemas complexos à espera de solução. Tem a democracia que, enquanto sistema político, tem as suas incompletudes e os seus desafios próprios. Mas que é, nas palavras de  Churchill, “o pior dos regimes, com exceção de todos os outros”.

Ou será antes a Europa da exploração dos escravos, das ditaduras teocráticas,  das monarquias absolutas, da barbárie da inquisição, das rígidas divisões de  classes, do individualismo, do salve-se quem puder, das campanhas de ódio  contra os migrantes e da guerra? Com certeza que sim.

Entre a paz e guerra, a extrema-direita prefere a guerra. Entre o amor e o  ódio, usa o ódio. Entre o amor ao próximo, que não é mais do que a  solidariedade, mostram desprezo pelo próximo. Entre a verdade e a  mentira, preferem a mentira. Entre a realidade e a perceção, preferem as  perceções que procuram ampliar o caos aparente, através de atos de  propaganda sistematicamente repetidos. Entre a seriedade e a corrupção,  preferem a corrupção, como narrativa, convencidos de que lhes dá votos. Entre  o pluralismo político e a unicidade totalitária, preferem a unicidade.

A extrema-direita de André Ventura e dos seus parceiros europeus quer a  Europa da subjugação ao trumpismo e às bombas do Netanyahu. Utiliza tudo o  que possa transformar-se em votos. Usa e abusa do nome de Deus. Usa e  abusa da Igreja Católica. Usa outras Igrejas anticatólicas que a abençoa. Enfim, recorre a qualquer credo, sem crédito e sem rigor. Utiliza o  medo como arma de submissão.

É urgente a reconquista, sim. Mas a reconquista da confiança dos que a perderam. Pelos moderados, pelos democratas e pelos que defendem a liberdade, a justiça social e a dignidade humana. Pela Europa.