Esclarecimento pós publicação: Após a publicação deste artigo apercebi-me que não fui bem sucedido na minha intenção. O meu propósito era, através do recurso à ironia, contestar o argumento de que votar em Ventura não é coerente com a Fé católica – ideia que tenho ouvido repetidamente e com a qual discordo profundamente. Pretendia demonstrar que os fundamentos invocados para sustentar este raciocínio são superficiais e que, pelo contrário, existem razões estruturais que deviam levar os católicos a não votar no socialismo. Infelizmente não consegui fazê-lo com a clareza necessária, tendo recorrido de forma imprudente à ironia. 

Começo com uma nota prévia de que nada tenho contra a pessoa do André Ventura, que merece todo o respeito e caridade que um católico deve nutrir por qualquer filho de Deus.

Dito isto, escrevo para partilhar algo que me tem perturbado: uma imensa quantidade de pessoas do meu meio (o que na generalidade dos casos significa dizer-se católicas ou pelo menos formadas na matriz judaico-cristã) a defender o voto no André Ventura nas atuais presidenciais.

Não quero de todo transparecer notas de arrogância, mas creio que, a quem muito Deus deu, muito será pedido. Neste sentido, o mínimo a que me sinto obrigado é a partilhar as seguintes incoerências que me parecem de todo evidentes:

1. Mentiras e manipulação . Toda a gente sabe que o que André Ventura diz não é verdade e um cristão tem que ser verdadeiro. As análises de todas as recentes eleições provam que o maior sucesso do Chega é na população com menores níveis de escolaridade. Por outras palavras, só mesmo gente menos capaz (em termos de formação mas provavelmente também em termos financeiros e, cá para mim, de inteligência) é que vai nesta conversa. Sou um democrata inabalável mas, precisamente em defesa da democracia, por vezes questiono (apenas na intimidade dos meus pensamentos e, por vezes, após um brandy com os meus cunhados) se não deviam existir algumas restrições ao voto.

2. O homem não fala, todo ele é grito. Bem sei que Jesus também Se irritou mas eram outros tempos, hoje a falta de elegância devia ser elevada a pecado capital. Muito se fala em “sentido de Estado” mas sejamos honestos, o que estamos a falar é de falta de educação (e de berço). Somos conhecidos por ser um povo humilde e afável o que devem, por certo, ser virtudes católicas. O que seria ter o André Ventura a denigrir esta reputação, tal histérica do mercado municipal, com a bandeira às costas e lágrimas a escorrer pelo canto do olho. Longe vão os tempos da Brites de Almeida, cuja história lá em casa só contamos porque descendemos da dinastia de Avis. Já agora, permitam-me um parênteses fora da moralidade (ainda que admito que exista uma provável conexão)… para andar na elite é imprescindível ter bom gosto e as gravatas de Ventura não deixam dúvidas.

3. O discurso de ódio é horrível. Discriminar etnias ou populações estrangeiras é claramente uma linha vermelha imperdoável. Assumo que estas generalizações podem ajudar a aproximar o discurso político do povo (o tal pouco esclarecido), mas é um aproveitamento intolerável. Além disso, essa aversão ao que é diferente só porque os ciganos ainda obrigam as raparigas a casar aos 15 anos ou porque os direitos femininos não são respeitados na cultura islâmica é muito típica de uma atitude retrograda e pouco ecuménica que, graças a Deus, já está ultrapassada no catolicismo moderno. Já para não dizer que é sobejamente reconhecido que o Catecismo da Igreja Católica (ver ponto 2241) está desatualizado quanto a temas de imigração e, como diz o padre do colégio dos meus filhos, para um católico todos todas e todes têm que ser bem-vindos.

Bem sei que a alternativa que se nos apresenta nesta segunda volta não é perfeita, pessoas como o João Cotrim de Figueiredo teriam sido muito mais coerentes com a visão católica da sociedade, mas ainda assim garante um conjunto de pilares fundamentais:

1. Defesa do nosso sistema democrático. O candidato José Seguro é um garante que a nossa constituição será defendida e inalterada. Não obstante a Igreja Católica não defender tacitamente a democracia como único sistema legitimo, a doutrina social da mesma favorece fortemente características que tipicamente encontramos nos sistemas democráticos. É verdade que a Igreja condena diretamente os sistemas socialistas (objetivo último assumido na nossa constituição e partido do qual Antonio Seguro foi secretário geral) e é certo que nos últimos anos caminhamos para uma sociedade portuguesa cada vez mais influenciada pelo wokismo com perdas claras de liberdade de expressão e doutrinações ideológicas nas escolas que atentam quanto à liberdade de educação, valores clássicos de uma sociedade cristã, mas o que é isso comparado à ditadura fascista que o André Ventura irá implementar no nosso país?

2. Estabilidade governativa. Não sendo este um argumento expressamente moral, é certo que a racionalidade nos leva a apelar a alguma estabilidade política para que o País possa ser governável. Também seria justo dizer que a tradição da Igreja mais depressa se aproxima do conservadorismo de Burke do que do espírito revolucionário que certamente André Ventura tentaria impor. Mais uma vez não podemos dizer que a estabilidade e alternância de forças que nos tem governado nas últimas décadas seja completamente alinhada com os valores de uma sociedade cristã, com todos os ataques à família tradicional, às liberalizações do aborto e, em breve, do suicídio assistido. Mas o que é isso comparado com a constante instabilidade que o candidato do chega iria trazer à governação de Portugal?

3. Garantia de equilíbrio de poderes. A experiência das últimas décadas levou-nos prudentemente a solidificar um sistema político assente num saudável equilíbrio de poderes. O governo não incomoda muito o presidente, o presidente não incomoda ninguém e ambos elegem o poder judicial que retribui com solidariedade. Neste período, pode-se dizer que existiram vários casos que não ajudaram a construir a perceção de uma sociedade justa. Ainda assim, pode-se também assumir que existe cada vez maior igualmente, com os portugueses a retribuírem com superior criatividade na fuga aos impostos (veja-se os estudos existentes sobre evolução da economia paralela). Não sendo esta propriamente a visão da doutrina social da Igreja, todos os líderes políticos concordam que não há melhor modelo e o que são estes defeitos quando comparados com um presidente a intervir na Justiça e a exigir celeridade e transparência dos processos?

Estes princípios são fundamentos inatacáveis da nossa sociedade moderna, que apenas por acaso é cada vez menos católica, e que urge proteger. Mas se porventura (não por Ventura) tiverem algum inexplicável problema de consciência em votar na opção socialista então aconselho que lavem as mãos (tal como o outro) e votem em branco, pelo menos no Turf não serão julgados.

Termino com uma clarificação e um pedido.

Clarifico que estou consciente que a Igreja Católica não tem como prática aconselhar o voto (existem por exemplo várias visões politicas quanto à intervenção do Estado ou quanto ao nível de liberalismo económico que são conciliáveis com a Fé católica) mas é também uma obra de misericórdia que nos convida a corrigir o próximo no seu erro pelo que relembro que a Igreja nos orienta a avaliar criticamente ideologias e programas políticos à luz da dignidade da pessoa humana, da liberdade e da lei moral cristã.

Um pedido para que não se deixem influenciar por quem vai à missa, reza ou defende os valores católicos. A vocês católicos foi-vos concedido o dom da Fé, pelo que vos é pedido que distingam estes dos outros.