Diariamente somos confrontados com a teatralidade na política, que cada vez mais se assemelha a uma novela, tal a quantidade de estilos a que assistimos nos órgãos de soberania.
As técnicas vão desde a comédia, ao drama, suspense e até algum Western verbal que, numa análise mais profunda, mais não passa de que uma espécie de Wrestling, cujo código de conduta acaba apenas por ficar pelo espetáculo sem que se atinja o âmago do adversário, com provas irrefutáveis de algo que o incrimine verdadeiramente. Ou seja, a suspeita fica sempre no ar!
O período pós-revolução caracterizou-se pela defesa dos ideais partidários e pelas propostas vincadas nesses pressupostos, ainda que isso custasse uma não eleição. Viviam-se tempos de ética e onde a honra era o mais particular dos adjetivos.
Hoje, tudo parece estar subjacente na satisfação imediata dos problemas dos cidadãos, tentando a eleição, custe o que custar.
Quando analisamos a forma como os eleitos dos partidos da AD se defendem dos terríveis e maliciosos ataques dos adversários no debate político, a tendência é responder com factos, por forma a defender as propostas políticas.
Já à esquerda, a primeira necessidade surge em construir uma teoria que, não só constitua uma resposta de ataque cerrado como também constrói uma rábula onde se afirme a sua vitimização.
Esta visão generalista e poética do espetáculo político agudiza-se nos partidos de extrema, quer à direita, quer à esquerda.
Ser político, do ponto de vista de uma democracia plena, é acima de tudo um ato de altivez e cidadania, ainda que associado a uma ideologia ou tendência política, que se deve reger por princípios de ética e transparência. Esta visão romântica tem vindo a perder relevância e hoje podemos afirmar que vale tudo, menos “arrancar olhos”.
Se o 25 de abril ou o 25 de novembro são ainda o baluarte de muitos dos que sofreram as suas consequências e conquistas, para uma grande parte da população ativa e jovem nascida a partir do pós-revolução.
Ser político, parece sinónimo de ter cadastro como currículo e o afastamento da verdadeira massa crítica destes ambientes diz muito.
As tertúlias e debates de antigamente, realizam-se hoje numa nuvem onde poucos se conhecem pessoalmente e têm oportunidade para afirmar um diálogo honesto e correto. A ascensão política dá-se, ao invés da meritocracia, pela inversão total de valores com o apadrinhamento e os fóruns que são tudo, menos abertos às bases ou a alguém que queira participar. Vivemos numa espécie de bolha, onde só entram as elites políticas e os amigos, onde o debate interno é fechado e a informação é totalmente fechada.
O futuro da democracia, perante uma sociedade mais escolarizada, no entanto pouco letrada politicamente, devido à forma de funcionamento dos partidos políticos, coloca sérias questões no que concerne à sua continuidade como modelo que conhecemos.
O aparecimento de uma identificação dos cidadãos com o protecionismo levado ao extremo, constitui uma séria ameaça ao modelo democrático participativo atual.
Esta crise de esfera pública levar-nos-á a uma nova forma de democracia, ou necessitamos de uma revolução, não devido à opressão, mas devido à supressão de um futuro em que cada vez mais, poucos acreditam?
Seja qual for o destino que nos assombra, o mais importante será sempre a salvaguarda da qualidade de vida e bem-estar do cidadão, ainda que isso signifique a longo prazo a perda de identidade e do sentimento patriota desta nossa “Nação valente, imortal”.