Já houve um tempo em que se condenava publicamente a nomeação de amigos para cargos do Estado, o tempo em que o ex-primeiro-ministro António Guterres prometeu “no jobs for the boys” e foi criada a CRESAP para controlar a voracidade dos partidos pelos empregos. Já houve um tempo em que, para controlar ainda mais essas tentações de empregos à borla, se criou um portal das nomeações para gabinetes do Governo. Já houve um tempo em que a independência política dada ao Banco de Portugal foi concedida com a convicção, não só de quem queria entrar para o euro, mas também alimentada pela memória dos tempos em que a interferência política nos custou inflação. Já houve um tempo em que se deu independência a entidades reguladoras, acreditando que se conseguia assim desenhar as melhores políticas. Já houve um tempo em que se criou um Conselho de Finanças Públicas para fiscalizar e garantir a sustentabilidade das contas públicas. Já houve um tempo em que se incentivou e elogiou o trabalho desenvolvido pela investigação da Procuradoria-Geral da República, num processo de combate à corrupção e aos crimes de colarinho branco.

Hoje o Governo parece não acreditar em nenhum desses princípios de independência das entidades de supervisão e regulação, parece descrer do pilar fundamental de qualquer democracia de ter instituições fortes que funcionem como pesos e contra-pesos do poder. E a opinião pública encolhe os ombros, parece já nem ter energia para se indignar. O novo normal é permitir que o Governo controle tudo e todos, permitindo que chegue ao ponto de troçar e humilhar as instituições que se atrevem a não estar nas suas mãos. Até que se verguem.

Uma a uma, as instituições que desempenhavam o papel de contra-pesos foram sendo capturadas com estratégias várias que passaram pelo insulto, humilhação ou pura e simplesmente por serem ignoradas, como se não existissem.

A primeira vítima deste caminho de enfraquecimento das instituições foi o Banco de Portugal. Os ataques ao banco central só acabaram quando se conseguiu neutralizar o governador Carlos Costa. Mesmo antes de o euro lhe dar a independência, era do Banco de Portugal que vinham os alertas económicos e financeiros, era através dos estudos e trabalhos que chegavam da Rua do Comércio ou da Av. Almirante Reis em Lisboa que ficávamos a saber os riscos das medidas das políticas económicas adoptadas por diversos governos.

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