Tem-se falado muito de sarampo nos últimos meses, sobretudo por causa do surto americano, mas não é só o sarampo que está a aumentar. Os surtos de sarampo podem ser espectaculares, porque a doença é muito infecciosa e transmite-se por via respiratória. Mas a dificuldade em aumentar e atingir as taxas de cobertura vacinal óptimas existe igualmente para outras doenças, como a varicela ou o HPV (responsável pelo cancro do colo do útero). Porquê? Porque as pessoas não se vacinam ou não vacinam os filhos. Porquê? Porque não querem. Compreender isto e procurar compreender as razões das pessoas é essencial se quisermos argumentar em favor da vacinação e tentar reverter a tendência de crescimento dos movimentos anti-vax.

Antes de mais, não devemos esquecer que há de facto populações não vacinadas que não recusam a vacinação. São grupos que, muito simplesmente, não conseguem aceder às vacinas. Porque são migrantes, por exemplo, e têm a barreira da língua, ou estão em situação irregular, ou têm simplesmente dificuldade em aceder à informação relevante. Em 2015 e nos anos a seguir, surtos de sarampo irromperam na Europa, nomeadamente na Alemanha, associados às vagas de refugiados do Médio Oriente e do Mediterrâneo. Não só os refugiados provinham de países com baixas taxas de vacinação e baixa literacia vacínica, como existiam nos países de acolhimento comunidades em que a taxa de cobertura era demasiado baixa. Em relação a essas pessoas, o que há a fazer é simples: é ir à procura delas. Na Alemanha, foi montada uma estratégia de vacinação dos refugiados logo à chegada. Depois de um pico de 2466 casos em 2015, os números baixaram para poucas centenas de casos logo no ano seguinte e têm-se mantido assim desde então.

Os grupos que não querem vacinar-se são outros. São desde logo os objectores de consciência e os negacionistas. Boa parte são hipsters new age, que duvidam das vacinas como duvidam dos adubos químicos e querem comungar com a natureza. Outros são grupos religiosos para os quais as vacinas são de alguma forma uma blasfémia, porque se opõem à vontade de Deus e violam a natureza sagrada do corpo humano. Mas estes grupos são minoritários. Podem quando muito dar origem a surtos limitados, em que eles próprios são os mais prejudicados.

A maioria das pessoas que estão hoje reticentes em relação à vacinação não pertence a estes grupos. São pessoas que, muito simplesmente, duvidam, ou melhor: hesitam. E porque é que hesitam? O SAGE – Strategic Advisory Group of Experts on Immunization, um grupo de consultores da OMS para os assuntos da vacinação, desenvolveu uma escala de hesitação em relação à vacina (vaccine hesitancy), que é definida como atraso ou recusa em vacinar-se ou vacinar os filhos. Esta hesitação, que pode chegar à recusa, é resultado de muitos factores, dependentes do tempo, do lugar e da própria vacina. Mas uma meta-análise de vários estudos quantitativos mostrou que o principal factor que parece influenciar a adesão às vacinas é a confiança — confiança na ciência, no sistema de saúde e no governo.

A confiança na ciência será sobretudo confiança nos cientistas, nas pessoas que fazem a ciência, mais do que nos argumentos e debates especializados. É o médico que me faz confiar no medicamento. A confiança no sistema de saúde e no governo depende da capacidade destes de transmitirem uma visão, objectivos claros e resultados. Neste particular, a gestão da pandemia de Covid fez muitos estragos e já se falou disso. Mas a pandemia não pode servir para justificar tudo. A mesma meta-análise mostrou que a confiança no sistema de saúde e no governo sofria com a percepção de haver aproveitamentos financeiros associados. Um assunto que merece atenção, mais não seja porque uma das narrativas clássicas dos anti-vax é o “lucro das farmacêuticas”.