Em 1814, no célebre Congresso de Viena, os EUA, vistos por todos os Países importantes da altura com a condescendência que hoje damos – sei lá! – à Eslovénia, faziam timidamente – com o apoio da Inglaterra que, estranhamente, não sabia no que se estava a meter – introduzir uma nota sobre o direito dos territórios à autodeterminação.
Na altura esta medida visava a América central e do Sul, domínios espanhol e português, a quem as grandes potências emergentes pretendiam retirar a respectiva tutela. Portugal, na altura com o poder real assente no Rio de Janeiro, pensou que poderia passar a borrasca. Espanha que estava semi-destruída e tendo o poder entregue a más elites, tinha muito mais em que pensar.
O que de facto aconteceu é sabido: oito anos depois praticamente tudo tinha passado de mãos, sobrando nada na América para Portugal e Espanha mantendo apenas Cuba, Porto Rico e, no Pacífico (teoricamente dependentes das possessões espanholas na América), Filipinas, Guam, Palao, Marianas e Carolinas.
Os EUA nos anos seguintes (décadas de 40 do séc. XIX) anexaram o Texas, o Novo México, a Califórnia e etc. e tal , em guerras com o seu vizinho da fronteira Sul. Depois perderam 10 anos na década de 60 do séc. XIX num problema de secessão de que triunfou uma visão liberal e capitalista da sociedade. A Europa aproveitando-se dos problemas internos dos EUA julgou que existia uma possibilidade de intervenção no México, tendo, nesses anos 60 existido, e sido rapidamente varrido, um império. Não poderia haver outro poder nas Américas que o ianqui…
A Espanha, no fim do séc. XIX e em conflito militar violento com os EUA, perdeu o que ainda tinha para as bandas da América e do Pacífico. No princípio do séc. XX os EUA tinham arrumado a “casa próxima” e já eram indiscutivelmente uma potência dominante no mundo.
A Europa, e os seus Impérios nesse princípio de século, viviam uma Belle Époque, pensando que o oceano o separava dessas veleidades de adolescência de um País, e preocupava-a o resto do mundo.
A mesma Europa, de forma sonâmbula em 1914, entrou numa guerra estúpida onde só, quase no fim depois da exaustão dos Países europeus, os EUA entraram e, em 1919 em Versailles, por via de um Presidente Wilson que julgava podia mudar o mundo segundo uma ideia, secundado por loucuras vingativas do francês Clemenceau, todos com perspectivas teoricamente nacionalistas no pensamento (na prática divisionistas), os vencedores (?) trataram de rebentar com impérios, criar Países, Protectorados ou Colónias (seja isso o que for…), não hesitando mesmo em mudar populações inteiras para que aos “nacionais” correspondesse uma só “terra”, ou deixar, quando tal não era possível, minorias oprimidas em terra estranha. A arrumação de pessoas que tinha estado mais ou menos sedimentada e segura por uma lógica de impérios administrativos — e que, de uma forma geral, deixavam muita liberdade às diversas nações — foi estilhaçada irresponsavelmente.
A receita deu mesmo para o torto passados poucos anos, como é sabido.
No fim da segunda grande guerra e até aos anos 60 os EUA, clientelizando Países europeus numa política que era o outro lado do espelho da da União Soviética, acabaram com o poder daqueles no mundo, sendo que o Atlântico e o Pacífico passaram virtualmente a Mare Nostrum americano (detalhe que não é de esquecer, os EUA não reconhecem o limite das 200 milhas marítimas de zona exclusiva), o Japão, a Coreia do Sul, Taiwan, Indonésia e Filipinas, são Países que existem com uma aliança/dominação mais ou menos diáfana.
Pode ter-se a posição de admirar esta extraordinária odisseia que tem cerca de 200 anos, mas não convém que nos deixemos embalar por uma pretensa bondade de procedimentos. De forma desastrada muitas vezes, com uma política externa às vezes deselegante e sem objectivos claros, houve uma constante de afirmação da pax americana no mundo.
É verdade que esta constante expansão teve consequências que não devem ser esquecidas. A primeira, conhecida, é a de que a China e a Índia, de forma distinta, têm claramente reclamando um lugar a nível igual ao dos EUA e não vão largar a possibilidade de serem cada vez mais importantes. A segunda é a de que a política dos EUA na América Latina teve sempre um reflexo de má vontade popular nestes porque se sentiam inferiorizados e a sua cultura de inspiração católica inspirava-lhes mundividências que não são as exactamente WASP do seu Norte.
Esta longa introdução serve para que não nos espantemos com as presentes posições dos EUA. Temos de nos convencer que estão a fazer o que lhes convém numa afirmação de uma mesma política que vem detrás: A Rússia, neste momento, é o aliado, numa realpolitik, necessária para conter as ameaças emergentes, sobretudo a China, cujo aumento de poder desagrada aos dois, digam cada um o que disserem. Que a América o esteja a fazer com a falta subtileza malcriada e espalhafato de um bully sentado à mesa do café, é um detalhe que não deve ofuscar o fim em si mesmo.
Isto dito qual deve ser o papel dos Países Europeus (não da “Europa” pelo que explano a seguir)? Na minha modesta opinião e vendo o que tenho visto, desengane-se quem pense que a União Europeia como existe pode ser um contraponto ao poder dos EUA, com a ideia, na minha opinião contraproducente, se não mesmo ridícula, dos “Estados Unidos da Europa”.
O complicadíssimo esquema de poderes inventado para a gestão da “União” acaba por ser bom para os eurocratas mas duvido que o seja igualmente para todos os cidadão dos Países da Europa e, mesmo para estes últimos, entalados entre o que podem ganhar com a Europa e a existência de fidelidades e costumes de séculos (e a velha e imutável geografia…), geram contradições insanáveis.
O caso do Brexit que foi contado com uma cortina de fumo informativa só comparável à da pandemia, é paradigmático: O Reino Unido corresponde a uma série de Nações ciosas da sua maneira de estar, com um sistema legislativo e de justiça muito próprios, com uma liberdade individual e responsabilidade pessoal que não tem paralelo no Continente. Essas especificidades foram afirmadas pelos primeiro-ministros do RU quando dos diversos tratados que moldaram o que hoje é a EU. Foram sempre destratados e imposto um karma que corresponde a uma ideologia de união que nos é repetida sem cessar, ao ponto de ser quase infantil a argumentação.
Pelo que me parece que o primeiro passo a dar será esquecer a União Europeia tal como existe e dar alguns passos atrás. Não se deve necessariamente abandonar o muito que foi feito, mas verificar o que é útil. Para isso tenho uma teoria: Antes de se afirmar como “Poder” a “Europa” deve afirmar-se como “Referência”. O que quero dizer com isto? Vou contar uma história:
Estava eu expatriado na Argélia, onde trabalhei durante anos, e veio à conversa com já não sei quem, argelino, as diferenças entre o Norte de África e a Europa. E o argelino com um ar sonhador: “Monsieur Miguel. La haut c’est le paradis!” (Lá em cima – Europa – é o paraíso!). É essa imagem que arrasta os milhões que agora nos batem à porta.
Nos Países Europeus o equilíbrio e bem-estar conseguido, o “arrumo” das coisas, a organização patente, os inúmeros apoios sociais, passaram a ser míticos para todos os povos limítrofes à Europa, ignorando todos os que para cá vêm o trabalho que deu para a aqui chegar…
Para mais, muitos deles – embora não o confessem -, têm uma memória benévola do colonialismo que mantinha sociedades organizadas nos agora seus Países (mas há dezenas de anos sendo colónias), que se desorganizaram com as independências e, em muitos casos, tendo permitido a ascensão de poderes que se revelaram mais exploratórios que os antigos dominadores.
Esquecendo toda a falsa culpa que o politicamente correcto nos tentou atirar para cima é talvez chegado o tempo de, olhando de igual para igual sem tiques exploratórios, os Países Europeus, cada um com a sua História e as suas afinidades, reencontrarem os Países que foram suas “colónias” e tentar com eles estabelecer parcerias que se revelem mais profícuas que as diversas “rotas” que os novos poderes proclamam.
Para todo os efeitos, tendo os Países interesses próprios que pretendem defender, é mais fácil defendê-los com aqueles que – embora antigos colonizadores – não têm neste momento a força para se impor como potência dominante, mas têm a organização e a cultura – e um desejo intrínseco de paz entranhado que se verifica até com muita ingenuidade – que poderá ser a base da conversa para, num mundo multipolar, criar pólos que expandam valores de base de uma cultura europeia, única, convenhamos, que tem o Humanismo no seu cerne e que nunca hesitou em acolher e integrar as restantes.