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Para começar, importará clarificar o que é Criatividade. De forma simples, traduz a capacidade para criar algo que é novo e útil – mesmo que a utilidade se restrinja a um conjunto específico de pessoas e se revista de uma natureza sobretudo emocional.

Porquê a Criatividade? Porque é hoje uma competência muito valorizada, por pessoas e organizações, desde logo pela necessidade recorrente que temos de resolver problemas complexos, na esfera pessoal, nas empresas, no planeta…

Pensemos nas empresas. Um dos desafios mais interessantes da atualidade é o anunciado “regresso ao escritório”, especialmente nos casos em que seja inédita a decisão de os colaboradores trabalharem, a título definitivo, alguns dias a partir de casa. É um desafio interessante, porque é muito complexo! Será com este “regresso ao escritório” que constataremos, de facto, que a empresa que conhecíamos desapareceu! Uma perda, abrupta e irrecuperável, que tem potencial para ter um efeito devastador em nós, e que irá mexer profundamente com a cultura das organizações.

Claramente, uma situação que requer a geração de soluções criativas (novas e úteis, portanto), na resposta a um contexto que é novo e que envolve desafios, também eles novos, que são complexos e de ordem diversa. Desde aqueles que passam pela necessidade de reconectar as pessoas com a empresa (porque a empresa lhes vai parecer outra!). Até aos que, parecendo negligenciáveis, têm um impacto que é profundo. Por exemplo, a perda do conhecimento partilhado sobre o que se está a passar na organização – conhecido como “mutual knowledge” – e que é crítico em processos internos de empatia e colaboração. Ou o cansaço insuportável, exponenciado pelo número excessivo de reuniões e pela nova coabitação da comunicação presencial com a remota. Tudo a contribuir para uma realidade muito diferente, que exige das organizações grande competência criativa.

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Neste âmbito, é muito importante sublinhar que a criatividade não começa na esfera da solução mas na capacidade para entender e trabalhar o problema. O exemplo do “regresso ao escritório” é, a este nível, paradigmático, porque formula o desafio (o problema) de forma particularmente infeliz – a tal ponto que afeta a missão da equipa responsável pela iniciativa. Desde logo, porque define o problema errado, criando a perceção de que se trata da reedição da experiência anterior, ainda que com nuances. Depois, porque condiciona todo o potencial criativo, uma vez que, na esfera da solução, as respostas estarão centradas em aspetos práticos e logísticos que, sendo importantes, não são os essenciais.

Agora, imagine que a equipa responsável pelo desafio o enquadrava de uma forma diferente – refiro-me à esfera do problema – e que, com base no conhecimento profundo da sua missão, em vez de definir esta iniciativa como “regresso ao escritório”, a definia como “regresso ao futuro”.

Repare nos benefícios potenciais. Primeiro, aponta ao problema certo, ajudando a interiorizar a ideia de que há uma nova realidade com a qual é necessário lidar. Segundo, torna evidente à própria equipa que, consequentemente, é imprescindível o desenvolvimento de soluções criativas. Por último, sinaliza a todos que é fundamental abraçar a mudança.

Este caso, à semelhança de outros, é a evidência de que a criatividade começa, antes das soluções, na forma como entendemos e enquadramos o problema. É este, aliás, um dos pilares fundamentais do design thinking, uma metodologia de geração de soluções criativas para problemas complexos.