Há dias, vivi uma experiência que, se por um lado não foi inédita, por outro demonstrou de forma contundente a crise de valores que se faz sentir na educação das nossas crianças. Encontrava-me numa fila de supermercado, onde apenas duas caixas abertas acumulavam uma aglomerada fila de clientes, quando presenciei uma situação tão corriqueira quanto perturbadora: uma criança, de cerca de cinco ou seis anos, deitada no chão, gritava a plenos pulmões e agitava-se com violência porque desejava um brinquedo guardado numa caixa. A berraria atraía os olhares da clientela, mas o que mais me chamou a atenção foi a total falta de reações adequadas por parte dos adultos que a acompanhavam. Enquanto a avó tentava, com uma voz suave e complacente, acalmar o pequeno, a mãe mantinha-se impávida, ruborizada, porém aparentemente resignada ou indiferente ao espetáculo.
Perante aquela cena, envolveu-me uma mistura de inquietação e indignação. Senti o impulso de intervir, de chamar a atenção para a inadequação de tal comportamento infantil num espaço público. Contudo, mais do que o incómodo causado pela gritaria, o que verdadeiramente me perturbou foi a reflexão que este episódio despoletou em mim. Como estamos a educar as nossas crianças? Que valores lhes transmitimos? E, sobretudo, que tipo de sociedade pretendemos construir a partir de exemplos como este?
A pergunta que se impõe é de simples formulação, mas de resposta complexa: que adulto se tornará esta criança? Crescerá com respeito pelos mais velhos? Saberá aceitar contratempos e lidar com frustrações? Ou estará destinada a repetir, em diferentes moldes, a conduta de desconformidade que hoje encena, alicerçada no permissivismo dos seus cuidadores? Esta breve cena de birra pública não se resume a um episódio isolado de teimosia infantil; espelha, antes, a extensa rede de permissividades e lacunas educativas que se enraíza no seio das nossas famílias e, por conseguinte, das nossas comunidades.
O papel estruturante da educação familiar
Vivemos tempos em que se ambiciona transformar o espaço público num lugar seguro, aprazível e tranquilo. No entanto, é frequente cairmos no erro de considerar que tal objetivo se alcança apenas por via de medidas legais ou por meio de maior vigilância policial. Ignora-se, muitas vezes, que a verdadeira transformação social começa na educação que se oferece às gerações mais novas. E é essencial clarificar que esta educação não se resume à instrução ministrada pelas escolas; implica, acima de tudo, o compromisso, a atenção e a responsabilidade de pais, avós e tutores.
Há, sem dúvida, uma confusão enraizada: a escola ensina, mas é a família que deve educar. A escola pode transmitir conhecimentos científicos, literários ou artísticos e promover a sociabilização, mas não lhe cabe, em primeira linha, incutir valores morais e regras de convivência básica. Estes princípios fulcrais formam-se no lar, a partir do exemplo e da orientação dos progenitores. Quando estes se furtam a essa responsabilidade ou quando a transferem para a instituição escolar, cria-se uma lacuna que se propaga, inevitavelmente, na personalidade e no carácter das crianças.
Muitos questionam por que motivo, numa fase adulta, vemos proliferar comportamentos de oportunismo, corrupção, falsidade e desresponsabilização. A resposta, ainda que complexa, pode ser em grande parte encontrada na forma como se permitiu que as crianças crescessem, sem a solidez dos valores essenciais de honestidade, respeito e compromisso. Como podemos esperar que uma criança a quem se ensinou a “dar um jeitinho” ou a mentir para evitar repreensões se torne num adulto íntegro e firme nos seus princípios?
É comum escutarmos frases como “não digas ao teu pai quanto isto custou” ou “não contes ao avô que foi a avó que te comprou”. Estes aparentes pequenos subterfúgios, tão enraizados na nossa cultura, vão pouco a pouco erodindo a noção de verdade e transparência. Quando chegamos à idade adulta, verificamos que tais práticas, longe de serem esquecidas, se manifestam sob a forma de enganos profissionais, manobras ilícitas e corrupção endémica. Assim, sociedades marcadas pela criminalidade económica e pela falta de ética nas relações de poder não são fruto de um mero “defeito cultural” ou de uma propensão geográfica para a desonestidade. São, na realidade, o resultado direto de uma educação deficitária que, por repetição ou omissão, desrespeitou ou secundarizou princípios morais fundamentais.
A tarefa hercúlea de reeducar
Quando a educação familiar falha, a reeducação das novas gerações recai, em grande medida, sobre a própria vida, que, com a sua dureza, se encarrega de ensinar as lições em falta. No entanto, a aprendizagem pela adversidade não é propriamente a via ideal para o desenvolvimento de um indivíduo. Muitas vezes, essas lições tardias podem conduzir a danos irreparáveis na personalidade, no equilíbrio emocional e nas relações pessoais e profissionais.
Se queremos, de facto, construir uma sociedade em que o espaço público seja um local de harmonia, respeito e civismo, urge resgatar o valor da educação no lar. Necessitamos de uma viragem de mentalidade, onde se valorize mais o “ser” do que o “ter”. Limites, regras, e a compreensão das consequências de cada ato são pilares indispensáveis que devem ser transmitidos desde cedo.
Enquanto adultos, somos responsáveis por ensinar às crianças a lidar com a frustração, a desenvolver empatia e a respeitar o outro. Mais do que encher quartos de brinquedos, precisamos de mostrar a importância do esforço, da paciência e da colaboração. Afinal, é preferível educar para a responsabilidade e para a disciplina do que esperar que a dureza do mundo se converta no grande professor, muitas vezes cruel e implacável.
Olhando para a cena no supermercado, não consigo deixar de me perguntar se, daqui a alguns anos, aquela criança saberá gerir as suas emoções de forma equilibrada, se terá sido devidamente ensinada a respeitar o espaço comum ou se, ao invés, sucumbirá aos mesmos vícios que se abatem sobre tantos jovens e adultos. É certo que a responsabilidade principal recai sobre os pais, mas nós, enquanto sociedade, também não podemos continuar a olhar para o lado. É urgente debater e promover iniciativas que ensinem pais e mães a assumirem o seu papel insubstituível na formação de filhos mais conscientes e empáticos.
A crise da educação não é apenas uma questão privada; é uma emergência pública. Se falhamos em educar as crianças de hoje, estaremos a comprometer o bem-estar coletivo de amanhã. À semelhança de tantas outras mudanças sociais, este processo exige tempo, reflexão e dedicação. Ainda assim, nenhuma legislação ou decreto substitui a força moral e o exemplo diário que deve emanar do ambiente familiar.
Em suma, a “berreira” na fila do supermercado não foi apenas um episódio de mau comportamento infantil, mas um alerta para a urgente necessidade de repensarmos a forma como educamos as nossas crianças. Queremos, afinal, formar cidadãos que entendam os seus deveres antes de exigirem os seus direitos, que saibam controlar os seus impulsos e reconhecer o seu lugar no mundo. Se falharmos nesta missão, a vida encarregar-se-á de cobrar o preço, e as consequências poderão ser tão imprevisíveis quanto nefastas para a sociedade como um todo. É, pois, fundamental que cada um de nós assuma a sua quota-parte de responsabilidade, investindo na educação como base de uma comunidade mais justa, coesa e verdadeiramente civilizada.