O mais recente concurso para Internos de Formação Específica confirmou  aquilo que muitos médicos sentem no terreno há demasiado tempo: a Medicina  Geral e Familiar (MGF) e a Medicina Interna (MI) deixaram de ser capazes de atrair  jovens médicos em número suficiente para manter o SNS funcional. Este concurso,  no qual participei e que escolhi Medicina Interna, foi o que registou o maior número  de vagas por preencher, com MGF e MI a liderarem a lista de especialidades mais  abandonadas. Este não é um fenómeno ocasional mas sim a manifestação mais  visível de um problema estrutural que ameaça a sustentabilidade do sistema de  saúde em Portugal.

Por que razão estas especialidades são tão essenciais 

A MGF e a MI representam os pilares fundamentais do SNS. A primeira  assegura a base dos cuidados primários: acompanhamento contínuo, prevenção,  gestão de doenças crónicas, promoção de saúde e triagem eficiente. Sem Médicos  de Família suficientes, o país perde a capacidade de oferecer cuidados precoces e  regulares. E sem essa base sólida, o peso recai inevitavelmente sobre os hospitais  que, por sua vez, dependem quase estruturalmente da Medicina Interna.

A Medicina Interna é o “motor” das urgências, o suporte dos internamentos,  a base da resposta a doentes complexos e a ponte entre várias especialidades  hospitalares. Num sistema onde o envelhecimento populacional e a pluripatologia são já a norma, o internista não é apenas útil: é indispensável. A falta de internistas  não significa apenas mais tempo de espera. Significa riscos clínicos, internamentos  desnecessários, alta inadequada, falhas de coordenação e perda de continuidade  assistencial.

Quando estas duas áreas falham, o SNS inteiro quebra em múltiplos pontos  ao mesmo tempo.

O que mostram os números: a tendência tornou-se rutura 

Nos últimos concursos, a tendência de vagas por preencher em MGF e MI  tem-se agravado. No mais recente concurso, verificou-se um número  historicamente elevado de vagas vazias, particularmente nas duas áreas  fundamentais do sistema. Em paralelo, mais de 1,5 milhões de portugueses  continuam sem médico de família, e nos hospitais multiplicam-se relatos de  serviços de urgência a funcionar no limite, internamentos sobrelotados e equipas  reduzidas ao mínimo.

Este padrão tornou-se tão repetitivo que já não pode ser visto como um  acidente estatístico. É a projeção exata da perda de atratividade destas  especialidades e, simultaneamente, da incapacidade do SNS de criar condições  que tornem a carreira pública estável, sustentável e previsível. Muitos médicos em  início de carreira optam por emigrar, por trabalhar no setor privado como tarefeiros  ou por adiar a especialização. Não porque o internato não tenha valor, mas porque  o contexto em que se insere perdeu a capacidade de inspirar confiança.

As causas profundas desta crise: um problema multifatorial 

As razões que explicam este afastamento são diversas e entrelaçadas,  formando um verdadeiro círculo vicioso. Em ambas as especialidades, a  sobrecarga assistencial é um fenómeno diário: consultas cheias, urgências  intermináveis, equipas incompletas, tarefas burocráticas esmagadoras e uma  pressão permanente que raramente é proporcional aos recursos disponíveis. A isto  soma-se a falta de valorização institucional e salarial, que durante anos colocou o  SNS numa posição de desvantagem face ao setor privado e aos mercados  internacionais. A carreira médica tornou-se pouco previsível, muitas vezes  marcada por contratos precários, progressão lenta e escassez de incentivos reais à  retenção de profissionais.

Por outro lado, a gestão de recursos humanos tem sido incapaz de  estabilizar equipas, garantindo que hospitais e centros de saúde funcionem com  segurança e continuidade. A insuficiência crónica de médicos acaba por aumentar  ainda mais a carga dos que permanecem, alimentando um ciclo de desgaste que  se auto-replica. A perceção pública e institucional destas especialidades também  não ajuda: tanto a MGF como a MI são frequentemente vistas como áreas  “generalistas”, quando na realidade lidam com alta complexidade clínica, exigem  raciocínio integrador e impactam todas as áreas da medicina.

No final, tudo converge para o mesmo ponto: o sistema perdeu capacidade  de motivar, apoiar e valorizar aqueles que deveriam ser o centro da resposta de  saúde em Portugal.

Caminhos possíveis: soluções que podem inverter a tendência 

A inversão desta trajetória exige ação coordenada e uma visão de longo  prazo. Qualquer solução real passa por reestruturar profundamente as condições  de trabalho, garantindo equipas reforçadas, carga assistencial controlada e menos  burocracia, para que o foco volte a ser o doente e não o papel ou a sobrevivência  institucional. É fundamental revalorizar a carreira pública, não apenas com  melhores salários, mas com progressão previsível, contratos estáveis e incentivos  que tornem o SNS um destino profissional desejável e não apenas um ponto de  passagem.

Também se torna urgente consolidar equipas multidisciplinares, onde  médicos, enfermeiros, psicólogos, fisioterapeutas, nutricionistas e assistentes  sociais trabalhem de forma integrada, aliviando a pressão sobre uma única  categoria profissional. O internato médico, por sua vez, precisa de ser  modernizado: mais supervisão, mais condições formativas, mais tempo protegido  para estudo, investigação e diferenciação, tornando a formação não apenas  exigente, mas também estimulante.

Outro eixo essencial é criar incentivos reais à fixação em zonas carenciadas:  habitação, apoios financeiros, estabilidade contratual, oportunidades de  formação, transformando essas regiões em oportunidades e não em punições  geográficas. Por fim, é indispensável restaurar a confiança no SNS como projeto de  missão pública: lideranças competentes, transparência, investimento consistente  e um discurso que reconheça e valorize a importância destas especialidades no

tecido social. Sem esta mudança cultural e estrutural, qualquer reforma será  apenas cosmética.

Uma reflexão final: o que está verdadeiramente em risco 

Quando centenas de vagas em MGF e MI ficam livres, o país não perde  apenas futuros especialistas. Perde continuidade, proximidade e segurança  clínica. Perde capacidade de prevenir a doença e de tratar a complexidade. Perde  coerência e sentido de sistema. A ausência de médicos de família deixa milhares  de pessoas entregues à incerteza. A ausência de Internistas compromete o  funcionamento dos hospitais em todas as suas dimensões.

A escolha da especialidade, para mim, não foi apenas um passo  profissional, mas sim uma afirmação de confiança de que o SNS ainda pode ser  reconstruído de dentro para fora. Mas essa reconstrução exige reconhecer que  chegámos a um ponto de viragem. A pergunta essencial não é “por que razão os  jovens não escolhem estas áreas?”, mas sim “o que fizemos para que duas  especialidades tão centrais tenham deixado de ser desejadas?”.

Se continuarmos a ignorar esta realidade, o SNS tornar-se-á um conjunto de  respostas avulsas, incapaz de garantir aquilo que lhe deu origem: cuidados  universais, próximos e de qualidade. Mas se tivermos coragem de transformar este  alerta numa oportunidade, ainda podemos recuperar um sistema que não depende  de tecnologias de ponta, mas de pessoas, aquelas que cuidam e aquelas que  precisam de ser cuidadas. É essa a escolha que está diante do país. E o tempo para  a fazer está a esgotar-se.