Educação

A culpa é dos adultos /premium

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Houve umas luminárias do Ministério da Educação que entenderam colocar crianças a aprenderem matérias para as quais não têm, tão novas, capacidade. As crianças, previsivelmente, mostram dificuldades.

Quando li notícias de não se conseguir ‘raciocinar, argumentar e relacionar conceitos’ cogitei para com os meus botões (ou fecho-éclair, que vai dar ao mesmo) ‘querem ver que fizeram um estudo sobre os participantes adultos das redes sociais?’ Mas não, tratava-se da análise dos resultados das provas de aferição dos vários ciclos.

Que, não por acaso, é tema que me interessa. No ano passado o filho mais novo fez a prova de aferição do segundo ano (que é uma nervoseira perfeitamente escusada para miúdos de sete anos, mas deixemos isso por agora) e o mais velho a do quinto ano.

A criança mais velha já está em modo de autogestão, é bom aluno sem precisar de estudar para isso e eu só intervenho para boicotar as sugestões dos professores de que passe mais tempo a estudar para tirar ainda melhores notas. Neste ponto particular socorro-me de Jorge Sampaio e digo-lhe que há vida além do estudo. Entre pô-lo a estudar para passar de um oitenta para um noventa por cento, ou comprar-lhe livros para ler sobre os assuntos que lhe interessam (desde uma tradução em segunda mão do Freedom at Midnight da dupla Collins e Lapierre vinda do Brasil – por cá nunca ninguém se lembrou de traduzir – até aos recentes volumes dos Romanov do Simon Sebag-Montefiore), prefiro de longe a última.

Considero que a leitura (de livros bons, maus e assim-assim) e outro tipo de experiências (voluntariado, ou aulas de música, desenho, acting) preparam muito mais para a vida que a estrita formação académica. Cada vez mais me arrepio com a profunda burrice e ignorância de pessoas que sabem muito tecnicamente de alguns assuntos (as que sabem) mas nem com lentes fundo de garrafa conseguem ver o mundo. Por muito boas que sejam no seu nicho técnico (novamente: as que o conseguem), são pessoas quadriculadas, cortadas, a quem escapa a natureza humana. E, como digo ao pré-adolescente, as miúdas preferem sempre um rapaz que consiga dizer coisas giras sobre o casamento aberto de Lord Mountbatten com a sua Edwina, ou a relação de Catarina, a Grande com Potemkin, do que os macambúzios que falam de jogos da playstation.

Isto tudo para ensaiar o argumento (que não desenvolvo por questões de economia de espaço) de que faz muito mal ao ensino e à aprendizagem o enfoque excessivo nos testes, mesmo os de aferição que nem nota têm, sobretudo quando os alunos são tão novos.

Mas vamos ao filho mais novo. Dizem as provas de aferição destes dois anos que as crianças no segundo ano têm problemas com as frações. E pelas notícias tal é apresentado como grande descalabro.

Bom, não vejo a razão. Eu – e milhares de alunos como eu – deram frações no quinto ano, com dez anos. Agora começam a dar frações no segundo ano (as tartes partidas) e logo no terceiro fazem contas com frações que estou certa que alguns adultos não as saberiam fazer. Houve umas luminárias políticas do Ministério da Educação que entenderam colocar crianças – que não desdobram a capacidade de abstração normal para a idade só para agradar aos alucinados com ‘a exigência’ e ‘o rigor’ – a aprenderem matérias para as quais não têm, tão novas, capacidade. As crianças, previsivelmente, mostram dificuldades.

Este desfasamento entre a capacidade de abstração das crianças e os programas foi previsto quando entraram em vigor as novas metas curriculares em 2015. Ninguém pensante se surpreendeu. Ontem, uma professora primária reformada de um colégio que costuma estar no topo dos rankings comentava comigo que os programas eram uma ‘violência a que sujeitam crianças de 7, 8, 9, 10 anos’. Junte-se a isto o gigantismo dos programas, que obrigam a dar a matéria seguinte antes da anterior estar consolidada. Depressa concluímos que as notícias, afinal, deviam ser ‘5% da população é tão ingénua e distraída que se espanta pelos resultados das provas de aferição do primeiro ciclo’.

Segundo me disseram no ano passado para as provas de aferição do segundo ano (num colégio que é conhecido por errar pela exigência excessiva), não eram fáceis nem pretendiam facilitar. Presumo que temos, portanto, um bom retrato dos alunos do primeiro ciclo. Se se quiser usar sensatez e pesquisa científica, não será difícil melhorar os programas para os adequar às cobaias.

Porém se se preferir usar ideologia à cacetada, teimar em clamar pelos chavões da falta de retenções e da bandalheira que é a educação, continuar a tentar vergar uma criança aos espartilhos dos tais que são bons tecnicamente mas um desastre a ler a realidade, bom, ficaremos na mesma. Há uma espécie de novo-riquismo na educação, com foco apenas nos exames e no que é mensurável. Em vez de colares de ouro ostensivos, usam-se atualmente as notas e as setecentas e sessenta e duas atividades em que os filhos revelam excelência.

Mas há sempre um lado positivo. As pessoas das redes sociais podem entreter-se rasgando as vestes de indignação com a ignorância dos jovens de agora e a sua incapacidade de raciocinar, argumentar e relacionar. Exatamente as mesmas pessoas que não produzem uma ideia própria, repetem o que leram noutro lado, aderem ou repudiam os argumentos nunca pela sua qualidade mas pela afinidade, ou falta dela, com quem os profere, e são incapazes de raciocínio abrangente e de perceber como uma coisa influencia outra direta ou indiretamente. No meio de abundantes erros ortográficos e gramaticais. É que dantes é que a escola ensinava bem.

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