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A Descoberta do Caminho Marítimo para o Barreiro /premium

Autor
  • José Diogo Quintela
2.427

O navegador do séc. XV afligia-se por não ter a certeza para onde o seu barco se dirigia. O de agora sabe muito bem que é para o Barreiro. Consegue vê-lo do outro lado do Tejo. Não sabe é se há barco.

Mais de 500 anos após a gesta heróica de Vasco da Gama, Portugal volta a celebrar feitos épicos de navegadores, homens valentes que ultrapassam os mais improváveis obstáculos para atingir o destino sonhado. Cinco séculos depois, a façanha da Descoberta do Caminho Marítimo para a Índia é reeditada, agora enquanto Descoberta do Caminho Marítimo para o Barreiro. Dois testemunhos da apetência ímpar dos portugueses para viagens impossíveis: as das caravelas de outrora e as dos cacilheiros de hoje.

Claro que há óbvias diferenças entre as expedições. A viagem do Gama durou 10 meses, a viagem para a Outra Banda, com ventos propícios, raramente chega a tanto. Mais: aos tripulantes das naus exigia-se coragem física durante a jornada. Aos passageiros da Soflusa a coragem física também é necessária, mas antes da partida, caso seja necessário andar à bulha com alguém que venha roubar o lugar na fila. Os tripulantes de antanho tinham os dentes estragados pelo escorbuto, os de agora é por andarem à batatada no cais.

Também a ansiedade é diferente. O descobridor do séc. XV angustiava-se por não ter a certeza para onde o seu barco se dirigia. O de agora sabe perfeitamente que é para o Barreiro. Aliás, consegue vê-lo do outro lado do Tejo. Não sabe é se há barco. Onde uns ousaram passar ainda além da Taprobana, outros não sabem se passarão sequer além do torniquete.

Essa é, aliás, a grande pecha da epopeia de hoje: não haver um Camões que verta para decassílabos os episódios mais emocionantes, desde a jeremiada do Velho do Restelo (um tipo qualquer que diz “vão pela ponte que é mais seguro, pá!”), até ao confronto com o Adamastor (o funcionário da Soflusa que informa que o próximo barco é só para o mês que vem). Em vez de “Os Lusíadas”, teríamos “Os Sulíadas”, por retratar o intrépido povo da Margem Sul.

Estes aventureiros merecem uma homenagem. Construa-se um segundo Padrão dos Descobrimentos, ao lado do original, mas com os novos heróis. Em vez do conjunto escultório com Infante D. Henrique, D. Afonso V, Vasco da Gama e Álvares Cabral, põe-se uma senhora de meia-idade que mora na Arrentela e trabalha em Campolide, seguida de uma jovem estudante a puxar-lhe o cabelo para lhe passar à frente, um polícia de apito na boca a meter ordem no terminal, e um mestre da Soflusa já com os papéis de baixa psiquiátrica. Obviamente, mantém-se a representação das figuras em fila, para simbolizar as bichas que os passageiros enfrentam.

Não é apenas na renovação da mais grandiosa narrativa da nossa história que a descida do preço dos passes sociais está a ter impacto favorável. Também se faz sentir no SNS, com os utentes a demorarem horas a chegar aos Hospitais, passando assim muito menos tempo à espera de médico.

Melhor que tudo, o aumento do número de passageiros, conjugado com a diminuição do número de meios de transporte disponíveis, está a reflectir-se positivamente na demografia. As pessoas viajam tão apertadas umas contra as outras, que tem acontecido engravidarem. O único problema é, muitas vezes, não se conseguir saber quem é o pai. “Pelas minhas contas”, disse uma grávida, “a concepção tanto pode ter sido no barco, dia 2, no metro, dia 14, ou no 756 para as Olaias, na quinta-feira passada. Cheira-me que foi aí, no autocarro. O motorista travou a fundo de repente, houve compactação extra e eu pensei logo ‘já estás!’”

Da mesma maneira que, 9 meses depois de Iniesta ter marcado o golo que pôs o Barcelona na final da Liga dos Campeões, nasceram milhares de “Bebés Iniesta”, estes irão ficar conhecidos como “Bastardos Pedro Nuno Santos”. Pedro Nuno Santos é o ministro das Infraestruturas e veio, na semana passada, pedir desculpa pelos constrangimentos nos transportes. Apesar de ser estranho ouvir o Governo dizer mal do estado dos transportes, quando ainda há semanas elogiava o trabalho de Pedro Marques, ex-ministro da tutela, tratou-se de um nobre acto de contrição. E sincero, se pensarmos que veio de um homem que, tendo trocado o Porsche por um utilitário, sabe o que é passar a utilizar um transporte de pior qualidade. Mas temo que o pedido de desculpas não tenha sido bem-sucedido: é que deu nos telejornais das 8 e, a essa hora, os destinatários das desculpas ainda não chegaram a casa. A não ser que o caos nos transportes tenha sido de tal ordem, nessa manhã, que nem tenham conseguido ir trabalhar.

Pedro Nuno Santos tem feito uma interessante evolução política, mas ainda está aquém dos objectivos ambiciosos a que se propôs. Há uns anos, tinha o sonho de fazer tremer as pernas dos banqueiros alemães, mas, para já, o máximo que consegue é fazer tremer as pernas de empregadas de limpeza cabo-verdianas, cansadas das horas em pé à espera do comboio. (Se bem que há alguma má vontade nestas senhoras – e noutros rezingões anti-progresso – que se recusam a usufruir das ciclovias para ir de bicicleta para o trabalho, ou a aproveitar o incentivo do Governo ao teletrabalho para efectuar a faxina por Internet, a partir de casa).

Já se fala do ministro das Infraestruturas como o novo Fontes Pereira de Melo. Não por a sua acção fazer lembrar o desenvolvimento das obras públicas que marcou o Fontismo. O que acontece é que, com Pedro Nuno Santos, os comboios estão a voltar ao nível de 1856, quando Fontes os introduziu em Portugal.

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