Comecemos por recordar os números das últimas eleições legislativas em Portugal, em Outubro de 2019: dos cerca de 10.7 milhões de eleitores inscritos, votaram 5.2 milhões, ou seja, 48.5%. Destes, menos de metade, 250 mil eleitores votaram em branco ou nulo, ou seja, 2.3%. Assim, o número de eleitores que votaram expressamente nos 21 partidos políticos que se apresentaram a concurso não chegaram aos 5 milhões. O partido vencedor (PS) obteve 1.9 milhões de votos, ou seja, 17.7% do universo eleitoral. O segundo partido mais votado, PSD / PPD, com cerca de 1.4 milhões, recolheu o voto de 13.5% dos eleitores portugueses. Tendo em conta que o terceiro partido mais votado (BE) não chegou aos 500 mil votos, a polarização do sistema de partidos em Portugal é óbvia.

Muitos consideram que a multiplicação de partidos pode ser sinal de diversidade e de maior liberdade de escolha e que, por esta lógica, as democracias mais avançadas teriam maior quantidade de oferta no espectro político: partidos liberais e radicais, conservadores, socialistas e social-democratas, democratas-cristãos, comunistas, agrários, ecologistas.

Para outros, onde me incluo, a “diversidade” do sistema partidário – fragmentação se preferirmos – é resultado do agravamento da crise de representação do sistema político e do divórcio entre a população e a classe política. O aumento da abstenção, que atingiu em Portugal níveis impensáveis há uma década, tornar-se-á neste caso num fenómeno crónico fruto na ineficiência da intervenção dos partidos em matéria de políticas públicas (saúde, educação, política europeia e externa, administração da justiça), da corrupção das “corporações”, do desperdício e má gestão do erário público e da incompetência dos mecanismos de regulação em geral. O dito “centro” político está crescentemente esvaziado pela fuga de votos em direcção a novos partidos fora do arco do poder com discursos novos e “dedicados” ou em direcção à não participação. Da falta de alternativas e de respostas emergiu em Portugal um sistema multipartidário polarizado.

Se considerarmos o “arco do poder” constituído por PS, PSD e PP, verificamos que estes partidos recolheram pouco mais de 1/3 de apoio do eleitorado (incluindo a abstenção).

A perda de eleitores destes partidos alterou e continuará a alterar o modelo de governação em Portugal. As maiorias absolutas, anteriormente objectivos assumidos pelos candidatos à governação, são hoje cenários muito improváveis e ninguém corre o risco de a assumir com objectivo.  Na prática, a governação em Portugal irá assentar em coligações de governo ou em alianças parlamentares, em qualquer dos casos de base programática (e não ideológica, tornando-as mais frágeis) para, na melhor das hipóteses, uma legislatura. As “Esquerdas” já o fizeram, criando uma frente política, carinhosamente chamada de “gerigonça” que, ao contrário do que muitos vaticinavam, durou uma legislatura e, na prática, ainda vai durando. Os últimos anos desmentiram a tese sobre a gerigonça, de que tinha o improviso como justificação implícita. O cimento da coligação da esquerda é o poder e a influência sobre o Estado, afinal o ADN de qualquer partido político. Nesta acomodação, quem menos perde é o PS. O pior que poderá acontecer será não alcançar, como não alcançou em 2019, maioria absoluta. Este é o preço que pagará pelo palco que cede à sua esquerda.

Se compararmos com o cenário político à sua direita, o preço é modesto. Os problemas de atomização do sistema, a enorme crise de representatividade e o crescimento do descrédito nos políticos dizem-lhes pouco por força das contas que lhes garantem, no actual “status quo”, vantagem garantida em qualquer cenário, mesmo com 60% ou 70% de abstenção.

Qualquer sombra de mudança no actual sistema político nacional só advirá do espaço à direita do PS.

O futuro do PSD como partido de governo depende da recriação deste espaço. Enquanto que o PS pode manter a sua linha “secular” ao ceder a satisfação dos interesses dos extremos aos parceiros à esquerda, o PSD mantém-se inamovível, entre dilemas tácticos situados entre concordar ou discordar com os socialistas. A pobreza da oferta do PSD vai condená-lo por isso a um partido à espera, dependente do sucesso ou do fracasso da esquerda.

Apenas uma aliança à sua direita poderá assegurar ao PSD a inclusão de novas causas e de novos objectivos programáticos, porventura estranhos à tradição do partido, utilizando o mesmo tacticismo do PS e abdicando de colagens ou imitações como aquelas às quais o PP parece estar condenado. Assim, só com um tremendo desaire socialista o PSD poderá vir a influir decisivamente na política portuguesa nos próximos anos.

A recriação política à direita do PS não resultará apenas num processo de “actualização” de certa social-democracia e de correntes mais próximas do conservadorismo ou do liberalismo, dando azo a uma oferta política renovada e capaz de dar respostas em áreas onde o PSD se mantém timidamente auto-limitado por considerar que se encontram para além da sua área de conforto. Será também um passo decisivo para a inversão do ciclo da indiferença, de fragmentação do sistema e do crescendo da desconfiança da maioria dos portugueses, podendo exercer um papel decisivo no processo de renovação e de clarificação do sistema partidário actual, num penoso e lento processo de fim de ciclo onde a emergência de um actor político tende a ser, em regra, um mau augúrio.