Em Outubro passado, escrevi aqui que a saída de Pedro Passos Coelho obrigava a direita a reposicionar-se, construindo um discurso autêntico e descomplexado, capaz de derrotar António Costa. A defesa das exportações, da prudência orçamental e da convergência europeia deixou de ser suficiente para mobilizar o eleitorado. A troika já abandonou o País há três anos e – ironia das ironias – o discurso do rigor financeiro tornou-se especialidade dos socialistas.

Se há lições a retirar do actual contexto político, elas vêm sobretudo de Belém. O Presidente Marcelo, com o seu estilo próximo e afectuoso, mostra que a política não pode esgotar-se na tecnocracia. Os eleitores votam menos com a carteira e mais com o coração. No discurso político, desejam encontrar mais do que a promessa de uma vida melhor. Sabem, como sabemos todos, que a política é um assunto colectivo; uma discussão sobre a organização da comunidade. E, por isso, não decidem o seu voto como quem vai ao supermercado escolher o produto que melhor o serve. Mais do que a promessa da ascensão económica, procuram na política um sentido de pertença; um projecto colectivo; uma certa ideia do País com a qual possam identificar-se.

Quando defendo que a direita deve reencontrar as suas raízes ideológicas, estou a referir-me à necessidade de construir este projecto colectivo. Obviamente, não desejo que os partidos se enfeudem (ainda mais) em si mesmos, ou que os deputados desatem a citar, em cada intervenção, um friso de pensadores da sua área ideológica. Num notável artigo recente, Adolfo Mesquita Nunes alertou para o risco de que a discussão ideológica se torne demasiado abstracta e distante. De facto, a política fez-se para ser praticada, e é na prática, tomando o pulso à vida concreta das pessoas, que ela ganha corpo e sentido. Mas é importante saber-se o que se pratica. Um político sem ideologia é, por definição, inconstante, inconsistente e imprevisível. Sem convicções anteriores, rapidamente se torna escravo das circunstâncias, em vez de as dominar. E esse é um risco inaceitável.

O PSD passou boa parte dos últimos dois anos a convencer-se de que regressaria rapidamente ao poder, porque a geringonça não duraria. Agora, o Presidente-eleito do partido, cujo grande argumento de campanha era estar mais bem colocado para vencer António Costa, vai preparando o terreno para ser pau-de-cabeleira dos socialistas.

Se o PSD se vira descaradamente para o centro-esquerda, o CDS faz bem em ocupar a direita, sem medos nem complexos. A ideia de que as eleições se ganham ao centro só é válida para os sistemas bipartidários, em que, por haver apenas dois partidos a concurso, vence aquele que convencer os eleitores mais centrais. Os Conservadores britânicos, por exemplo, só puderam fazer pontaria ao centro enquanto não tiveram um adversário a disputar os votos da direita.

Em Portugal, nenhum analista sugere que o sucesso eleitoral do Bloco de Esquerda se deve a um discurso pragmático ou centrista. Mas, incrivelmente, há muita gente convencida de que a esquerda pode crescer com um discurso ideológico, enquanto a direita tem de disfarçar a sua ideologia. Não sei se é pragmatismo ou complexo de esquerda. Mas não me parece fazer sentido, nem corresponder à realidade do País.

No contexto actual, o caminho do CDS é fortalecer a sua base de apoio. Afirmar-se de direita, para poder federar as direitas. Construir um projecto agregador, pensando mais na cultura, no ensino, na coesão territorial e no posicionamento geoestratégico do País, e menos na agenda económica e no diktat das estatísticas.

Se o governo é incoerente e tecnocrático; se navega à vista e governa pela casuística; se se enreda em dados económicos e se atrapalha em tudo o resto, a oposição não pode pretender ser um pragmatismo de sinal contrário. Vence, sendo diferente. Vence, sendo autêntica e ultrapassando pela direita, como Assunção Cristas fez em Lisboa.

Se a direita quer derrotar António Costa, desmantelar a geringonça e governar o País, não faria mal que pensasse mais em governar e menos em gerir. Afinal, o seu futuro depende disso. E o nosso também.