Vamos lá dizer alto o que muitos têm murmurado baixo: estas são as eleições presidenciais com o pior leque de candidatos da história da nossa democracia.

Até agora tivemos sempre oportunidade de escolher entre figuras que haviam marcado os anos fundadores da nossa democracia. Basta recordar quem foram os cinco presidentes que elegemos e reelegemos: o general do 25 de Novembro, o fundador do Partido Socialista, um ex-líder socialista que governara a câmara de Lisboa, um antigo primeiro-ministro que conquistara duas maiorias absolutas, um antigo líder partidário que estivera na Assembleia Constituinte e se tornara no mais conhecido comentador político destes 50 anos.

Nenhum dos actuais candidatos possui um currículo semelhante aos que escolhemos para ocupar o Palácio de Belém, nem sequer semelhante a muitos dos que nas diferentes eleições os desafiaram e perderam. Julgo não me enganar muito se disser que a maioria dos eleitores, quando for votar, não o fará com entusiasmo ou mesmo com inabalável convicção. E também não me enganar que até pode acontecer que, na primeira volta, aquela “em que se escolhe”, se acaba a votar útil para evitar uma segunda volta de opções demasiado desagradáveis.

Há candidatos com indiscutíveis méritos, mas creio que nenhum deles tem a espessura ou o peso político dos líderes que nos habituámos a ver em Belém, fossem eles ou não do nosso agrado político. Por isso, apesar da abundância de opções, não me surpreenderia se voltássemos a ter uma participação eleitoral baixíssima nestas eleições presidenciais.

Os menos atentos talvez se sintam surpreendidos com esta ideia de “voltarmos a ter” poucos eleitores a votar para eleger o Presidente da República, mas convém recordar que a reeleição do “presidente mais popular de sempre” – o que ainda está em funções – aconteceu com uma ida às urnas que nem chegou aos 40%. Bem sei que vivíamos os tempos da Covid, mas isso não explica tudo pois já em 2016, na primeira eleição de Marcelo, a participação ficara abaixo da fasquia dos 50%.

Na verdade, apesar de os eleitores gostarem de eleições personalizadas e não haver eleição mais personalizada do que a para o cargo unipessoal de Presidente da República, a verdade é que estas raramente foram empolgantes e mobilizadores – mas isso só raramente aconteceu, mais precisamente só aconteceu por duas vezes: em 1981, aquando da reeleição de Ramalho Eanes numa ida às urnas realizada logo a seguir à morte de Sá Carneiro (participação de 84,4%), e na segunda volta de 1986, a famosa disputa entre Soares e Freitas (participação de 79,99%). Nessas duas ocasiões a participação eleitoral nas presidenciais superou mesmo a registada em legislativas que as tinham antecedido meses antes.

De então para cá tem sido uma hecatombe e desde 2011 (reeleição de Cavaco Silva) que nem sequer se alcança a fasquia dos 50% de participação.

Será que este ano, com candidatos menos mobilizadores, com os debates a terem audiências pouco significativas (só Ventura parece conseguir atrair os telespectadores), a abstenção ainda vai ser mais elevada? E que poderá significar para o exercício do próximo mandato presidencial um leque de candidatos fraco e uma eleição com baixa participação?

É certo que o poder do Presidente da República não deriva do número de eleitores que acorrer às urnas e que o seu poder efectivo será muito mais função da forma como exercer o seu mandato do que da popularidade que tiver – algo que estes anos de mandato de Marcelo Rebelo de Sousa tornaram tragicamente evidente. Mesmo assim corremos o risco de continuarmos a ter em São Bento um governo minoritário dirigido por um primeiro-ministro que se especializou na navegação à vista e de em Belém um Presidente com a mesma autoridade formal de sempre (a Constituição não mudou) mas com menos autoridade política.

Não é uma fatalidade que isso faça do próximo inquilino de Belém um mau Presidente – mais difícil é ver como é que qualquer dos candidatos que temos visto nos tristes debates destas últimas semanas poderá algum dia restituir à Presidência a influência e o peso que ela já teve em mandatos que não o de Marcelo.

Dito isto, estou como ainda estarão muitos eleitores – indeciso sobre em quem votar. E desconfiado do sobe e desce das sondagens – a sua volatilidade é também um sinal de como é tristonha esta eleição, porventura a mais tristonha de todas as que tivemos para Belém.

Só espero que não se revele também perigosa, ou de resultado perigoso – não por quem possa ser eleito, mas por dela resultar uma Presidência de autoridade diminuída. Na fase que o país vive não é o melhor dos cenários.

PS. António Filipe disse que a posição final de André Ventura relativamente às alterações da legislação laboral serão como que a “prova do algodão”. Tem razão na alegoria, não no desejo: o voto do Chega e a capacidade que o governo tiver ou não para fazer uma boa reforma negociando com o Chega serão a “prova do algodão” para sabermos se continuaremos a ter apenas um Montenegro a navegar à vista ou se há uma réstia de esperança de que alguma coisa se faça neste país, que afinal ainda será possível tentar reformar, e não apenas retocar, a nossa economia e o nosso Estado.