A infertilidade é reconhecida como uma condição médica que afeta cerca de 15% da  população em idade fértil. Mais do que um desafio individual, esta é uma questão  de saúde pública, com impacto ao nível demográfico, social e económico. Por isso, a resposta do sistema de saúde deve ser estruturada, acessível e eficaz. No atual  contexto político, em que se discutem as prioridades dos próximos quatro anos, é  importante analisar o que está em cima da mesa por parte dos principais partidos  políticos no que toca à fertilidade e procriação medicamente assistida.

Nos últimos anos, verifica-se um aumento significativo da procura por tratamentos  de Procriação Medicamente Assistida (PMA). Esta procura é o reflexo de múltiplos  fatores: o adiamento da parentalidade, a infertilidade, alterações nos modelos familiares e maior visibilidade dos tratamentos disponíveis. No entanto, esta crescente procura  tem evidenciado fragilidades no Serviço Nacional de Saúde (SNS), com listas de  espera que, em alguns casos, ultrapassam os três anos. Estas demoras não só  adiam projetos de vida, como contribuem para práticas de risco fora do circuito clínico  regulado, nomeadamente a procura por dadores nas redes sociais.

Face a este cenário, e com as eleições legislativas à porta, é importante analisar com  atenção as propostas dos partidos com maior expressão eleitoral. O Partido Socialista (PS), propõe “assegurar o direito à procriação médica assistida”, através da  redução das listas de espera em 30% ao ano, com o objetivo de garantir uma resposta  mais célere do SNS. Esta proposta aponta para a priorização do acesso, mas não  especifica medidas estruturais para o reforço da capacidade instalada nos centros de  PMA.

O Partido Social Democrata apresenta um programa mais detalhado, com foco no  reforço da rede pública de apoio à fertilidade e na reorganização da resposta no  SNS. O projeto propõe o investimento nos centros públicos de PMA – em recursos  humanos, equipamentos e infraestruturas -, a autonomização funcional e financeira do  Banco Público de Gâmetas, a colaboração com entidades privadas, a referenciação  precoce pelos médicos de família e a melhoria dos protocolos clínicos. A estas propostas  do PSD, acrescem ainda propostas como a colaboração com entidades privadas, a  referenciação precoce por médicos de família e a revisão dos protocolos clínicos.

Também o Chega apresenta propostas para esta área. Investir no diagnóstico precoce  em situações de infertilidade, reforçar os apoios sociais e as respostas públicas são  algumas das medidas escritas no programa do partido. Também é proposta a criação  de centros de atendimento projetados para responder às necessidades exclusivas das  mulheres, e que incluem as especialidades médicas de ginecologia, obstetrícia,  fertilidade

Estas propostas demonstram que o tema está presente na agenda política, ainda que  com diferentes níveis de detalhe e abordagem. Mais do que discutir orientações  partidárias, o fundamental é garantir que o próximo Governo, seja ele qual for,  coloque efetivamente a infertilidade e a Procriação Medicamente Assistida como  áreas prioritárias da política de saúde. O compromisso com a melhoria do acesso,  com a eficiência das respostas clínicas e com a valorização dos profissionais e das  infraestruturas deve ser transversal e duradouro.

Tratar a infertilidade não é apenas uma questão médica — é também uma questão  de justiça social, de igualdade de oportunidades e de respeito pela autonomia  reprodutiva dos cidadãos. O país precisa de uma estratégia clara e sustentável que  responda às necessidades dos utentes, promova a natalidade de forma responsável e  assegure que nenhum casal ou indivíduo fica sem resposta por falta de meios.