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A força da nova educação

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O sistema de educação tem de mudar, uma vez que não podemos continuar a ensinar o mesmo às nossas crianças porque é impossível competir com máquinas. É preciso ensiná-las algo único.

Gosto de pensar que a educação é um tema que nos é querido a todos. Mas este urge um debate intergeracional, tendo em vista pôr em prática medidas e iniciativas que espelhem a rapidez e complexidade deste admirável mundo novo pós-Aldous Huxley.

Quando pensamos em educação, pensamos num processo contínuo ao longo da nossa vida no que toca ao desenvolvimento, reconversão e reforço de competências. Nessa linha, estas vão também evoluindo. Para 2020, o Fórum Económico Mundial indicou que as top 10 competências estarão relacionadas com a resolução de problemas complexos, pensamento crítico, criatividade, gestão de pessoas, colaboração com outros, inteligência emocional, capacidade de decisão, orientação para o serviço, negociação e flexibilidade cognitiva. Tais competências devem ser em primeiro lugar estimuladas e descobertas para depois poderem ser testadas, experimentadas e só depois trabalhadas e aperfeiçoadas.

Estudos recentes revelam que até aos 3 anos de idade, o cérebro atinge 80% do volume total adulto e que quanto maior é o estímulo mental das crianças aos 4 anos, mais desenvolvidas serão determinadas partes do cérebro. É aqui que começa a idade dos porquês. E, de facto, algo tão simples como ler histórias a crianças irá fazê-los perguntar coisas. É aqui que começa a construção do espírito e pensamento crítico.

Para além disso, numa era cada vez mais digital, crianças destas idades que ainda nem sequer aprenderam a ler já sabem ir ao Netflix e ao YouTube escolher e selecionar informação mais rápido do que um adulto. Por outro lado, em idade adulta, assistimos a um paradoxo, uma vez que há uma grande dificuldade em interpretar informação e tomar decisões.

Exemplo disso mesmo foi o último referendo inglês em que apenas 36% dos britânicos entre os 18 e 24 anos votaram. Um estudo recente da Universidade de Leicester, publicado no jornal World Development, reforçou que o nível de educação dos votantes (e não a idade, género ou nível salarial) foi o fator determinante que ditou o afastamento do Reino Unido da UE. Se é certo que na escola aprendemos sobre a história política ao longo de vários séculos, a verdade é que a realidade política atual costuma estar fora dos manuais escolares. Para além disso, e conforme apresentado pelo Financial Times, a descredibilização e dados contraditórios que os media foram apresentando sobre as diferentes fações partidárias bem como o processo eleitoral arcaico, moroso, presencial e sem possibilidade de voto digital contribuíram também decisivamente para a enorme abstenção jovem.

Há quem considere ainda que o digital pode ser sinónimo, ironicamente, de isolamento social como um estudo do ISPA de 2014 que mostra que quase três quartos da população Portuguesa até aos 25 anos apresenta sinais de dependência do mundo digital. Na minha ótica, há que ver este facto de outro prisma, e explorar as oportunidades que o digital apresenta para ensinar e trabalhar outro tipo de competências que possam contribuir positivamente para o futuro das novas gerações. Para que tal aconteça, e concordando com o que Jack Ma, presidente executivo da Alibaba, disse em Davos recentemente, o sistema de educação tem de mudar, uma vez que não podemos continuar a ensinar o mesmo às nossas crianças porque é impossível competir com máquinas. É preciso ensiná-las algo único, é preciso ensiná-las a pensar, a colaborar, a adaptar-se, a mudar.

Neste capítulo, exemplos como o da escola italiana H-International School são verdadeiramente inspiradores. Esta escola tem um programa formativo desde o pré-escolar até à universidade com currículos e plataformas digitais e onde a imaginação e a inovação dão o mote. Os estudantes aprendem sobre temas invulgares como brain computer interfaces, astronomia ou realidade virtual e estão inseridos num ecossistema com empresas, investidores e startups. Para além disso, esta escola não se situa em grandes metrópoles como Milão ou Roma como se poderia pensar mas sim em Treviso, Monza ou Vicenza.

Por outro lado, é importante lutar para promover competências que não são totalmente desenvolvidas e exploradas na escola tradicional, através por exemplo da música, do cinema, do desporto ou do teatro. E Portugal bem precisa, uma vez que menos de 1% do Orçamento de Estado vai para a cultura e as artes…

O espírito de equipa do desporto, a disciplina, memorização e estruturação musical ou a liberdade e criatividade do teatro são de facto aspetos que podem ser marcantes e essenciais para o crescimento pessoal de qualquer ser humano. Numa nota pessoal, seguramente que a prática de basquetebol, bateria ou teatro de improvisação me deram aprendizagens importantes e acima de tudo, mais conhecimento sobre mim próprio, sobre os outros e sobre o que me rodeia.

Indo ao encontro ao que o brilhante neurocientista português António Damásio escreveu no seu famoso livro ‘O Erro de Descartes’, trabalhar as emoções é essencial uma vez que estas nos indicam “uma direção, levam-nos ao local apropriado do espaço de tomada de decisões onde podemos tirar o melhor partido dos instrumentos da lógica”. Juntando o raciocínio lógico que a matemática ou a física desenvolvem, às emoções que o teatro ou a música trabalham, importa adicionar uma terceira dimensão, a da experiência.

É importante “ter mundo”, é importante viver diferentes realidades para se conhecer o que melhor existe, como se pode inovar e o que se deve evitar. Confesso que tive receio da primeira vez que saí de Portugal para viver no estrangeiro em 2008. Passados 10 anos e mais de 40 países depois, coisas como trabalhar em espanhol sem bases prévias da língua e negociar com hotéis, restaurantes e oficinas de carros na República Dominicana; estudar o perfil de estudantes alemães, através de entrevistas bastante pessoais para entender que solução tecnológica poderia ser mais adequada para melhorar a sua comunicação; ou enfrentar casos de racismo e xenofobia de clientes asiáticos com membros da minha equipa na Malásia; são histórias e experiências de vida que me irão sempre acompanhar, cuja partilha podem ajudar outras pessoas e que considero verdadeiramente educativas.

No mundo atual, em constante mutação e atualização, os mais velhos, sejam eles professores, engenheiros, médicos ou gestores de empresas têm também a aprender com os mais novos. Deverão portanto criar condições e ter a abertura necessária para que isso aconteça no seu dia-a-dia, de uma forma natural. Neste sentido, iniciativas como o MUDA (Movimento pela Utilização Digital Ativa) são de louvar. Este movimento tem como objetivos principais a redução do número de pessoas que nunca acederam à internet em Portugal bem como o aumento do número de utilizadores da Internet com competências mais avançadas. Uma das suas principais áreas de atuação é o desenvolvimento de um programa de voluntários que procura que os jovens sensibilizem os seus familiares e amigos mais velhos sobre as potencialidades do digital. Ou então, façam como o meu avô e não tenham medo de aos 86 anos voltar à escola e ir aprender informática!

Diogo Alves tem 29 anos e é vice-presidente na A2D Consulting, focando-se na transformação digital de grandes corporações e no desenvolvimento de competências digitais das suas equipas. É ainda professor convidado na Universidade Católica Portuguesa onde leciona Empreendedorismo e Inovação. Viveu em quatro continentes, estudou em Lisboa, Paris, Hong Kong e Londres. Juntou-se aos Global Shapers em 2016.

O Observador associa-se aos Global Shapers Lisbon, comunidade do Fórum Económico Mundial para, semanalmente, discutir um tópico relevante da política nacional visto pelos olhos de um destes jovens líderes da sociedade portuguesa. Ao longo dos próximos meses, irão partilhar com os leitores a visão para o futuro nacional e global, com base na sua experiência pessoal e profissional. O artigo representa, portanto, a opinião pessoal do autor enquadrada nos valores da Comunidade dos Global Shapers, ainda que de forma não vinculativa.

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