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Natureza, tecnologia e liderança: que futuro queremos traçar?

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Que visão de futuro queremos comunicar e que caminho queremos traçar? Um futuro cheio de verdades inconvenientes e inação ou um futuro integrado, holístico, colaborativo e sustentável?

Parecem corpos estranhos dentro de um mesmo universo, mas a natureza, a tecnologia e a liderança têm mais em comum do que à partida poderia parecer. Na verdade, a sua correlação, complexidade, evolução e sintonia são a chave para um mundo melhor.

Tudo começou há biliões de anos com a origem do espaço, do sistema solar e da vida nos oceanos e na terra. Se os quatro elementos da natureza (o ar, a terra, o fogo e a água) são interdependentes e indispensáveis à vida, a espécie humana foi seguramente revolucionária para que esta dinâmica evoluísse e fosse sendo cada vez mais complexa.

Por um lado, acontecimentos tão marcantes e importantes como o Big Bang, o advento do Homo Sapiens e a teoria da evolução natural das espécies de Darwin, as revoluções agrícola e industrial ou a chegada do primeiro homem à Lua, são factos históricos fundamentais de serem estudados por toda a Humanidade. Por outro lado, é relevante fazer a ponte para o estado atual do planeta, e sobretudo para os seus enormes desafios nos domínios da Sustentabilidade, da Tecnologia e da Liderança.

E é, infelizmente, nessa evolução e dinâmica que a nossa iliteracia é assustadora. Consideremos a água enquanto exemplo. Charles Fishman diz-nos no seu livro “The Big Thirst” que o corpo humano é composto em 60% por água nos homens, e 55% nas mulheres e que o sangue é 83% composto por água. A agricultura utiliza 70% de toda a água, e metade desta é perdida. A superfície terrestre é composta em mais de 2/3 por água. Contudo, a água que podemos beber representa apenas 1% de toda a água na Terra. A água é um recurso tão valioso e tão escasso e mesmo considerando tudo isto, o verdadeiro preço da água não se reflete na carne que comemos, ou até nos computadores e telemóveis que utilizamos diariamente. Em suma, algo tão importante como a água não deve continuar a ser visto como algo garantido porque, de facto, não o é! Deve ser analisado à luz do seu impacto biológico, social, económico e sustentável, tal como a dinâmica entre o homem e as outras espécies.

Segundo um artigo recente do The Guardian, os humanos representam 0,01% de todos os organismos vivos, mas foram e são responsáveis por matar 83% de todos os mamíferos selvagens e 50% de todas as plantas do mundo. E a verdade é que esta estatística, infelizmente, não é nova, uma vez que já há 12 mil anos, ainda antes da primeira revolução agrícola, o planeta terrestre perdeu metade dos seus animais de grande porte com grande responsabilidade do homem, como Yuval Harari nos transmite no seu brilhante “Sapiens”.

A verdade é que nós somos o problema, mas também somos a solução. Recentemente representei Portugal e os Global Shapers no Summer Davos do Fórum Económico Mundial em Tianjin, na China, uma das melhores conferências de ciência e tecnologia a nível mundial. Nesta, tive a oportunidade de conhecer pessoas que estão a responder a estas questões, com exemplos de inovação e liderança em várias áreas, seja na produção de electricidade através de plantas vivas, na utilização de insetos para restaurar o equilíbrio dos sistemas de produção alimentar, na redução de plásticos nos oceanos, na preservação da biodiversidade e da vida selvagem ou no desenvolvimento de robots que, entre outras coisas, ajudam no tratamento e coleção do desperdício alimentar deixado pelos humanos. E se a tecnologia pode ter um impacto gigante em áreas essenciais, como a alimentação ou a água, está também ao serviço da disrupção de outras indústrias, pegando no exemplo do Hyperloop TT, um sistema de transporte sustentável e que trará a terra velocidades verdadeiramente espaciais.

É, pois, importante, por um lado, atribuir destaque à tecnologia, uma vez que é uma ferramenta, instrumental e decisiva na evolução, mas reconhecer que o homem continuará a ser o principal motor do desenvolvimento económico, social e cultural das sociedades, sendo crítico compreender os fundamentos e mecanismos de liderança das organizações atuais como componente fundamental deste processo de mudança, sejam estas organizações nacionais ou transnacionais, públicas ou privadas. E esse foi o foco do último Leadership Summit Portugal, co-organizado pela Tema Central e pelos Global Shapers de Lisboa.

Esta conferência trouxe ao nosso país, entre outros, a realidade (não tão distante) de Marte por Carmel Johnston, comandante da missão Hi-Seas IV da NASA e que viveu um ano a enfrentar os desafios psicológicos do que seria uma simulação de vida no planeta vermelho, bem como o impacto da 4ª revolução industrial por Kelly Ommundsen do Fórum Económico Mundial. No que toca ao nosso país, para além da importante transformação digital em curso nos mais variados sectores, da academia às empresas ao Governo, é importante, por um lado, criar as bases para uma nova educação, e por outro lado, instalar uma capacidade de inovação e preparação para o futuro nestes stakeholders, sem egos nem preconceitos, porque a evolução é uma questão de ritmo e não apenas de aceleração, como referiu Gabriela Alfonzo, Global Shaper de Caracas.

De referir ainda que tudo isto me inspirou no livro que estou a escrever e que contará estas e muitas outras histórias e testemunhos relevantes para a compreensão destes temas, procurando evidenciar a importância de uma liderança sustentável para o futuro. E se Darwin dizia que “a natureza é pródiga em variações, mas avara em inovação”, uma vez que evolui de forma lenta, já a evolução da Humanidade foi feita à custa de diversas inovações, progressos, mas também de retrocessos. Cabe-nos a nós ditar que visão de futuro queremos comunicar e que caminho queremos traçar. Se um futuro cheio de verdades inconvenientes e inação, ou um futuro integrado, holístico, colaborativo e sustentável.

Diogo Alves é vice-presidente na A2D Consulting, que se dedica à transformação digital de grandes empresas. Está a escrever um livro que se foca na origem, evolução e intersecção dos 4 elementos da natureza com a humanidade e a tecnologia. É ainda professor convidado na Universidade Católica Portuguesa onde leciona Empreendedorismo e Inovação e director da Associação Federal Alemã de Sustentabilidade. Juntou-se aos Global Shapers em 2016.

O Observador associa-se aos Global Shapers Lisbon, comunidade do Fórum Económico Mundial para, semanalmente, discutir um tópico relevante da política nacional visto pelos olhos de um destes jovens líderes da sociedade portuguesa. Ao longo dos próximos meses, partilharão com os leitores a visão para o futuro do país, com base nas respetivas áreas de especialidade. O artigo representa, portanto, a opinião pessoal do autor e não vincula o Global Shapers Lisbon Hub.

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