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Existem diferentes hipóteses que poderão descrever o modo como o leitor aterrou neste artigo de opinião. Da menos provável para a mais provável, a título ilustrativo, o leitor poderá ter:

  1. Pesquisado organicamente “Nuno Borges” no Google junto da palavra “Observador” – apenas remotamente possível se for meu familiar, amigo ou colega;
  2. Pesquisado diretamente no site do Observador onde, ao percorrer as principais notícias do dia, a sua atenção foi captada pelo título do artigo e optou por abri-lo – apenas provável se o dia for parco em acontecimentos de interesse popular e não ficar contido nas celeumas diárias;
  3. Encontrado uma publicação nas redes sociais, seja minha, de pessoas que a partilharam, ou do próprio Observador, a divulgar o artigo – o cenário mais provável. Foi o caso, não foi?

Seja qual for a alternativa correta, seja muito bem-vindo. Agora que aqui está, tentarei explicar porque é que a razão mais provável pela qual aqui aterrou (3) é um potencial problema sério para a sociedade contemporânea e de que forma a regulação pode e deve intrometer-se proativamente na resolução deste problema.

A nível agregado, existe hoje um conjunto de evidência estatística avassaladora que suporta a ideia de que, cada vez mais, a informação consumida pelo cidadão médio tem origem nas redes sociais. Segundo o Pew Research Center, em 2008, apenas 1 em cada 8 americanos dizia consumir notícias através de redes sociais. Em 2019, este valor subiu para 7 em cada 10. Facebook e Twitter destacam-se como os principais porta-estandartes deste novo paradigma, onde mais de metade dos seus utilizadores consomem notícias diretamente nestas plataformas.

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Simultaneamente, não só as notícias são mais consumidas através de redes sociais, como existe uma contraditória e crescente consciência quanto à falta de rigor da informação que reside nestas plataformas. Em Portugal, por exemplo, segundo o estudo partilhado em 2020 pela Digital News Report, 3 em cada 4 portugueses diz-se preocupado com a legitimidade dos conteúdos da internet, preocupação essa, alicerçada na atuação das redes sociais. De facto, todos nós já fomos alvo de fake news nas nossas redes, ora de forma mais diáfana, através de publicações mal escritas e visualmente pouco prováveis de emanarem credibilidade, ora de forma mais subliminar, de tal modo que mesmo as entidades de informação mais críveis podem ser apanhadas incautas, como no afamado caso da capa falsa do NY Times divulgada pela estação televisiva SIC.

A combinação destas duas realidades faz agitar bandeiras de desassossego sobre o papel que as redes sociais têm na sociedade civil, em particular, na forma como moldam e toldam a opinião pública e na justa medida de como estas plataformas aparentemente indefesas acabam por ter impactos tangíveis na forma de fazer política e, ultimamente, na direção das decisões tomadas.

Prova da relevância deste tema está na crescente visibilidade do mesmo dentro do seio da comunidade científica. A edição de Março do jornal académico American Economic Review – reputada publicação que divulgou na sua já centenária história trabalhos de 13 futuros vencedores do Nobel da Economia – destaca o recente paper de Ro’ee Levy (MIT) sobre a relação perniciosa entre “Redes Sociais, Consumo de Notícias e Polarização”. Este trabalho empírico destaca-se pelo método de investigação assente em entrevistas a uma amostra de mais de 30 mil utilizadores do Facebook, sendo assim um estudo em larga escala que permite retirar conclusões estatisticamente significativas – jargão para “podemos ter certeza de que o que estamos a concluir é válido e não é enviesado pelas idiossincrasias da amostra de pessoas que foram entrevistadas”.  Este paper, focado no Facebook mas com conclusões extensíveis a outras redes sociais, contribui com quatro grandes conclusões para a discussão.

1. #FacebookMatters

A primeira descoberta do autor prende-se com o poder de influência do Facebook na tipologia de notícias consumidas pelos utilizadores da rede social. O paper demonstra que os utilizadores são fortemente influenciados pelas publicações que veem no Facebook, de tal modo, que mesmo que estas publicações sejam contrárias às suas opiniões sobre algum tema, em média, os utilizadores tendem a aumentar o seu interesse e curiosidade pelos temas partilhados. Por exemplo, um utilizador ideologicamente liberal, quando impactado por publicações conservadoras, tende a procurar mais informação sobre a corrente conservadora do que se não tivesse sido impactado por essa mesma publicação dita contrária.

Consequentemente, podemos inferir, que apesar de existir uma natural tendência para as pessoas procurarem informação que se alinhe com as suas posições sobre um determinado tema – fenómeno conhecido como o viés da confirmação -, quando impactadas por um choque exógeno que promova a visibilidade sobre uma corrente de opinião contrária à original, as pessoas não se retraem, pelo contrário, envolvem-se com a sua antítese. Veremos mais à frente porque é que isto é relevante.

2. Exposição a posições contrárias ameniza a polarização

A segunda descoberta do autor diz respeito ao efeito no nível de polarização e radicalismo na opinião de cada pessoa consoante tenha sido impactada por publicações contrárias à sua visão. As conclusões são particularmente curiosas. Através da monitorização de um índice de polarização que mede a intensidade da relação de cada pessoa com a posição contrária, o autor descobre que, quando impactadas por publicações contrárias, as pessoas tendem a exibir uma redução no seu nível de radicalização.

Existem várias razões que podem justificar este efeito. Por exemplo, as pessoas expostas a publicações contrárias, uma vez que genericamente aumentam o seu nível de procura por informação contrária às suas visões (efeito 1), estarão suscetíveis a aprender novos factos e opiniões que promovam um maior entendimento do racional subjacente às posições contrárias. Por exemplo, um liberal ao ser impactado por publicações conservadoras, terá oportunidade e interesse reforçado em aprofundar o seu conhecimento pelas razões fundamentais do conservadorismo e, com isso, aumentar o seu nível de tolerância ao ideário oposto. Outra razão para esta redução da polarização poderá estar simplesmente na normalização da crítica. Estar exposto apenas a visões alinhadas com as suas promovem nas pessoas um ciclo vicioso de radicalização. O simples facto de se ler e ouvir sobre visões opostas poderá gerar um efeito suavizador que normaliza a crítica e a oposição. Talvez por isto, em qualquer regime político radical, a exposição a informação contrária à corrente, usualmente ditada por modelos ditatoriais, é limitada. Precisamente porque tudo o que permita normalizar a visão contrária não serve os interesses de qualquer agenda radicalista.

3. Exposição a posições contrárias ameniza a polarização, mas talvez não seja suficiente para alterar a opinião

A terceira descoberta do autor tem que ver com o impacto das publicações contrárias na direção da opinião original de cada pessoa sobre um determinado tema. Isto é, se a exposição a publicações pró-liberais poderá ser suficiente para que uma pessoa de ideologia conservadora se torne liberal. A resposta é globalmente neutra. Não existe um impacto estatisticamente significativo no índice de opinião de cada pessoa.

Assim sendo, apesar do Facebook poder ter um impacto material no nível de polarização de cada pessoa, parece insuficiente para mudar diametralmente a sua posição sobre algum tema. Dito isto, pessoalmente, acredito que este ponto carece duma análise mais robusta. O período temporal curto do estudo poderá não ser suficiente para permitir observar o impacto de publicações opostas e sistemáticas na posição futura de cada pessoa, especialmente porque algo tão fundamental como a opinião ideológica move-se, tendencialmente, mais como um porta-aviões do que como uma lancha rápida.

4. O algoritmo do Facebook tem um papel crítico no aprofundar da polarização

A quarta descoberta do autor, última e que permite a quadratura do círculo bicudo das redes sociais, incide sobre o papel que o algoritmo do Facebook desempenha na tipologia de publicações expostas a cada pessoa e o impacto último no nível de polarização. De acordo com o paper, a principal razão pela qual as pessoas apresentam um excesso de exposição a publicações alinhadas com as suas opiniões, quando comparado com publicações contrárias, tem que ver, sobretudo, com a forma de atuação do algoritmo do próprio Facebook.

Conforme demonstrado na análise, os utilizadores expostos a publicações contrárias, apesar de aumentarem o seu interesse e curiosidade pela posição oposta (efeito 1), apresentam índices globais de utilização do Facebook menores. Assim, o Facebook tem um claro interesse em minimizar o desalinhamento entre a tipologia das publicações e a posição original dos seus utilizadores, de modo a que o seu objetivo último, enquanto rede social – engagement, i.e., utilização e envolvimento com a plataforma – seja assegurado. Maior engagement permitirá que o Facebook venda o seu produto, os anúncios pagos a um preço mais alto, maximizando assim os resultados financeiros. Exemplificando, quer isto dizer que o modelo de negócio do Facebook gera incentivos orgânicos tal, que a plataforma favorece apresentar apenas publicações pró-liberais a pessoas tendencialmente liberais e apenas publicações pró-conservadoras a pessoas tendencialmente conservadoras.

Daqui decorre que Facebook e redes sociais equivalentes – por exemplo, o Twitter ordena os tweets de acordo com o nível de interesse esperado de cada tweet para cada utilizador, calculado com base em fatores como os dados de interação passados entre os utilizadores impactados pelos tweets e os utilizadores criadores do tweet – desempenham um papel fundamental no aprofundamento da polarização e radicalização de opiniões. Ao limitar a exposição a posições contrárias, a polarização de opiniões não é amenizada, mas sim exacerbada. Tudo devido ao modelo de negócio das redes sociais e ao seu poderoso algoritmo alimentado a vício.

E o que é que podemos retirar destas descobertas de um ponto de vista acionável?

A boa noticia é que da mesma forma que Facebook e similares, com o modelo de negócio e regulação corrente, são uma das causas potenciais da radicalização da opinião pública atual (haverá certamente outros fatores), estes são também a ferramenta ideal para a combater. Tal como concluído no efeito 2, a existência de um choque exógeno que seja responsável pela apresentação de publicações contrárias à da opinião original de cada pessoa, é responsável pela redução da polarização. A questão está, naturalmente, em como precipitar este choque exógeno quando, pura e simplesmente, não é do interesse legítimo e privado da empresa em questão.

É justamente aqui que entra a regulação. A regulação tem o papel basilar de controlar e limitar a atuação das entidades quando estas, de forma livre e autónoma, não têm esse estímulo. Seja em nome da justiça, ambiente ou motivos de força económica, a regulação desempenha o papel de árbitro em múltiplas questões da sociedade civil. Como regra geral, o regulado não deve ser o seu próprio regulador e a regulação externa só é escusada em cenários muito específicos como o de crise e benefício próprio. No caso das redes sociais, vemos que este até pode ser o caso. Pela perceção pública das falhas dos modelos de negócios das grandes tecnológicas, do Facebook, ao Twitter, ao próprio YouTube (domínio Google), são as próprias empresas que têm dado os primeiros passos em temas críticos, como segurança e privacidade dos dados até ao próprio problema das fake news. Veja-se o caso recente das redes sociais que baniram as contas do ex-Presidente Trump ou as crescentes iniciativas de fact checking.

Dito isto, é preciso ir mais além. O tema em discussão, dada a importância clara que tem para a sociedade e para a sua saúde democrática, urge a atuação pronta e rápida dos reguladores. Os riscos de uma sociedade radicalizada são sobejamente conhecidos e os recentes episódios dos ataques ao Capitólio norte-americano são a prova viva de que uma sociedade polarizada não é só politicamente ineficiente, diminuindo a probabilidade de consensos e pactos governativos, como é perigosa e uma ameaça clara à integridade de uma sociedade por muito avançada que esta seja. Deixar a regulação unicamente ao abrigo da vontade própria de empresas como o Facebook é um auto de fé demasiado arriscado e com um preço democrático a pagar muito elevado.

O regulador deve atuar. Deve atuar de forma a acelerar a diversificação dos conteúdos das publicações de que os utilizadores das redes sociais são alvo. Tecnologicamente é possível, tratando-se de uma mera inclusão de uma restrição ao algoritmo de personalização. Uma espécie de introdução de quotas nos conteúdos expostos que garanta pluralidade de opiniões, a favor e contra as posições tendenciais de cada utilizador, sobre cada tema. Mudanças desta dimensão, envolvendo empresas cujas ramificações supranacionais se confundem com um poder omnipresente, requerem visão, coragem e, sobretudo, meios. Meios esses que estão, por exemplo, perfeitamente ao alcance do recém-empossado presidente do Conselho da União Europeia. Haja vontade.

“Liga-te aos teus amigos e ao mundo à tua volta através do Facebook” é a mensagem de boas-vindas da plataforma aos seus utilizadores. O Facebook e as redes sociais já provaram a sua bipolaridade, sendo capazes de cumprir desígnios altamente nobres como a união multicultural dos povos, como sendo capazes de, mesmo que sem má fé, contribuírem para a radicalização da sociedade. Para que o lado bom da história subsista, importa sermos argutos ao anteciparmos os problemas e objetivos ao atuarmos de forma rápida, contundente e justa. No final, deve vigorar um sistema onde as redes sociais servem o interesse da sociedade e não o contrário.