Em linguagem corrente “vinho a martelo” é uma expressão usada para referir a falsificação do vinho através da adição de água, alcool de outras origens e outros produtos. Assistimos hoje em dia, nas sociedades ocidentais, a uma falsificação equivalente da nossa História. Mas ao contrário do que se passa com os falsificadores vinícolas que escondem as suas malfeitorias e que, quando apanhados, são condenados, os mixordeiros da História exibem a mixórdia, querem impô-la aos outros e andam por aí impantes e muito orgulhosos da sua acção.

Vem isto a propósito de outra estátua caída. Em Boston, Massachusetts, foi retirada do espaço público uma estátua de bronze que representa um escravo negro ajoelhado aos pés de Abraham Lincoln, em aparente agradecimento ao presidente norte-americano. A estátua, uma criação do escultor Thomas Ball, é cópia de uma outra que ainda se ergue em Washington, D.C., e estava num parque de Boston desde 1879. Foi agora retirada. Cerca de 12 mil pessoas assinaram uma petição pedindo a remoção da dita escultura e as autoridades da cidade de Boston fizeram-lhes a vontade por considerarem que a estátua perpetuava “preconceitos nocivos” e obscurecia “o papel dos americanos negros na formação das liberdades nacionais”.

Ou seja, parece que há, no nordeste dos Estados Unidos, gente que se sente ofendida, incomodada — “desconfortável” foi a palavra usada para fundamentar a retirada da estátua —, com a imagem de um escravo negro ajoelhado, humilde e grato, perante Abraham Lincoln. Paradoxalmente, é gente que rejeita os personagens históricos, eventualmente seus antepassados, como se tivesse vergonha deles. Porque a estátua que acaba de ser retirada da baixa de Boston não é apenas o suporte e veículo de um certo simbolismo, nem é apenas a tradução de uma ideia ou a interpretação que o escultor fez de um determinado momento histórico. Ela representa a verdade historicamente documentada como se fosse uma fotografia dos acontecimentos. Efectivamente, quando, no início de Abril de 1865, já na fase final da Guerra da Secessão, Lincoln entrou em Richmond, Virginia, viu-se aclamado por uma multidão de escravos libertados como “o grande Messias” e teve de lhes pedir que não se ajoelhassem à sua passagem. Disse, nomeadamente, a um ex-escravo negro, que caiu de joelhos à sua frente, “Não te ajoelhes perante mim. Isso não está certo. Deves ajoelhar-te apenas perante Deus e agradecer-Lhe pela liberdade que irás usufruir de hoje em diante”. Ou seja, viveu-se em Richmond, naquele dia de Abril de 1865, uma cena muito semelhante à reproduzida na estátua agora retirada de Boston.

Os verdadeiros escravos, aqueles que viviam nos Estados Unidos, em 1865, e que se viam libertados graças à acção politica de Lincoln e à vitória do Norte sobre o Sul, sabiam aquilo que deviam ao presidente norte-americano e estavam-lhe agradecidos. Foram, aliás, negros libertados — é importante dizê-lo e sublinhá-lo — que custearam o original desta estátua agora retirada, original esse que, como já referi, ainda está à vista de todos em Washington, D.C.

As actuais camadas bem pensantes, brancas e negras, que fazem gala em ser mais revoltados do que os escravos de então, distanciaram-se da gratidão desses antigos escravos e construiram uma narrativa, falsa, segundo a qual os negros se terão libertado a si próprios, não devendo, por isso, nada a ninguém, muito menos aos brancos. Trata-se de uma narrativa orgulhosa, confrontacional e tacanha que apaga o papel fulcral, absolutamente decisivo, que os abolicionistas brancos tiveram na história da abolição da escravidão.

Eu comecei a escrever sobre esta temática em Abril de 2017 num artigo intitulado “Paint it Black”, no qual critiquei quem pretendia apagar os historiadores brancos da historiografia da escravatura. Passaram-se quase quatro anos e estamos na mesma ou pior. É a afirmação desse espírito de apagamento que derruba estátuas ou que as retira do espaço público, de acordo com a agenda da extrema-esquerda. É verdade que esta lamentável mania tem-se feito sentir sobretudo no mundo anglo-saxónico e que essa onda maníaca ainda não se afirmou em Portugal. Houve um prelúdio disso, a propósito de uma estátua de António Vieira, mas a coisa esmoreceu. Todavia é quase certo que a onda cá chegará e há razões para duvidar de que os nossos políticos tenham, perante ela, a firmeza que Emmanuel Macron revelou há meia-dúzia de meses quando garantiu que a França “não apagará nenhum nome, nenhum vestígio da sua história, não retirará nenhuma estátua”. Haverá Macrons em Portugal? Não se sabe porque, a este respeito, e geralmente falando, os políticos portugueses têm guardado de Conrado o prudente silêncio. Em Portugal, a esquerda moderada e a direita, ambas entorpecidas, ainda não perceberam o que se joga aqui, ainda não se deram conta de que há uma guerra cultural em curso e de que quanto mais caladas estiverem mais perto estarão de perdê-la.

O resultado dessa provável derrota vai ser — já começou a ser — uma descarada falsificação da verdade. Os tempos modernos, marcados pelo politicamente correcto, estão-se nas tintas para a verdade. História? A única História que interessa aos cérebros politicamente correctos, a única a que reconhecem direito de cidade, é a História contada por eles, ou seja, uma narrativa geralmente ignorante, moldada por certos cânones do pensamento de esquerda e que tem muito mais a ver com mitos do que com a realidade documentada.

Documentos? Os politicamente correctos escondem os documentos ou ignoram-nos, recusam-se a tomá-los em linha do conta, a única coisa que lhes interessa, e que valorizam, são as representações do passado que se enquadram na liturgia do admirável mundo novo que nos querem impor. Há uma parte do Ocidente que, no que respeita a estátuas e outras representações e visitações do passado, vai a caminho de uma espécie de Fahrenheit 451: Grau de Destruição. É bom estar alerta para não lhe seguir os passos.