Como os mais prescientes há muito avisaram, a imigração tornou-se um assunto político de primeira ordem. Portugal juntou-se agora ao clube. A razão de este tema estar no topo da agenda de todos os países sem excepção é também a mesma para todos eles: o volume dos fluxos migratórios e das populações estrangeiras residentes, mas também de nacionalidade recente. Antes dizia-se que, se os outros países europeus tinham problemas desse tipo, era porque não tinham a nossa vocação universalista, nem conheciam as nossas misteriosas práticas tolerantes. Hoje já percebemos que isso foi tudo uma nobre mentira que contámos a nós próprios.
Na geografia europeia, o debate em torno da imigração é notavelmente homogéneo. Com uma ou outra excepção, de que a fórmula esquerdista de Sahra Wagenknecht, na Alemanha, é provavelmente o exemplo mais sonante, a imigração tem sido debatida nas democracias ocidentais em grande medida como uma fractura que separa a direita da esquerda. Hoje não me interessa reproduzir os argumentos que ouvimos em toda a parte de um lado e do outro da barricada. Interessa-me, outrossim, percorrer alguns dos elementos mais profundos da teoria política que orienta uns e outros. No fundo, quais são as razões filosóficas e morais que alegadamente sustentam o que os políticos e seus apoiantes defendem (e atacam) no espaço público democrático. Comecemos pelos extremos.
A extrema-direita revê-se apenas numa sociedade radicalmente homogeneizada, e foi com indesmentível frequência inspirada por teorias raciais da evolução dos povos. O fechamento da sociedade é visto como condição não apenas da sua sobrevivência, mas também o que lhe permite galgar os degraus da grandeza histórica. Aceita a violência como uma espécie de executor natural e óbvio da relações entre os povos, e como inevitável na defesa da nação pura. Encurrala-se implicitamente na equivalência entre a vida social e os mecanismos bio-orgânicos que regulam a duríssima vida e morte do mundo natural. A defesa da “civilização” indica, afinal, o caminho mais directo para a barbárie.
Por seu lado, e muito menos examinada do que a extrema-direita, a extrema-esquerda, com a proclamação das fronteiras completamente abertas e exortação à imigração, tem um projecto verdadeiramente sinistro em que o motivo originário revela o ódio profundo a uma civilização que acabou para não aceitar a revolução totalitária que sempre propôs. Por isso, se o ódio de classe não é suficiente para espoletar a sempre adiada revolução, então ter-se-ão de importar os conflitos e as guerras do Terceiro Mundo, que na cabeça destas luminárias não passam de articulações confusas do ódio fundamental ao imperialismo ocidental capitalista. Deste ódio estão evidentemente isentos os infinitos imperialismos com outras proveniências étnicas, mas a ética nunca foi o forte da extrema-esquerda. Percebe-se assim melhor que o apoio à imigração massiva pela extrema-esquerda, por desejar o colapso da civilização capitalista e cristã, agora identificada como branca e ocidental, seja inteiramente compatível, neste discurso e prática de ódio, com o apoio a organizações como o Hamas ou o Hezbollah.
Deixemos os extremos como companhias perigosas. A esquerda não-totalitária e o liberalismo têm hoje posições difíceis de distinguir. Em parte porque a esquerda, depois da falência do marxismo, foi forçada a integrar os principais fundamentos do liberalismo, em parte porque a tendência do “universalismo” lhe veio das raízes históricas. Mas o mais interessante é perceber que esquerda e o liberalismo tardo-modernos partilham a mesma inclinação despolitizante, isto é, de uma ampla negação das condições de preservação do político. A esquerda porque a sua aspiração universalista de igualdade passou a ver na exclusão nacional uma outra forma de privilégio. Aflige o espírito missionário da esquerda a ideia de que os povos sejam proprietários de territórios – importando da extrema-esquerda esta crítica da origem da comunidade nacional. O liberalismo porque passou a só conseguir enxergar a liberdade pessoal enquanto soberania do indivíduo e a verter o consequente cepticismo relativamente ao valor de entidades colectivas.
Esquerdistas e liberais vêem-se assim obrigados a não “excluir” ninguém. São ideologias excessivamente comprometidas com ideias abstractas às quais o mundo se deve conformar. Ora, o fundamento moral da sua defesa de fronteiras abertas — muito anterior aos argumentos económicos e ao imperativo da compaixão humanitária, para nada dizer de outros de pura conveniência política, que escutamos no debate público — é, na realidade, o da arbitrariedade moral das fronteiras. Se são arbitrárias na sua formação histórica, dizem, então não têm força moral para juridicamente excluir outros seres humanos da cidadania, nem da presença no território. Resta a ambas famílias políticas a proclamação da liberdade individual de movimento, com mais ou menos formalidade jurídica, com mais ou menos pungência emotivista, e a proibição de qualquer discriminação.
À esquerda e à direita, a rigidez ideológica deixa-nos perante impasses que se tornaram, no nosso tempo, muito perigosos. Resta-nos regressar à sensatez primordial da razão política que articula as necessidades da política e da moral, sem a ofuscação da propaganda, dos silenciamentos nem das histerias. Todas as comunidades políticas dependem de um centro de direcção e de um princípio de coesão. A ilusão da sociedade radicalmente descentralizada pós-soberana e pós-política caiu rapidamente depois das euforias liberais dos anos 90. A ilusão de que as sociedades podem prescindir de um princípio de coesão está prestes a seguir-lhe o caminho. Mas com muito mais resistência e custos infinitamente maiores.