As falsas memórias são uma das manifestações mais devastadoras da alienação parental. Elas resultam de um processo de manipulação psicológica em que a criança ou adolescente é levada a acreditar em factos que nunca ocorreram, distorcendo a sua perceção da realidade e, sobretudo, fragilizando o vínculo com o pai ou a mãe alienador.

O caso de Madalena, uma jovem que viveu durante anos sob o efeito destas falsas memórias, demonstra de forma particularmente dolorosa como o discurso de um pai/mãe alienador pode reinventar toda uma história familiar, apagando o amor, a presença e o cuidado do outro pai/mãe.

Estas falsas memórias assentam em situações em que o pai ou a mãe alienador induz a criança a acreditar que determinados acontecimentos ocorreram, quando, na realidade, nunca existiram. São narrativas estruturadas através da insistência, da repetição e de uma autoridade emocional que as transforma em “verdades” profundamente sentidas pela criança.

Nos casos de crianças mais pequenas, este processo torna-se ainda mais eficaz por causa da sua vulnerabilidade, da sua confiança total nos adultos e da natural ausência de recordações concretas que as tornam facilmente influenciáveis. O pai ou a mãe alienador aproveita essa fragilidade para preencher o vazio das memórias com histórias falsas, assegurando-se de que a criança acredita que “aquilo realmente é real”.

Na infância, existem inúmeras experiências de que não nos lembramos e essa ausência de memória permite ao pai ou à mãe alienador inventar acontecimentos, reescrevendo aquilo que nunca ocorreu. A repetição transforma o que a criança ouve, numa convicção interna.

A vulnerabilidade infantil torna-se assim terreno fértil para a manipulação, pois a falta de recordações objetivas e o poder simbólico do discurso parental permitem ao adulto moldar a interpretação da criança sobre o passado, atribuindo culpas, distorcendo comportamentos e reconfigurando afetos.

Com o tempo, essas narrativas impõem-se como verdades emocionais, condicionando o pensamento, os sentimentos e o comportamento das crianças e adolescentes alienados. O que começou como uma história inventada transforma-se numa convicção profunda,  e é precisamente nesse ponto que a alienação parental atinge a sua forma mais cruel, quando a mentira passa a ocupar o espaço da memória, e a criança acredita genuinamente que viveu algo que nunca aconteceu.

Mesmo quando, mais tarde, as crianças ou adolescentes tentam recordar as vivências com o pai ou a mãe alienado, essas lembranças surgem confusas, distorcidas ou apagadas, como se houvesse um erro em recordar. O medo de “estar enganada” ou de contrariar a versão do pai ou da mãe alienador perpetua o silêncio e o afastamento.

A experiência vivenciada de Madalena, filha alienada 

A experiência de Madalena ilustra na primeira pessoa a construção e desconstrução dessas memórias. Ela relatou-nos: “Sim, eu passei por muito desta questão das falsas memórias. Para mim são memórias a que nós não podíamos aceder, não era a questão de não aceder. Havia muitas memórias em que eu simplesmente sabia que não podia aceder nem faltar a elas”. Este impedimento de aceder à memória real revela um mecanismo de controlo psicológico em que não só se reescreve a história, como se proíbe a própria recordação. Madalena explicou ainda: “E não só isso, como narrativas que nos foram contadas, histórias que nos foram contadas pelo meu pai, que era o alienador, em que nós acreditávamos que aquilo realmente era o que tinha passado”.

As falsas narrativas que descreveu exemplificam bem a desfiguração da realidade: “Desde a minha mãe nunca nos ter levado ao médico, ou nunca fazer um jantar, ou nunca jantar connosco, ou estar sempre no telemóvel, estar sempre na época de festas, a beber e com amigos, quando a minha mãe nunca bebeu na vida dela”. A repetição transforma estas histórias em verdades emocionais: “Portanto, essas falsas memórias são narrativas que nos são contadas muitas vezes e passam a ser verdades, nós vivemo-las como se fossem verdades”. Em casos como este, o impacto é tão profundo que a própria criança acaba por testemunhar judicialmente contra o pai ou mãe alienado, convicta de estar a relatar a verdade. A Madalena recordou: “Aliás nós testemunhámos em tribunal, eu e meu irmão, estou a falar no plural porque éramos dois, nós testemunhámos em tribunal a achar que isto era de verdade e a dizer isto enquanto verdade (…) Que a minha mãe só queria saber de festas, que não tinha capacidades para cuidar de nós porque não tinha tempo para nós, não queria jantar connosco (…) E portanto, sim, é esta a visão que eu tenho das falsas memórias”.

A reconstrução da verdade no percurso de Madalena começou apenas com o regresso à casa da mãe e com o contacto com a família materna, encontro que funcionou como espelho da realidade. Como descreveu: “Mas ver fotografias quando eu cheguei a casa ajudou-me imenso. E não só com isso, como as histórias da minha família materna. Voltar a casa aos 14 anos e ouvir as histórias da minha infância, histórias que eram muito mais compatíveis com a minha vida e com a pessoa que eu era, do que aquilo que eu tinha ouvido do meu pai”.

A coerência entre o que era lembrado e o que era contado pela família materna desfez a teia de mentiras. Madalena explicou que: “Desde coisas que a minha família falava de mim enquanto uma vida muito expressiva, falava muito, e o meu pai sempre falou de mim enquanto uma vida completamente tímida e fechada. E eu sentia-me na vida expressiva. Como é que eu era esta vida que o meu pai dizia que eu era. E portanto, estas falsas memórias não batiam certo com muita coisa”.

O confronto entre a verdade sentida e a narrativa imposta trouxe dor, mas também libertação: “Foi difícil perceber que realmente havia vivido uma mentira durante 4 anos, mas depois foi muito libertador saber que aquilo não era verdade”.

Madalena partilhou também a angústia de ter vivido tanto tempo aprisionada numa versão falsa: “Quando passou a fase da tristeza, de saber como é que eu fiquei nesta mentira durante tantos anos, porque eu acho que é isto que as crianças devem sentir e por isso é que é, se calhar, às vezes difícil de lidar e não temos ferramentas para lidar com estas coisas, então quanto mais novos somos, pior. É esta questão, eu vivi uma mentira durante tantos anos. Como é que é possível? E há muitas pessoas que não conseguem sair da negação, que isto não é possível. Não é possível”. A alienação parental opera frequentemente como uma inversão simbólica, transformando o progenitor cuidador em figura negligente ou hostil, enquanto o alienador assume o papel de protetor. Madalena descreveu: “E há situações concretas que são graves, que são situações em que a pessoa pensa que o pai ou a mãe devia ter cuidado e que não cuidou. O objetivo é aqui transformar um pai ou uma mãe que foi cuidadora, que esteve presente, que participou em várias atividades do dia a dia e que esteve lá, numa pessoa que é hostil, que é agressiva, que não se interessou, que não quis saber dos filhos”.

Madalena acrescentou: “Sim, quando fui operada”, explicando que tinha seis anos e que a história foi completamente reescrita quando foi viver com o pai aos dez.”, referindo ainda que: “Eu, quando fui operada (…) ninguém sabia do meu pai. E tivemos de esperar para eu ser operada de urgência, para poder ser operada, porque não tinha a assinatura do meu pai para ir para o bloco operatório. Quem esteve o tempo todo comigo foi a minha mãe…”. Apesar disso, mais tarde ouviu a versão contrária: “Ah, a tua mãe passou não sei quantos dias em festas… quando eu fiquei contigo a passar as noites todas (…) E depois veio a família paterna e a família materna para me ver”, reforça que o pai esteve apenas uma noite, enquanto “o resto foi tudo na minha mãe”. Contudo, aos dez anos foi-lhe dito: “Tua mãe passou não sei quantos dias em festas, quando eu soube que tu tinhas de ser operada fiquei lá contigo os dias todos e a tua mãe foi para não sei onde festejar”. Esta inversão completa representa o mecanismo central da alienação. A criança, sem memórias precisas, aceita a versão repetida: “Mas nós acreditávamos nisto porque era tão convincente da maneira como eles diziam repetiam tantas vezes e nós, só pode ser verdade, não é?”. Acrescentou ainda: “E depois para além disso, eu queria ter outro fator que era o meu pai e a minha madrasta, eram duas pessoas a contar-me esta verdade. (…) E portanto só o meu pai quis realmente saber de mim, quando foi exatamente ao contrário!”.

Madalena esclareceu este mecanismo como uma “história em espelho”, explicando que é habitual o alienador contar a história ao contrário, dizendo que esteve presente quando foi o outro progenitor quem cuidou. Como afirma: “E, portanto, é sentido pela criança ou adolescente como sendo muito verdadeiro, muito convincente”.

O seu testemunho revela o poder destrutivo das falsas memórias na alienação parental. Através da manipulação emocional e da repetição narrativa, um progenitor pode reconstruir toda a história familiar, transformando amor em rejeição e confiança em medo. No entanto, a experiência de Madalena demonstra que a reconstrução é possível e que assenta no reencontro com a verdade, com o vínculo afetivo e com a própria identidade. O regresso à mãe permitiu-lhe libertar-se da mentira e recuperar o sentido da sua história.

A análise deste caso sublinha a importância de profissionais, como psicólogos, assistentes sociais, e magistrados adotarem uma escuta crítica das narrativas familiares, identificando cedo os sinais de manipulação emocional. Proteger crianças de processos de alienação parental passa pela restituição da verdade, pela validação da experiência afetiva real e pela prevenção das dinâmicas que permitem que a mentira se cristalize como memória.