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Tempos houve em que os governos se propunham solucionar problemas reais, traçar estratégias, atingir objetivos. Algumas vezes acertavam, outras fracassavam, assumiam e voltavam a tentar.

Hoje, os problemas são trabalhados não com soluções, mas com ficção. Intenções, delírios, notícias e propaganda, que umas vezes se destinam a mascarar outros problemas mais graves e, noutras, a criar ilusões sobre desgraças de uma incompetência assumida.

Os cães queimados num incêndio em Santo Tirso levantaram uma onda de indignação de proporções bíblicas. Antes, nunca ninguém quis saber daqueles cães, ou se importou se passaram dez anos amarrados a um eucalipto. Depois, também ninguém quererá saber de tantos outros em situação igualmente tenebrosa, espalhados em dezenas de pardieiros como aquele. E eu percebo, porque o país tem preocupações mais prementes do que a vida e morte de cães de ninguém às mãos de acumuladoras de animais.

Assunto quente em vários meios de comunicação social, e antes que alguém se atrevesse a trazer resultados dos inquéritos em marcha, já o Primeiro-Ministro, em debate quinzenal, saltava o guião das respostas ao deputado do PAN e iniciava ele próprio, o prólogo de mais uma obra de ficção. Contrariamente a todas as evidências amplamente noticiadas e conhecidas, o guionista tinha encontrado um culpado – a Direcção Geral de Alimentação e Veterinária (DGAV). Demitido o seu diretor-geral, e porque nas bancadas do coliseu de indignados se pedia sangue, decide trocar a tutela dos animais de companhia da DGAV para o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF). A partir daqui, já nenhum problema real de saúde ou bem-estar animal, ou de saúde e tranquilidade das pessoas tem qualquer relevância. A obra de ficção deve desenrolar-se num plano abstrato de intoxicação informativa, com o objetivo único de colecionar o apoio parlamentar de uma agremiação animalista e até, quem sabe, uma sedução deste eleitorado.

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Para o papel principal foi encontrado o mais bravo general deste governo, o Ministro do Ambiente e da Ação Climática (MAAC). Conhecidos os seus atos de bravura nas cruzadas contra o carbono emitido pelas vacas, carros a diesel e centrais termoelétricas, esta, ainda que uma interpretação de menor relevância política, é assumida pelo MAAC com todo o compromisso.

Depois de um intervalo de realidade, onde várias entidades entoaram um coro de contestação, alertando para os perigos da não resolução do problema de fundo e das consequências para os animais e para as populações, eis que o MAAC aplica o método e inicia a interpretação.

Despido de vaidade, visita a Casa dos Animais de Lisboa e marcha, qual general, para uma parada de cães enjaulados e de ladrar estridente. Em simultâneo, o presidente da Câmara de Lisboa anuncia, sem pudor, um investimento de 1,2 milhões de euros para uma ampliação destinada a alojar 60 cães.

O MAAC aproveita a ocasião para indicar o nome da provedora, que no ICNF irá ser a responsável omnipotente pela elaboração e execução de toda a política relacionada com os animais de companhia, incluindo “naturalmente”, como refere o MAAC, as questões de saúde pública. Laurentina Pedroso é médica veterinária, ex Bastonária da Ordem dos Médicos Veterinários e vinda de ocupar um cargo de diretora executiva da Associação Portuguesa dos Industriais da Carne. Como Bastonária, defendeu, e bem, a organização atual dos serviços oficiais de veterinária, incluindo os relacionados com os animais de companhia. Nada que preocupe para os lados das agremiações animalistas, porque neste meio da representação, as pessoas assumem vários papeis ao longo das suas carreiras.

Estava dado o mote para todas as autarquias de todo o país que agora ficarão sob a tutela do provedor: alojamentos pomposos para cães de ninguém – 20 mil euros/cão, canis cheios de animais não adotáveis e animais na rua a atacar pessoas ou outros animais, ou a encher pardieiros em espaço florestal.

Ao segundo dia, o MAAC volta a aplicar o método. Para surpresa dos que não acreditavam no seu real compromisso, visita Monchique, o segundo exemplo. Num registo mais informal, dá de comer a lamas, aprecia a ansiedade dos cães numa campanha de vacinação antirrábica e confessa de forma quase poética, que o melhor momento do dia foi quando esteve sozinho a acarinhar cães. Estava concluída a formação intensiva em animais de companhia e conquistado o coração dos mais sensíveis. A ficção e o absurdo, esses não terminariam sem uma visita a uma colónia de gatos errantes que usam máquinas de lavar em fim de vida como casotas. Do ponto de vista da reciclagem de eletrodomésticos, seria uma apenas uma medida fofinha acarinhada por um ministro do Ambiente, não fossem os gatos errantes responsáveis, em todo o mundo, pela extinção de uma série de espécies de fauna selvagem. Assim, é só ficção da terceira divisão regional.

Sobre soluções para enfrentar o número estratosférico de animais errantes, nem uma palavra. As autarquias que continuem a pagar estas fantasias com o suor dos contribuintes e que continuem a dizer àqueles que passam pela frustrante experiência de encontrar um animal errante, que lamentam, mas não têm resposta, o canil está cheio.

Haverá sempre os adeptos da realidade, funcionários com brio e instituições sérias, que quererão, no âmbito das suas competências, apurar o número exato de animais em canis e em abrigos ilegais em situação de risco e quantos desses animais necessitam de realojamento imediato antes do próximo incêndio florestal ou de uma anemia por privação de alimento.

Nessa altura, espero que os bons exemplos apontados e que os 1,2 milhões de euros de jaulas consigam realojar esses animais. Mas isso é ficção também. Na realidade, o mais provável é alguém contestar a legitimidade para fazer o levantamento da situação, tal como aconteceu com a auditoria da Ordem dos Médicos ao lar de Reguengos de Monsaraz.

A gestão dos animais errantes será agora centrada, não na proteção animal e na saúde pública, mas no animal errante como uma figura doce e indefesa, alojada num local de sonho, à espera que famílias, também elas imaginárias, adotem todos os animais recolhidos. Tudo o que de mau daqui deriva para o dia-a-dia das populações e dos animais, que é somente a dura realidade não ficcionada, não tem qualquer relevância para estes governantes. É a espuma dos dias, dizem. E ai de quem ouse interromper a ficção com algum dado acerca de uma qualquer realidade dramática que decorra destas fantasias.

Para quê resolver problemas reais se os podemos fantasiar e criar visões fantásticas, próprias de um imaginário da Disney, enquanto conseguimos acordos políticos e mais uns jobs for the boys?

Pelo meio fica, além da demissão do Diretor-Geral de Alimentação e Veterinária, a humilhação pública e desautorização da Ministra da Agricultura, a ostracização de um grupo de trabalho criado pelo Ministério da Agricultura para estudar o problema dos animais errantes e o ignorar de um sem fim de vozes de contestação – desde a Ordem dos Médicos Veterinários à Ordem dos Biólogos e Ordem dos Engenheiros, toda a fileira pecuária e até o Conselho Superior da Magistratura, que relativamente à última alteração ao Código Penal, no que toca aos crimes contra animais de companhia, publicada anda este mês, diz que a mesma “é perigosa e opressiva para o cidadão comum”.

Dentro do PS há ainda redutos de sanidade nas vozes dissonantes do ex-presidente da Comissão de Agricultura, Joaquim Barreto, e no silêncio do Secretário de Estado da Conservação da Natureza, das Florestas e do Ordenamento do Território, com a tutela do ICNF, João Paulo Catarino. Ambos homens de bem, ex-autarcas, habituados a lidar com pessoas reais no país real.

Mas nada parece ser capaz de parar esta máquina de criar fantasias.

E não tarda, o mundo imaginário da Disney chegará também aos animais de produção. A fileira pecuária tem fortes razões para estar preocupada. O mesmo MAAC  já mostrou no passado a sua intenção para com os bovinos.

Esta gente não é só alienada. É perigosa, porque tenta impor-nos modos de vida artificiais e pelo caminho destroem aquilo que arduamente construímos para a segurança e a saúde das populações. E conseguem fazê-lo sem pudor, desbaratando recursos que tanta falta fariam a resolver problemas reais das pessoas.