O Governo vai nacionalizar a TAP. Não é de espantar. A TAP é um buraco financeiro que nada, nem ninguém, tapará. Já se tentou tudo; nacionalização com gestão directa pelo Estado, gestão desgovernamentalizada, privatização quase integral, participação estatal no capital social, injecção de capitais públicos e nada resultou. Que fazer? Só faltava nacionalizar. Todos os instrumentos da presença do Estado já foram usados e falharam e este também vai falhar.

A motivação para nacionalizar não é salvar a empresa. O poder político em Portugal atira-nos com mitos à cara. Desta vez é o da TAP. Como já não colhe a dilatação da fé e do império, o que desagradaria ao SOS Racismo e quejandos, logo se perfilam outros fundamentos não menos estúpidos; é que sem a TAP, ou seja, sem a bandeira nacional na fuselagem dos aviões, não há turismo em Portugal o que é radicalmente falso; que a TAP é «estratégica» para a economia, o que nada prova, pois que o que é decisivo é a ligação aérea e bons aeroportos e acessos e não necessariamente uma companhia portuguesa;  e que os trabalhadores não podem ser abandonados, o que significa que os contribuintes o serão em vez deles.

Mas as razões de fundo são outras. Não são aqueles mitos. Percebe-se bem que o Governo nacionalize a TAP. Vejamos: a TAP será mais uma apetitosa agência de empregos para os turiferários do regime, do Partido Socialista e respectivas distintas famílias. Trata-se de uma sinecura segura para premiar fidelidades e dar a mão a parentes e amigos. A nacionalização da TAP vem mesmo a calhar numa altura em que os bons empregos públicos escasseiam. E os espantosos défices que aí virão serão pagos pelo erário público ou seja, pelos contribuintes. A esquerda radical não se incomoda com isso pois confia na anestesia fiscal e entende que é assim que a «democracia» melhora. Quantas mais nacionalizações de empresas falidas, melhor. Para a esquerda portuguesa, a propriedade do Estado tudo branqueia e os défices têm muito mais encanto porque são os contribuintes que os pagam em nome da «solidariedade» e outros disparates.

Tudo está, portanto, bem. Aí virão mais quarenta e tal gestores públicos nomeados para a TAP, a esta hora já impacientes, bem nutridos com chorudos salários e prémios de desempenho no fim do ano e já com discurso preparado para justificar o desastre financeiro vindouro sob o olhar complacente e paternal do Governo; foi a pandemia, que teima em não passar, foi a agressividade dos sindicatos, foi a conjuntura internacional, foi a maledicência da oposição, foi o neo-liberalismo. Não faltarão escapatórias. Querem apostar?

Estamos todos de parabéns. Quando sentirmos na pele o próximo aumento dos tributos indirectos nos combustíveis e nos transportes públicos, por exemplo, já sabemos para onde ele vai. Mas os portugueses gostam.